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Sala de Fotografia analisa: evento de fotografia em Montevidéu Jornadas 11 - 2016

Atualizado: 22 de Out de 2019


Duas coisas que concluímos ao fim do Jornadas 11, evento de fotografia no Uruguai: o coletivo faz toda a diferença, e é preciso procurar sentidos na fotografia. Juntar diferentes pessoas, de diferentes áreas, em um projeto fotográfico, faz com que ele transcenda seus objetivos, já que, a partir das discussões criadas nesse meio, faz com que o conceito se expanda e se solidifique. Ou seja, o coletivo proporciona inclusive a achar com mais facilidade o tão desejado “despertar sentidos” ao elaborar um projeto – já que apenas a imagem, apenas o clique decisivo já não bastam mais.

Foi o que tiramos como maiores lições no Jornadas 11 - evento organizado desde 2005 pelo CDF (Centro de Fotografia de Montevidéu), e que promove investigações sobre diversos temas da fotografia. Em 2016, o evento ocorreu de 5 a 7 de dezembro, e teve como tema a fotografia em trânsito, referindo-se aos diferentes suportes e as mudanças enfrentadas pela fotografia, sua imagem e seu processo. Mas ainda aprendemos muito mais nos dias que passamos no país vizinho, inaugurando assim a fase de internacionalização das visitas a festivais de fotografia da Sala de Fotografia.

Um exemplo que nos fez perceber a importância do coletivo foi a NITRO, um coletivo de fotógrafos – e que inclui um jornalista – que trabalha com diversos projetos voltados a comunidades brasileiras. Eles se definem com o papel de contar histórias, não importando o meio para isso. Procuram, ainda, expandir a foto para outros meios, sem deixar de ser foto. Entre os projetos da NITRO, estão a coordenação da revista A Estrela, feita por presos brasileiros; e o “Moradores: a humanidade do patrimônio histórico” – neste, eles vão para as praças de Minas Gerais e registram os moradores contando suas histórias.

Outro exemplo de coletivo de fotógrafo bem-sucedido é o argentino RIFA – Relatos e Imagens Fotográficos em Ação. Eles também têm profissionais de outras áreas além da fotografia, como arqueólogos, sociólogos. No Jornadas 11, eles explicaram o projeto desenvolvido no Chile. A partir de uma convocatória lançada por um festival de fotografia de Valparaíso, eles se empenharam em reconstruir os álbuns de família dos moradores daquela cidade – que perderam os seus álbuns em um grande incêndio. Eles trabalharam com fotografias narradas, ou seja, os moradores lhes contavam como eram as fotos antigas, para tentar reproduzir. A nova foto não ficava idêntica, mas nem era o propósito, pois assim os moradores se lembravam da foto velha tanto pelas semelhanças quanto pelas diferenças.

Esses coletivos nos ensinaram o seu valor ao criar conceitos para os projetos. A pós-produção em uma fotografia não é só colocar no papel, ou em um suporte apropriado. A pós-produção, em um projeto, consiste em pensar, refletir, escrever sobre o processo, sobre os objetivos. E é por isso que os coletivos estão chamando a atenção, porque esses grupos tiram um tempo para conversar e refletir sobre o que estão desenvolvendo, elaborando um discurso que apresenta o projeto, que precisa estar bem fundamentado, ter lógica. No caso deste grupo que recriou os álbuns dos moradores de Valparaíso, o discurso deu destaque ao projeto, porque sem esse discurso, as fotos poderiam ser percebidas apenas como uma releitura. Mas com o projeto e o discurso, o resultado não é só recriar álbuns de família, mas agregar valor ao objeto, ressignificando-o. Em outros trabalhos de fotógrafos que executam as etapas sem esta força do coletivo, às vezes, o que percebemos é que o resultado é maravilhoso, mas ao tentar falar sobre o processo, o discurso não exalta a sua fundamentação.

Processo

O argentino Marcelo Brodsky é um exemplo de fotógrafo que concilia um discurso coerente junto a seus projetos. Ele falou no Jornadas 11 sobre seus processos de constituição de projetos na mesa intitulada “Acción Visual, obra y activismo”, e explicou seus trabalhos, que já presenciamos tanto no Paraty em Foco (quando ele explicou seu trabalho com os estudantes desaparecidos no México), quanto no Fórum Latino Americano de Fotografia de SP (no qual ele expôs uma série de fotografias com intervenções suas sobre os protestos do ano de 1968). Marcelo faz uma espécie de militância visual em seus projetos. Afinal, de acordo com o fotógrafo, deve-se achar um jeito de produzir uma reação emocional no espectador, pois só falar de ditadura, por exemplo, não muda nada.

Ele ainda participou da mesa que encerrou o Jornadas 11, intitulada “¿Cómo conducir el tránsito?”, na qual se fez uma reflexão muito relevante sobre o que é a fotografia atual.

“São milhões de fotos feitas todos os dias, já não basta mais ter só boas fotos. Tem que ter uma ideia clara do que fazer com elas, e um sentido para se manter. Precisa ter narrativa e outros elementos. Acho que as imagens servem para disparar reflexão e discussão no público”. (Marcelo Brodsky)

A diretora e curadora do Festival Internacional de Fotografia Encontros da Imagem de Braga em Portugal, Ângela Ferreira concorda com Marcelo: as fotos precisam ter sentido. Ela relembrou o antigo lema da Kodak, “você aperta um botão, e nós fazemos o resto”, para argumentar que a fotografia agora precisa contrariar essa lógica:

“Agora temos de fazer ao contrário de apertar o botão, nós devemos fazer o resto, pois muito já foi produzido. Temos que fazer ao contrário, reescrever sentidos, pensar a fotografia como algo criativo”. (Ângela Ferreira)

Ainda na mesa sobre “¿Cómo conducir el tránsito?”, Ângela pediu permissão para fazer uma declaração, a qual o conteúdo é tão valioso que resolvemos reproduzir na íntegra sua fala:

“Na verdade, o paradigma da imagem mudou. E parece que a qualidade diminui em detrimento da qualidade. E parece também que a velocidade é tão vertiginosa que o autor vai se perdendo e se esquecendo. Vive-se então em uma era de pós fotografia, e parece que a urgência da imagem vai prevalecer sobre as qualidades da fotografia. E essa pulsão vai criar com certeza muita poluição. Isso faz com que o estatuto da imagem tenha que ser refletido. Portanto, se o estatuto da imagem mudou, refletir sobre o lugar da imagem e refletir também sobre o lugar do autor é efetivamente um grande desafio. E, para dar a conhecer vivemos na pós-fotografia é aquilo que resta da fotografia, é refletir sobre o seu novo estatuto e parece então que a estética terá mudado.

Perante isso, tenho a intenção de dizer que existe uma espécie de mandamento que o autor tem que cumprir. Nesse sentido, deveria dizer que hoje o artista não produz obra, mas prescreve sentidos. Ou seja, o artista procura dentro do universo visual descortinar sentido. Isso significa que o artista também se confunde com o curador, com o colecionador e vai camaleonicamente trazendo novos significados aquilo que é fotografia.

Ao mesmo tempo, significa que o artista é colocado perante uma grande responsabilidade que é impor uma ecologia visual. O artista tem que ser capaz de reciclar e trazer sentido aquilo que é já um gesto de comunicação. A fotografia transformou-se efetivamente num gesto brutal de comunicar. Já não usamos imagem e usamos palavras e as palavras são imagens e, portanto, as imagens já são palavras e então há que dizer as palavras certas e utilizar as imagens certas e também é importante compartilhar.

O artista compartilha e o artista faz trabalhos de co-autoria. Portanto, cada vez mais o coletivo importa - como é o coletivo parceiro ou o meu trabalho que desencadeei com as nações indígenas, onde fiz um trabalho de coautoria porque o mais importante era efetivamente revelar sentidos. Neste trabalho, eu procurei designar que já é impossível guardar imagens. Vivemos numa era em que não temos capacidade de guardar mais, estamos cheios, saturados e talvez a única forma de guardar as imagens é o amor. Portanto, guardar através do amor e registrar através do amor. Talvez seja isso que vamos conseguir registrar na memória, já que a memória está tão cheia, está tão saturada. Enfim este é o meu depoimento, de acordo com um ato quase performático também de artista e também de sonhadora.” (Ângela Ferreira)

Ângela Ferreira ainda explicou no Jornadas 11 seu projeto de doutorado no qual fotografou aldeias indígenas do nordeste brasileiro. Sua argumentação é a de que a fotografia precisa de afeto para gerar novos sentidos. Esse tema também já foi explorado por Liliane Giordano em sua dissertação de mestrado, intitulada “Uma proposta de imersão no processo da fotografia e na leitura de imagens”, no qual ela explica que o fotógrafo precisa desenvolver relações com o objeto a ser fotografado. (Você pode ler a dissertação de mestrado de Liliane na íntegra aqui).

Sentido

Outra fotógrafa que soube encontrar sentido em suas fotografias foi a canadense Rita Leistner. Rita foi ao Afeganistão fotografar a guerra em 2011, de um jeito inusitado: utilizava um Iphone e um aplicativo que envelhecia suas fotos. Quando voltou, sofreu de stress pós-traumático. E encontrou um novo propósito para suas fotos: fazer um livro correlacionando as imagens que coletou com as ideias do pensador Marshall McLuhan – que inventou os estudos de mídia, e previu a internet. O fruto do trabalho de Rita deu origem a um livro de textos e fotos, que conjuga história, fotografia e auto-ajuda. O nome do livro “Procurando McLuhan no Afeganistão”, deve-se ao fato do livro ser multidisciplinar, referindo-se ao pesquisador de uma forma metafórica.

Ela ainda conversou com a curadora do Museu da Guerra do Canadá, Joanne Stober. Rita explicou que procura trabalhar a fotografia em séries, em histórias, em grupos de imagens, pois apenas uma imagem não diz tudo o que precisa. Falou ainda que faz fotos bonitas da guerra, justamente para fazer com que as pessoas olhem para aquilo. Ela também trouxe à tona o debate sobre as novas tecnologias:

“Odeio a frase de que todos podem fazer ótimas fotos no Instagram. Só porque todos têm uma câmera não significa que serão ótimos fotógrafos, assim como uma caneta não faz de todos escritores. Não se faz fotógrafo da noite para o dia”. (Rita Leistner)

Outros projetos

A arquiteta e artista contemporânea argentina Vivian Galban explicou seu trabalho ao retomar processos do início da história da fotografia, dando ênfase as propriedades físicas e materiais, a partir das potencialidades do suporte e do processo fotográfico como linguagem discursiva. Ela utiliza fotos antigas de arquivo, e as refaz a partir de antigos processos e suportes da fotografia. Veja um exemplo de seu trabalho aqui

Cao Guimarães foi outro brasileiro convidado a falar sobre seus trabalhos em Montevidéu. Ele explicou sobre seu livro de fotografia sobre não ver, pois fotografava às cegas, identificando o que lhe chamava a atenção somente pelos outros sentidos. Cao também trabalha com vídeos, porque sempre quis ser cineasta. Ele apresentou ao público um vídeo arte de vários minutos, no qual as cenas mostravam apenas bolhas de sabão flutuando pelo ar. Você pode ver um trecho do vídeo aqui. O interessante dessa obra, intitulado “Sopro”, é que contraria toda a ideia atual de que o vídeo precisa capturar a atenção do telespectador nos primeiros segundos. Ele mexe com nossa ansiedade, e nos mostra o quanto não conseguimos mais parar por alguns minutos para, simplesmente, ver.

Essa ideia se conecta com o demonstrado por Marcelo Barbalho, que apresentou no Jornadas 11 sua tese de doutorado sobre fotografia, cinema e fotojornalismo (para ler a tese completa, clique aqui). Ele falou sobre retratos filmados, que causam um desconforto no telespectador pela sua imobilidade. E exibiu um trecho de web documentário sobre Chernobyl: o desconforto combina com o clima da zona de exclusão devido a radiação do reator de Chernobyl. (veja aqui um exemplo de retrato filmado neste documentário intitulado La Zone). Neles, a câmera fica parada, e os personagens se colocam como estivessem sendo fotografados. Os retratos filmados são uma volta a longa exposição na fotografia, como era no seu início. Mas agora, ao invés de achar ruim, está aberto ao inesperado, está à espera da ação. Marcelo também falou sobre o enquadramento obsessivo, na qual a câmera fica estética, e espera o personagem entrar e sair do quadro – e, quando ele sai, volta a filmar o cenário vazio. É uma estética da desaceleração, tal como nos remete o vídeo de Cao, sendo ao contrário das mídias que nos inundam de imagens a cada segundo.

O gaúcho Leopoldo Plentz esteve no Jornadas 11 expondo a mostra “Jardín de las delicias y otras cosas”, na qual reúne fotos de quatro séries que o fotógrafo registra “fósseis” da contemporaneidade a partir dos objetos que encontra nas ruas. Ele participou também de duas mesas, uma delas com o fotógrafo uruguaio Roberto Fernández – o qual expôs a mostra “Diálogo oriental”, que reúne oito séries com mais de 90 obras suas. Roberto gosta de misturar alquimia e filosofia em suas fotos, trazendo resultados inusitados. Em uma parte da mostra, expõe fotos desfocadas, aproximando o espectador do universo de quem é míope como ele. A mesa no qual os dois conversavam entre si denotou como eles têm em comum o trânsito por diferentes plataformas na fotografia, promovendo experimentações na materialidade e nos modos de fazer fotográficos.

Leopoldo e Roberto integraram a mesa “¿Qué hacemos con el tiempo?”, junto com Cao e com Annanké Asseff. As discussões a respeito desse tema acabaram não se aprofundando, com discursos particulares, sem que houvesse uma conexão efetiva da relação da fotografia com o tempo. A proposta da mesa era muito pertinente, já que a fotografia sempre representou uma parada no tempo, o congelamento de um instante. Além do mais, o tempo da fotografia se acelera agora, com as novas tecnologias, onde muito é produzido a cada minuto. Fotografia precisa representar uma pausa para observar, para ler uma imagem, ou então para ver sem clicar, se aproximando assim do objeto. O tempo também está na fotografia quando se pensa na possibilidade de interpretação, já que, para interpretar, entra em jogo o conhecimento de mundo, interesses e expectativas do observador, além de considerar o espaço e o tempo necessários para isso. Há dois tempos na fotografia: um tempo do ver, olhar e clicar; e o tempo do ver, olhar e pensar.

Conclusão

Um dos trunfos do evento de fotografia Jornadas 11 foi, justamente, se ater ao seu tema do trânsito na fotografia. Tema este muito pertinente, pois passamos muito rápido por esse processo do analógico para o digital, e assim não se questionou a mudança no processo, não se parou para refletir esse trânsito na fotografia. É extremamente importante pensar que esse trânsito fez com que muito da fotografia se tornasse instantânea e efêmera, ficando assim desassociada de um contexto histórico, político, cultural e social.

Também foi importante o evento para pensarmos não só trânsito do analógico para o digital, mas também a fotografia associada às redes virtuais – refletindo o quanto elas têm nos aproximado ou afastado da origem do processo fotográfico. E o quanto isso é importante para se conhecer projetos fotográficos pelo mundo e estabelecer novos contatos.

Todas as mesas do Jornadas 11 estão disponíveis no canal do YouTube do CDF.

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano

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