Parte II - Sala de Fotografia analisa: Valongo Festival Internacional da Imagem 2017

Atualizado: 22 de Out de 2019


Ter uma mesa só formada por mulheres, e discutindo o feminismo e as regras de seu próprio corpo, é outro ponto que merece destaque no Valongo. A mediadora da mesa de Cris e Laia foi Bia Abramo, que destacou o caráter feminista do trabalho das artistas. Mas elas não concordaram: fizeram os seus trabalhos com outros focos e por outros motivos, mas sem pensar no feminismo. “É um trabalho necessário, e para que se conheça, para que se entenda, mas não vem por causa de uma luta feminista”, afirma Laia.

Assim, se percebe que o trabalho das duas fotógrafas atinge o feminismo. Contudo, ao propor o trabalho, elas não entraram nessas questões, pois construíram seus projetos por outros caminhos. Mesmo assim, acabam por suscitar reflexões sobre esse tema no seu público. Por mais que não tenha background feminista, é preciso trabalhar essas nuances no conceito do projeto, já que as pessoas vão associar e questionar, e as artistas precisarão responder.

Porém, para discutir e querer trabalhar com os projetos que Laia e Cris propõem não é necessário ser feminista, basta ser mulher, pois essas questões atingem a todas nós. No Valongo, uma surpresa foi o significativo número de mulheres, já que elas não são maioria no universo fotográfico. E, ao adentrar nesse universo, percebe-se que, assim como Laia e Cris, as mulheres apenas relatam seus projetos, sem tentá-los transformar em algo maior por meio de um discurso programado. O que elas fazem é um relato do que foi feito. O que se nota é que as mulheres costumam ser mais modestas na fotografia, pois a profissão era essencialmente masculina. Então, a postura feminina se restringe muito mais ao resultado do trabalho do que ao glamour ou ao ego. Acaba assim adquirindo uma postura mais maleável e permeável nesse espaço, buscando adquirir o respeito pelo conhecimento demonstrado.

Conselhos

Araquém Alcântara é um dos mais respeitados fotógrafos de natureza do Brasil. Tem uma trajetória de muitos anos na fotografia. E na sua palestra, ele desmistifica a pressa que os jovens que ingressam agora na carreira têm em lançar seus projetos.

“Tem quem queira fazer um livro em seis meses. Eu fiquei 15 anos rodando o Brasil para percorrer todos os parques (unidades de conservação) do país. Assim consegui lançar o livro Terra Brasil.” (Araquém Alcântara)

E para desenvolver um trabalho próprio, com assinatura que diga coisas de modo particular na sua fotografia, é preciso praticar, e muito – e essa prática também não acontece do dia para a noite.

“Tem que ter predileção. Se meu negócio é fotografar varal, então, porra, vai fotografar varal até a exaustão. De tanto fotografar algo, você começa a hospedar aquilo, começa a entrar em simbiose. Tenha um tema e desenvolva isso até a exaustão. Leia muito, veja outras obras, até que chega a hora que seu trabalho está tão prenhe que não aguenta mais e tem que sair. Exponha seu trabalho à execração pública”.

(Araquém Alcântara)

Araquém acredita no uso da fotografia analógica para adquirir paciência. E explica que não existe glamour na foto de natureza, que é muito suor, ficar na mata por muitos dias, sem banho a fim de camuflar o cheiro, sem comunicação. E assim repensa-se o velho estereótipo de que tem que dar sorte para se conseguir uma boa foto. Mesmo Araquém, que tem um inegável talento, precisa praticar muito, e se sujeitar a difíceis condições, para conseguir trazer o que vê na mata até nós. Precisa dar chance a sua sorte.

“Se você não der chance a sorte, como vai fotografar onça? Quando pensa em descansar, e ainda tem mais uma curva do rio, você tem que driblar a mente e ir ver o que tem lá naquela curva.” (Araquém Alcântara)

Dica para nossos alunos: estudar fotografia nunca será demais. E vale demais o conselho de Araquém – não basta apenas estudar o próprio tema.

“Fotógrafo tem que ter repertório cultural extremamente diversificado. Precisa exercitar muito, lendo e, sobretudo, vendo. Vendo muitos filmes, muito cinema. Fotógrafo precisa ter muita cultura.” (Araquém Alcântara)

Para terminar, o fotógrafo falou ainda da importância da curadoria nos projetos fotográficos. Afinal, o curador é alguém que escolhe sem ter envolvimento sentimental, já que a emoção pode fazer com que o fotógrafo tenha escolhas erradas.

Outro fotógrafo que deixou muitos conselhos à plateia no Valongo foi Glauco Tavares. Seus projetos trazem imagens de fotografia de rua.

“Foto de rua não tem que ter gente, mas tem que lembrar gente. Precisa remeter às pessoas”. (Glauco Tavares)

Tavares também ensinou que é preciso fazer com que as pessoas nas ruas se acostumem a presença do fotógrafo. Para isso, é preciso selecionar um local e ficar por ali tempo suficiente para fazer parte do ambiente, tornando-se invisível. Ele também destacou diversos aspectos de direitos autorais: ao mostrar realidades individuais, é fundamental ter a autorização do personagem.

Assim como Araquém, Tavares destaca a importância do estudo na fotografia e da curadoria.

“Tem que pensar onde você quer chegar. Precisa montar projeto, estudar, planejar. Foto de rua é mais do que sair e fotografar o acaso. Estude, pense bastante antes de fotografar, e busque um curador. Precisa de um curador para enxergar o trabalho de outra forma”. (Glauco Tavares)

Projetos

A mesa “Cidades e Fachadas: uma nova documentação urbana” trouxe os fotógrafos Felipe Russo, Tatewaki Nio e Tuca Vieira falando sobre seus projetos.

Felipe Russo falou sobre o seu processo de fotografar a cidade de São Paulo, e contou mais sobre o fotolivro Centro. Nas suas fotografias, procura estabelecer novas relações de vivência e de compreensão do espaço. Tatewaki Nio falou sobre as fotografias de arquitetura que fez na Bolívia, com o projeto Neo Andina.

Tuca Vieira utilizou um mapa de São Paulo, e assim foi fazendo uma foto por página do guia. E assim surgiu o projeto “Atlas fotográfico de SP e arredores”, e sua ideia nasceu do incômodo de viver em uma cidade que ele mesmo não conhecia. “Quis recuperar o momento de ver antes de fotografar”.

O ponto em comum dos três, para além da juventude, é que fotografam a arquitetura das cidades. Mostram uma cidade sozinha, como se eles também estivessem sozinhos flanando por ela. A discussão que se levantou foi sobre o vazio dessas imagens, em como se representa uma cidade sem pessoas.

No caso de Tuca Vieira, que é fotojornalista, no seu projeto parece ter cumprido uma pauta. Seu trabalho se esgota ao fim do mapa da cidade. O resultado dos três palestrantes é muito bom, mas o seu percurso, o seu processo, não está explícito.

Trailers

O Valongo trouxe uma novidade para quem quer expôr o seu trabalho: os trailers. Antes de cada palestra na Arena Zum (Teatro Guarani) havia sete minutos para apresentação de um projeto. Estes trailers foram uma forma genial de exibição de projetos, interessando tanto ao público quanto quem mostrava, garantindo visibilidade de forma muito rápida.

Foram vários trabalhos mostrados, como editoras – que provaram o imenso trabalho de edição e de decisões por trás de um fotolivro, como por exemplo o trabalho da editora Vibrante. O trailer conduzido por Juan Valbuena trouxe a explicação sobre a editora espanhola Phree, que produz fotolivros. Poderiam ser apenas fotolivros, mas o conceito apresentado mostrou que a editora está interessada em contar como é a Espanha, procurando guardar a história do país. Ressalta-se assim, novamente, a importância do conceito, do fio condutor ao ter um projeto de fotografia. Tudo é o que contamos, dialogamos, criamos como justificativa. Tudo é como conduzimos o pensamento e o entendimento do espectador.

Já o fotógrafo Ivan Padoni apresentou um projeto de fotografia de arquitetura com uma estética impecável, intitulado Superfície – que se conectou com a mesa sobre Cidades e Fachadas. Outro trailer que se conectou com essa mesa foi o apresentado por Anna Kahn, que fotografou lugares onde vítimas foram atingidas por balas perdidas no Rio de Janeiro. Suas fotos mostram apenas o cenário, um vazio proposital sem pessoas, e na legenda há a história do que a vítima estava fazendo quando foi atingida naquele local. Este vazio no caso deste projeto sobre bala perdida de Anna incomoda – e deve mesmo incomodar, pois deve-se sentir a falta da pessoa que morreu, chamando a atenção para o problema.

Fotolivros

A mesa “Revolução impressa: fotolivros para uma ilha deserta” trouxe Corinne Noordenbos e Horacio Fernández para falar sobre fotolivros. Corinne começou explicando que a tradição de fotolivros se inicia na Holanda no pós-guerra, com escritores, fotógrafos e designers colaborando entre si, e com uma qualidade de impressão excelente. Ela deixou uma dica:

“Um bom fotolivro começa com um bom tema. E um bom tema precisa de um conceito visual muito bom. E ainda o fotolivro precisa ter um bom designer.” (Corinne Noordenbos)

Horacio Fernández, que também era curador das exposições do Valongo, ressaltou que para fazer um fotolivro, em primeiro lugar é preciso ter uma questão a ser respondida.

“Primeiro tem que ter uma questão para contar algo. E é preciso trabalhar em equipe. Só tirar fotos não vai resolver seu problema de capa, de letra. Precisa ainda de um designer, de um escritor, de uma gráfica. Fotolivro é trabalho coletivo. O fotógrafo tem um papel central porque ele acha a questão para tirar as fotos. Mas precisa de equipe.” (Horacio Fernández)

Outros temas

A Sala de Fotografia ainda conferiu no Valongo diversas outras palestras. Uma delas foi a de João Kulcsár, que falou sobre a fotografia como ferramenta de alfabetização visual. Kulcsár é curador, professor do Senac-SP e o novo presidente da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil – da qual a Sala de Fotografia agora faz parte. De acordo com o palestrante, a parte técnica da fotografia não é o que mais importa numa oficina – esta depois o aluno vai buscar em outros lugares. O que mais importa é usar o tempo para discutir a alfabetização visual.

Reunião da Rede no Valongo da qual a Sala de Fotografia participou

Outra mesa que conferimos trouxe novamente Horacio Fernadez para conversar com o artista colombiano Oscar Muñoz sobre o tema “Por trás do espelho: o campo expandido da fotografia”. Muñoz expôs o trabalho artístico que faz a respeito do esquecimento e sobre a impermanência das imagens e das memórias. Confira um de seus trabalhos neste vídeo.

O Valongo ainda reservou espaço nobre ao cinema. Uma mesa trouxe os documentaristas Maureen Bisilliat e Jorge Bodanzky para falar sobre “Na estrada: aventuras na fotografia, cinema e vídeo”. Os dois discorreram sobre suas longas carreiras e projetos. Bodanzky afirmou que produz imagens porque quer dizer algo.

“Me vejo como contador de histórias. Sou documentador. Crio a partir do real." (Jorge Bodanzky)

Já Maureen destacou que um documentarista vive sempre angustiado pelo que não captou, pois está sempre lidando com o imprevisível, e quer captar as entrelinhas. Por outro lado, ela acredita que não é possível fazer fotografia de qualquer jeito, é preciso haver intensão. Maureen ainda falou sobre a importância dos festivais de fotografia.

“Nos festivais é onde a foto está acontecendo. É um lugar de debates, de discutir o que é fotografia”. (Maureen Bisilliat)

O projeto atual de Maureen retoma antigos projetos que realizou no início de sua carreira como fotógrafa, entrelaçando fotografia, vídeo e acrescentando nisso ainda a sua história familiar.

Outra presença cinematográfica no Valongo foi do diretor Gabriel Mascaro, que lançou filmes como Ventos de Agosto e Boi Neon – este último é tão pertinente para fotógrafos que escrevemos uma análise na Revista Sala de Fotografia. Gabriel ainda expôs outros projetos seus muito interessantes, como quando pagou as pessoas para venderem seu tempo livre a ele por meio do site Amazon, ou um projeto que entregou câmeras a jovens para que filmassem as empregadas em suas casas.

Conclusões

O Valongo Festival Internacional da Imagem acertou, e muito, ao trazer o cinema para o festival da imagem. Pois cinema tem tudo a ver com fotografia, fotografia tem tudo a ver com cinema. Uma técnica depende da outra para, no fim, ambas serem arte.

Mas não foi só nisso que o festival acerta, já nessa sua primeira edição. O Valongo tem um projeto social muito forte, ao ocupar uma área abandonada há tantos anos. Ao repovoar uma região que é tida como muito violenta pelos moradores da cidade, traz um sopro de esperança ao local, pois a sociedade precisa retomar os seus espaços pra que eles não fiquem marginalizados e violentos.

A escolha dos temas e dos palestrantes foi também acertada, dada a sua diversidade. Depois de assistir tantas atrações, é impossível não ter outro nível de compreensão a respeito da fotografia contemporânea. Dá até pra fazer correlações com outros festivais, inclusive com o Fórum Latino Americano de Fotografia, que ocorreu em junho em SP: escolher o arquivo como tema não poderia ter sido mais acertado no Fórum, pois no Valongo vimos muitos projetos que estão buscando inspiração nesses materiais.

Talvez, a única dificuldade para o público que participou desta primeira edição do festival foi a distância entre os locais das atrações. A Arena Zum ficava um pouco distante dos Arcos do Valongo, por exemplo, fazendo com que atrasos da plateia pudessem ocorrer. Além disso, ter que retirar ingressos na Arena Zum fazia com que o público precisasse se deslocar até lá no início da tarde, e depois voltar aos Arcos do Valongo para aproveitar outras palestras. Concentrar as apresentações em menos espaços seria o ideal, contudo, deve-se lembrar que a ocupação do espaço é justamente uma das propostas acertadas do festival.

De qualquer forma, o Valongo acerta ao trazer tantas discussões pertinentes ao universo da imagem, esta que é o principal veículo de comunicação dos tempos atuais.

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano

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