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Picasso e pós-impressionistas: as impressões da Sala de Fotografia em exposições de arte em SP

Atualizado: 22 de Out de 2019


Cada pequena experência, cada estímulo, conta. Tudo incrementa nosso repertório intelectual. Você pode nem saber de onde vem uma inspiração, porque ela está lá, guardada em seu subsconsciente, pronta para desabrochar quando você precisar ser criativo.

Quando o estímulo é arte, então, parece que todos os sentidos desabrocham, para quem tem a paciência de análisá-la. A Sala de Fotografia aproveitou as horas antes das palestras do Fórum Latino-Americano de Fotografia para visitar duas exposições de arte: “O Triunfo da Cor: Pós-Impressionismo” e “Picasso: mão erudita, olho selvagem”.

A primeira parada foi no centro de São Paulo, ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil). O prédio, construído no início do século XX, por si só, já vale a visita. A exposição ganha o nome de “Triunfo da Cor” pois reúne importantes nomes pós-impressionistas, que assim foram chamados por utilizarem uma nova linguagem estética baseada no intenso uso das tintas coloridas. Foi um deleite passear pela galeria e se aproximar de obras assinadas por grandes nomes como Van Gogh, Gauguin, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Matisse, Monet.

Vincent Van Gogh - A Italiana (1887)

Henri-Émile-Benoît Matisse - Odalisca com calça vermelha (1924)

Henri de Toulouse-Lautrec - Ruiva, ou A Toalete (1889)

Obra de Paul Signac - Mulheres no Poço ou Jovens Provençais no poço - utilizando a incrível técnica do pontilhismo, no qual muitos pontos separados formam uma imagem. Lembrou de pixels? Pois é, em uma obra de 1892.

Já a segunda visita também vale só pela arquitetura, só que dessa vez, moderna. O Instituto Tomie Ohtake fica no Complexo Aché Cultural e exibe suas ousadas curvas em rosa e azul. A exposição “Picasso: mão erudita, olho selvagem”, trouxe mais de 150 obras do mestre espanhol, passando por todas as fases de sua vida e pelo seu vasto legado, que mistura influências e experimentações muito distintas entre si. Logo de cara, ao adentrar na exposição, uma surpresa: uma linda pintura chamada “Homem de Boné”, de 1895. Que ele pintou aos 14 – sim, QUATORZE anos, quando ainda era um aprendiz.

O prédio do Complexo Aché Cultural, lar do Instituto Tomie Ohtake

À direita, a obra de Picasso - Homem de Boné (1895)

Mais adiante, a exposição trouxe outras fases de Picasso, muito distintas: o cubismo, seus trabalhos com figurinos e cenários de balé, seu flerte com o surrealismo e a sensualidade da série das banhistas – fortemente influenciado por sua vida pessoal neste momento, na qual ele tinha encontros amorosos furtivos com uma menina de apenas 18 anos na praia, mesmo continuando casado. Ainda perpassou obras sombrias que ele criou durante as guerras que chacoalharam o mundo naquele período, momento também conturbado em sua vida pessoal, no qual o tema da morte era tão presente na sua arte. Até chegar ao surpreende Picasso escultor, que brinca com argila.

O flerte com o surrealismo e a sensualidade em Figuras à beira-mar

(Pablo Picasso, 1931)

O surpreendente Picasso escultor

(Coruja com cabeça de mulher, 1953)

O Picasso que retrata a morte durante as Guerras

(Crânio, ouriços e lâmpada sobre mesa, 1946)

Imagem e texto

Mas não basta apenas olhar. Uma imagem até vale mais que mil palavras, mas o diálogo que existe entre os dois meios merece ser explorado. Em ambas as exposições, os textos enriqueciam muito a experiência do visitante. Ao ler as explicações, ou apenas o nome da obra de arte, muito saltava aos olhos, muito se fazia entender e ficava mais claro. Como a obra “Bruxa com Gato Preto”, de Paul Ranson, 1893. Talvez você nem veja a bruxa em um primeiro momento. Mas ao olhar o nome do quadro, e voltar a analisá-lo, as imagens ficam mais claras. E depois que você enxerga, você nunca mais deixa de enxergar, o seu olhar não retorna mais ao estágio inicial.

Paul Ranson - Bruxa com Gato Preto (1893)

E ainda como este quadro de Picasso, fruto da sua fase final e mais erótica, ganha outro significado ao ser observado depois de saber o seu nome: “A mulher que faz abortos ilegais com suas três filhas. Degas com as mãos nas costas”, de 1971.

Pablo Picasso - A mulher que faz abortos ilegais com suas três filhas.

Degas com as mãos nas costas (1971)

E assim, por meio dos textos, fica ainda mais plausível fazer uma conexão entre pintura e fotografia – apesar de isso ser fácil, já que todas as formas de arte estão ligadas de alguma forma. Em uma das placas da exposição, lia-se uma ideia de Gauguin:

"A arte é uma abstração. Extraia-a da natureza sonhando diante dela, e pense mais na criação do que no resultado." (Paul Gauguin, 1888).

Obra de Paul Gauguin

Tudo se conecta. A arte preconiza o que a Sala de Fotografia viu ser discutido na fotografia em diversos festivais e também no Fórum Latino-Americano de Fotografia em São Paulo: conta mais o processo do que o resultado. Conta mais porque a foto foi feita, em qual contexto, de que forma, do que a imagem em si, como ela fica no final.

Em ambas as exposições, era permitido fotografar sem flash. E aí é preciso falar sobre o fenômeno da selfie, que acaba até atrapalhando a circulação dos visitantes ao longo da mostra. É natural que as pessoas queiram tirar selfies com as obras de arte: é algo para se orgulhar mesmo, ter visto um Picasso original de perto, ainda mais agora, que gostar de arte deixa de ser algo nerd para se tornar cool. Mas o maior triunfo de permitir fotografias em uma exposição assim não é a selfie de Facebook, que aparece mais a pessoa em si do que a obra. O sucesso é permitir que cada visitante possa mostrar e compartilhar com quem não foi o que viu, inspirar outras pessoas, ampliar o alcance dessa arte, tirar a obra do cavalete e transformá-la em algo vivo por meio do diálogo e da visualização dessas fotografias.

A gente confessa: a Sala de Fotografia também tirou selfies nas exposições.

Arte viajante

Todas as obras-primas da exposição “O Triunfo da Cor” são do Musée d’Orsay e do Musée de l’Orangerie, ambos de Paris. As obras de Picasso também vieram da capital francesa: são parte do acervo do Musée National Picasso. É, de fato, um privilégio, saber que as obras viajaram até aqui para se aproximar dos brasileiros.

Em outras décadas, para ver obras assim, era sempre necessário ir para a Europa. A modernização dos museus, fruto de uma demanda interna e também internacional, permitiu que o Brasil passasse a fazer parte desse circuito mundial de arte. E fazer parte desse circuito contribui muito para a nossa formação educacional. Em um vídeo institucional do Itaú Cultural, exibido antes de cada palestra do Fórum Latino-Americano de Fotografia, o escritor Luiz Ruffato é taxativo: “é o acesso ao lazer que determina se um país é desenvolvido ou não”.

Assim, com este acesso facilitado, seria imprescindível que cursos de de arte de todo o Brasil conduzissem seus alunos a estas exposições em São Paulo. É por meio da apropriação do que já foi feito que é possível ser criativo e inovar na área, buscando para isso inspiração nos grandes mestres.

Da mesma forma, é de vital importância que fotógrafos, ou aspirantes a carreira, visitem exposições de arte para captar inspiração e sensibilidade por meio da observação. Estas exposições possibilitam visualizar e entender coisas diferentes, sobretudo quando se entende o processo do artista.

Por outro lado, uma ausência que não foi sentida nessas exposições foi a das crianças. É inspirador ver pais conduzindo seus filhos nestas grandes mostras, apresentando-lhes com paciência as obras, contando as histórias dos pintores e chamando a atenção para os detalhes, sem deixar de dar espaço para os pequenos relatarem o que estão percebendo e do que gostam. Essa geração que tem contato com a arte desde tão cedo com certeza tem a sua criatividade instigada.

Se a arte sempre foi um prazer das elites, apesar de ser tão importante para a apropriação de mundo, para entender as referências que vemos no dia a dia, há que se comemorar essa introdução do Brasil no circuito das exposições internacionais. Privilegiado, agora, é quem dedica algumas horas a visitá-las.

Para finalizar: falando em arte, a Sala de Fotografia também visitou a incrível Pinacoteca, lar de muitas obras em São Paulo. Confira na galeria de fotos:

Texto e fotos: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS)

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