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Sala de Fotografia analisa experiências na visualidade no Paraty em Foco 2015

Atualizado: 22 de Out de 2019


Viajar amplia muito os horizontes de quem está disposto a abraçar as diferenças e a enxergar o novo. Unir este tipo de turismo a um festival que traz pertinentes observações pode transformar esta experiência em um divisor de águas. É o que o Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco 2015 conseguiu fazer. Plantado no coração histórico de Paraty (RJ), cidade com uma forte vocação turística, mas que também conta com um passado muito relevante (ciclos econômicos como o do ouro e do café, e que sempre teve a cachaça na sua economia), o festival traz este apelo irresistível: conhecer um destino turístico muito desejado e ao mesmo tempo se aperfeiçoar profissionalmente.

E este aperfeiçoamento foi palpável para quem participou desta edição do festival. A fotografia foi pensada em todos os seus alicerces teóricos, e a linha que conduziu o evento foi muito bem traçada em um crescendo. Foram feitas relações com arte, política, cidadania, direitos humanos, jornalismo. A prática se espalhou pelas ruas da cidade, e se intensificou nos workshops com fotógrafos renomados. Para além da tenda do festival, a Casa da Cultura, a livraria Madalena e cada café e restaurante do centro histórico era um novo ponto de networking.

Quem participou, tem muita história para contar. E a Sala de Fotografia esteve lá nesta 11ª edição do evento para registrar e aprender. Nove pessoas participaram desta expedição fotográfica – só que desta vez, além de muitas fotos, a bagagem de nossos alunos voltou recheada de conhecimento. Este texto é uma análise do que a Sala de Fotografia absorveu por lá.

O tema do Paraty em Foco 2015, que ocorreu de 23 a 27 de setembro, foi “Representação e autorrepresentação na era dos dispositivos”. Nada mais justo do que tratar dessa ideia, já que vivemos em um mundo inundado por selfies, mas não há exatamente uma reflexão sobre a visualidade. O primeiro dia de festival, na quarta-feira (23/09), trouxe uma entrevista com o fotógrafo francês Antoine D’Agata. Na fila para entrar na tenda, um grande outdoor exibia quatro fotos do profissional: retratos de moças maquiadas, mas um pouco fora de foco, ligeiramente fora do convencional nos parâmetros técnicos da fotografia, que já causavam certo estranhamento no espectador de um Paraty que é, justamente, em Foco. Mas isso não era nada, comparado com o que estava por vir: D’Agata exibiu um vídeo de sua produção, com fotos que registram o mundo do erotismo. Em algumas delas, ele é o próprio ator retratado. Imagens fortes, realmente perturbadoras, que conseguiam transmitir de fato uma pesada carga de dor, de ansiedade. A fala de D’Agata sobre o seu trabalho foi ao mesmo tempo cheia de divagações, mas profundamente intimista. Por um lado, a tentativa de esclarecer o que faz ficou vaga, sem uma explicação clara e tangível. Por outro, ele confessou ao público que está inserido neste contexto de dor, inclusive, disse ter ficado um mês no Peru utilizando “químicos”.

O fotógrafo declarou ainda que alguns afirmam que ele fotografa o que lhe dá prazer, mas isso não é correto: na verdade, ele expõe em suas imagens o que lhe causa medo."Sexo, drogas e doença são temas que me perturbam e me dão medo", disse, e complementou que fotografa pelo dever, não pelo prazer. E assim se entende um pouco o trabalho atual de D’Agata. Ele começou produzindo imagens desfocadas, borradas, tremidas. Agora, ele parte para algo mais convencional, como os retratos, mas ainda sem foco, talvez em um caminho em construção. Se tem uma coisa que aprendemos neste Paraty em Foco é que o resultado das imagens não é mais o único objetivo da fotografia, não é o único aspecto para o qual devemos olhar. Em um mundo imagético, conta muito mais a análise da produção, do contexto da história de como isso chegou até ali, do que o resultado fotográfico em si. A forte carga emocional do discurso de D’Agata fez com que percebêssemos de outra forma a sua produção. Como ser tão lúcido a ponto de dizer que não se sente a angústia retratada nestas imagens, que não se compreende esta dor, que pode ser resumida em um nível mais profundo como o de ser, simplesmente, humano? Em forte oposição ao trabalho de D’Agata, o sábado à noite teve como atração o fotógrafo finlandês-americano Arno Rafael Minkkinen, que produz imagens com foco bem definido, inserindo o corpo humano na natureza em um mimestismo perfeito. O fotógrafo deu uma aula de como construir um caminho na fotografia, muito mais do que elaborar apenas um projeto, ensinando o poder de 3. Funciona assim: o fotógrafo deve escolher uma foto sua que mais gosta, uma produção que realmente ama. Depois, deve fazer uma foto diferente desta, mas também a mesma, também de certa forma igual. Mais adiante, precisará ainda de uma terceira, mantendo essa mesma lógica, de ser igual, mas ainda diferente. Certamente, ele irá precisar de uma quarta fotografia para comprovar que o caminho que escolheu funciona, e assim ele fará outras fotografias, sempre iguais, mas diferentes entre si, e quando perceber, já terá uma produção consistente. Minkkinen, após mostrar seu percurso em imagens, foi aplaudido por muitos minutos de pé pela plateia completamente lotada na tenda do Paraty em Foco. Estas foram, respectivamente, a primeira e a última palestra que a Sala de Fotografia assistiu. Mas teve muito mais no meio. Para começar a quinta-feira (24/09), houve uma discussão aberta como preparatória do 4º Fórum Latino Americano de Fotografia, que vai ocorrer em junho de 2016 em São Paulo. Falas muito pertinentes da plateia foram ouvidas, como a de Milton Guran, coordenador geral do FotoRio, que defendeu que a história da fotografia na América Latina deveria ser uma das discussões do próximo fórum. Para ele, é preciso unificar informações e criar reflexões do que somos, o que fizemos, e qual o espaço para o que faremos no futuro. Ainda de acordo com Guran, o fórum representa o grande momento de retomada da fotografia latino-americana. Afinal, antes do colóquio, éramos percebidos pelas metrópoles que nos colonizaram pela visão deles, por exemplo, como exportadores de madeira. “Contudo, depois do colóquio, pudemos assumir as rédeas de como queremos ser vistos”, afirmou. Também se ouviu a fala do fotógrafo mexicano Francisco Mata Rosas, que alegou que está se produzindo muita teoria sobre fotografia na América Latina. Para ele, o fórum pode ser um ponto de confluência que conecte pensamentos e ideias, e isso pode originar produção intelectual para servir de referência. Iatã Cannabrava, coordenador do Paraty em Foco e do Fórum Latino Americano de Fotografia de SP, explicou que se discute a criação do fórum permanente latino-americano de fotografia. Ainda, o fórum pretende mudar o conceito de workshops e oficinas, passando a chamá-los de imersão criativa. A mudança não é só de nome: a ideia é propor outra forma de ensino da fotografia, sem copiar modelos de sala de aula. Na tarde da quinta-feira, a tenda do Paraty em Foco recebeu o crítico e curador Agnaldo Farias, que conversou com o público sobre o fotógrafo visto pelo cinema. Em uma impressionante análise, ele discorreu sobre dois filmes: Janela Indiscreta e Blow Up - Depois Daquele Beijo. Ele explicou os filmes com pouquíssimos frames, revelando detalhes e análises que podem ter passados despercebidos para quem assistiu aos filmes, fazendo conexões para além do universo cinematográfico. Farias acredita, e as histórias dos filmes o respaldam, que o fotógrafo é alguém que vende seu próprio olhar e que, no caso do fotojornalista, coloca toda a sua intuição na iminência do desastre, para saber onde se colocar para tirar a melhor foto. “O fotógrafo é a figura enrijecendo o movimento. Tudo é fluxo, e ele coagula o fluxo e vende o coágulo”. Farias terminou sua explanação falando rapidamente sobre Facebook e Instagram. Ele fez um link com o fim de Blow Up, e afirmou: "Produzimos a rigor ficção o tempo todo, mesmo quando debruçados no mundo real. Ninguém captura o real, é sempre uma fração. Mas neste processo de narrativa nos mostramos, mais até do que o que queremos mostrar. […] Facebook e Instagram é o paradoxismo de nossos valores, da transparência e da superficialidade que temos que lidar hoje".Na quinta à noite, o fotógrafo australiano Max Pam falou sobre seus livros autobiográficos. Ele combina fotografias, textos, desenhos e diversos outros elementos de suas viagens em livros. Ele explicou que tudo que é importante para ele, acabava por incluir em seu processo fotográfico. Costuma também fazer cartões-postais, aliando imagens e palavras, que chama de "souvenirs de outros planetas". Para Pam, o texto permite que se interrogue as imagens em um nível mais profundo.O profissional ainda deu uma dica para quem está iniciando. “Tive que esperar muitos anos para a publicação do meu primeiro livro. Digo para os jovens fotógrafos terem paciência. Meu primeiro livro foi lançado quando eu tinha 42 anos, e eu fotografo desde os meus 16". Esta fala de Pam iria se conectar depois com o discurso de Minkkinen no sábado, que, justamente, mediu a sua produção fotográfica em anos para o público ao ensinar a construir uma carreira fotográfica, provando que nada surge da noite para o dia. O fotógrafo mexicano Francisco Mata Rosas falou na sexta-feira (25/09) sobre “Fotografia, México, Poder”. Após sua fala, algumas indagações da plateia o fizeram afirmar que estávamos acostumados a ter autoridades que diziam o que era bom ou ruim, o que era ficção e o que era real. Mas isto é mais para o tempo em que a fotografia era analógica. Agora, todos os dias acabamos por realizar curadorias pessoais, e todos os dias ressignificamos as imagens. Afinal, cada vez mais se compartilha o processo de produção da imagem, mas cada vez menos o sentido desta mesma. Uma palestra que trouxe mais referências práticas do que teóricas foi a Geração Instagram, que ocorreu no fim da tarde de sábado (26/09) no Paraty em Foco. Os dois palestrantes iniciaram seus trabalhos como uma brincadeira. Alexandre Urch começou a fotografar com um smartphone pessoas no metrô. Tuane Eggers passou a fazer autorretratos na adolescência por ser tímida demais para fotografar outras pessoas. Ambos utilizam a internet para divulgar seus projetos.Justamente no âmbito da internet, há um compartilhamento massivo de imagens, mas nem sempre ocorre uma reflexão ou se encontra um objetivo do por que registrar. Enfim, nem mesmo o próprio fotógrafo consegue entender o processo da narrativa da sua produção, e as imagens perdem até mesmo o contexto. Há sim necessidade de se refletir sobre essas imagens, tanto no retrato, como nas fotos que registram o cotidiano. E aí se percebe a importância da curadoria, seja ela pessoal – na qual o próprio fotógrafo seleciona e organiza o seu material fotográfico – ou a realizada por um terceiro. O curador identifica uma linha narrativa, bem como o contexto da produção de um fotógrafo, muitas vezes ressignificando seu sentido. Horacio Fernández, historiador espanhol, falou na sexta-feira à tarde no festival, e trouxe exemplos de curadorias em livros e exposições. Ele realça a imagem como eixo de narrativas visuais, e enfatiza o papel da edição e a composição na construção de discursos. Fernández afirmou que as fotos estão vivas, não estão mortas.O fotógrafo brasileiro Christian Cravo foi a atração que lotou a tenda do Paraty em Foco na sexta à noite. Christian se esforçou por negar o seu DNA fotográfico, que seria oriundo devido a ser filho de um fotógrafo e neto de um escultor, dizendo que a sua fotografia tem mais a ver com as suas vivências, inclusive as em família. Contudo, a fala do fotógrafo foi pontuada o tempo todo por referências e lembranças de seu pai e avô. Mais do que uma reflexão teórica, Christian ofereceu vislumbres de sua trajetória prática até aqui. “A minha fotografia é uma extensão da minha pessoa. Eu não tenho uma profissão, tenho um estilo de vida”, disse.No final, Cravo mostrou imagens de seu universo familiar, inclusive, algumas fotos de sua esposa grávida e da filha bebê. É possível refletir sobre a produção do fotógrafo brasileiro em relação a Max Pam. As imagens do profissional australiano denotam mulheres posando para o fotógrafo, para além da esfera familiar. Enquanto Cravo fotografa a sua família em um trabalho contemplativo. O sábado no festival Paraty em Foco​ iniciou com um debate sobre fotografia e direitos humanos. O fotógrafo André François falou sobre seus projetos de registrar a saúde no mundo todo. Para ele, sobram números para melhorar a saúde, mas faltam imagens para sensibilizar as pessoas. Artista e ativista político, Marcelo Brodsky falou sobre sua campanha com fotografia para mobilizar as pessoas sobre os 43 estudantes que desapareceram no México. O projeto ganhou força quando foi publicado na internet, se espalhando por diversos países. A fala mais forte, e interrompida diversas vezes por aplausos empolgados da plateia, foi a do fotógrafo João Roberto Ripper. Ele defendeu que quem fotografa a violência, os problemas de uma comunidade, também deve registrar a beleza deste local. Afinal, quando se conta uma única história, se contribui para a quebra de dignidade dessas pessoas. Ainda de acordo com Ripper, a insistência em uma historia única de violência só serve para manter as coisas como estão, para que a sociedade não mude. Ainda deu tempo, ao longo da semana em Paraty, para a Sala de Fotografia participar do escambo – troca de fotografias impressas com o objetivo de incentivar as pessoas a colecionarem. Também enviamos cartões-postais por meio do projeto Via Postais, no qual promove a prática de envio de imagens do lugar turístico visitado. E na Livraria Madalena, no sábado, tivemos uma experiência tátil com papeis e tipos de impressão a partir de um bate-papo com Eduardo Monezi, da gráfica e editora Ipsis. Outra palestra que vimos no festival foi com Fariba Farshad, co-fundadora e diretora da Photo London. Ela falou sobre a feira de fotografia Photo London, que ocorreu em maio de 2015, e que tem como um dos objetivos fazer de Londres outro centro de excelência para fotógrafos. O evento ocupou quatro andares e 80 salas da Somerset House. Mais de 25 mil pessoas visitaram o espaço em cinco dias. A fala de Fariba nos chama a atenção para como a Photo London conseguiu unir um festival de fotografia com galerias de arte para a venda de fotografia. E dá ideias para o Brasil também apostar neste modelo, já que por aqui eles ocorrem isoladamente, como a SP-Arte/Foto e festivais de fotografia como o próprio Paraty em Foco ou o Foto em Pauta (em Tiradentes-MG), e o FestFoto POA (em Porto Alegre-RS). Ao fim, o que se viu em todas as falas dos palestrantes destes cinco dias de festival é que, por mais que o fotógrafo esteja tentando captar o mundo exterior a ele, a sua foto, a sua produção, estará sempre impregnada de suas vivências e de seu universo particular. Ele também se mostra ao mostrar o que está vendo. Justamente, a ideia de representação e autorrepresentação, o tema do festival.A expedição fotográfica da Sala de Fotografia ao Paraty em Foco 2015 resultou em uma ótima experiência, superando nossas expectativas. Cumpre-se, assim, o papel de promover experiências na visualidade. É cada vez mais importante o papel dos festivais para a educação visual. E o Paraty em Foco fez desta experiência um novo universo a ser explorado em termos de ideias e reflexões. Que a visita a festivais deste porte se torne uma constante.

Texto: Sabrina Didoné e Liliane Giordano

Fotos: Liliane Giordano

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