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(2) Dica pra ficar em casa: Boi Neon

Outra dica do Instituto Cultura Latina, que fica aqui na Sala de Fotografia! Também dá pra colocar mais filmes nacionais na sua lista nesses dias em casa! O cinema brasileiro NÃO é feito apenas de longas com excesso de palavrões ou comédias. Um exemplo excelente da nossa produção é o filme Boi Neon, do cineasta Gabriel Mascaro. Leia a nossa análise completa sobre o filme abaixo. Depois de assistir, volte aqui pra dizer se você concorda com a gente!


Um filme que parte do nada e chega a lugar algum. Isso pode soar negativo, mas é justamente um dos pontos fortes do longa metragem brasileiro Boi Neon (2015). O trunfo da história é mostrar uma realidade crua, aproximando o espectador do que é visto, mas com uma leveza e poesia originárias de um olhar atento, que percebe a beleza nas coisas mais comuns do dia a dia.

A sinopse do belíssimo filme dirigido por Gabriel Mascaro vai dizer que o enredo é sobre um vaqueiro nordestino que quer ser fashionista. Só aí já se teria uma brilhante ideia: um personagem imerso numa profissão intrinsecamente masculina, mas que pretende se aventurar pelos meandros de uma arte tão distante de sua realidade e marcada pelo universo feminino. A história quebra estereótipos como este o tempo todo. Aliás, nem mesmo o vaqueiro é um protagonista tradicional – todos os personagens são de certa forma protagonistas e coadjuvantes. No enredo, estes personagens passam de cidade em cidade levando animais em caminhão para promover rodeios.

O filme é sobre esse vaqueiro, chamado Iremar (Juliano Cazarré), dizia a sinopse, que quer ser fashionista. Mas se percebe ao assistir Boi Neon que este é um filme sobre a proximidade do ser humano com os animais. E é aí que se imagina que ao mostrar uma realidade tão crua poderia produzir um filme brutal. Só que a leveza de cada cena, onde tudo é mostrado sem sobressaltos – reforçando a ideia de que para aqueles personagens, tudo o que vemos é perfeitamente normal, é o seu cotidiano, transforma a história em uma experiência muito diferente de tudo o que se costuma ver em cinema – ou melhor, em histórias narradas.

Este cotidiano perfeitamente aceito acaba por quebrar mais um paradigma: os personagens são nordestinos que não querem migrar, que se sentem bem em sua terra. Os elementos em cena são tão simples, tão pobres, mas com uma beleza singela que mostra que a realidade não é tão ruim assim. Aliás, a composição de cada cena é outro ponto forte de Boi Neon. Cada composição é única, é linda, cada uma daria uma pintura. Para aprendizes de fotografia, prestar atenção em como é composto cada quadro é uma aula.

Outro estereótipo que o filme quebra é sobre o padrão masculino, levando o espectador a se questionar sobre os seus próprios pré-conceitos. Pensa-se: se ele quer ser fashionista, deve ser gay. Inclusive, a cena de abertura do filme é de Iremar tirando as medidas da mulher que dirige o caminhão em suas andanças, a Galega (Maeve Jinkings). A cena se passa na apertada boleia do caminhão – único lugar onde há uma certa privacidade. Logo de imediato o espectador já acredita que vai haver alguma insinuação sexual entre os dois. Mas não. E então já se cria a ideia de que ele não é hétero, algo que é desmentido de uma forma magistral no final do longa. Da mesma forma, outro personagem que lida com os animais, naquele ambiente brutal, tem cabelos compridos e faz chapinha para mantê-los bem lisos. Para além do absurdo da vaidade em um ambiente assim, se imagina, de novo, que ele seja gay. Só que ele é o primeiro a protagonizar uma cena de sexo no filme.

Falando em sexo, estas cenas merecem destaque em Boi Neon. Na primeira cena deste tipo no longa, os personagens atuam em meio aos animais, de pé, de novo traçando um paralelo de como nós, seres humanos, também somos parecidos com os animais e seguimos nossos instintos.

Mas a segunda cena de sexo é a que realmente quebra muitos tabus. O vaqueiro Iremar transa com uma mulher grávida que ele acabou de conhecer. O modo como este momento é filmado é belíssimo. Uma luz suave e difusa ilumina os corpos nús à noite, mas deixa explícito tudo o que eles veem. É poético, mas mesmo assim choca o espectador, por todos os paragidmas que são trancendidos nesta cena. Apesar de ser tão delicada, esta cena de novo remete a proximidade dos personagens com os animais. Porque em nenhum momento eles se questionam se transar quando ela está grávida é moral. Só fazem com se fosse a coisa mais natural do mundo. E ser natural é ser animal, é não ter esse juízo moral.

Estas cenas, tão poéticas, só são possíveis de serem transmitidas porque o filme tem o seu próprio tempo. Nada é apressado nele. A câmera é fixa, que mal se mexe, ou se mexe lentamente. Os personagens não tem grandes emoções, nada é exagerado. Cada cena de Boi Neon mereceria uma análise. Daria ainda pra destacar que o animal não é bem tratado no filme – mas o ser humano também não está no seu maior conforto ali, estão todos juntos. Ou ainda daria para discutir as cenas que ela usa uma máscara de animal e cascos de boi para fazer strip tease.


De fato, Boi Neon começa do nada e vai a lugar algum. Po

rque assim é a vida, ela não tem as viradas fantásticas que os enredos nos fazem crer. Ele até gostava de ser vaqueiro, e o sonho ficava para a noite de ser fashionista. Mas ele não alcança no final, ou alcança, não se sabe, nem sempre se alcança na vida, às vezes só fica assim, como um plano. Como uma pretensão, como algo a ser buscado e a tornar nosso cotidiano mais feliz.

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano

(mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)



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