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Sala de Fotografia analisa: Canela Foto Workshops e Alasul 2017

Atualizado: 22 de Out de 2019


A fotografia profissional não morreu: ela está mais viva do que nunca. Mesmo nos âmbitos que ela parece perder força, como o fotojornalismo e a fotografia publicitária, ela não morre agora, apenas se remodela e ganha outros contornos. E, talvez, ganhe até mesmo muito mais liberdade, fugindo da obrigação de ter que representar o real. Isso foi o que aprendemos de mais importante nesta 15ª edição do festival de fotografia Canela Foto Workshops, que ocorreu na turística cidade da Serra Gaúcha de 1º a 5 de junho de 2017. Neste ano, o evento se juntou a feira e congresso de fotografia Alasul, que ocorreu na sua sequência, nos dias 6 e 7 de junho. E a Sala de Fotografia esteve por lá todos esses dias para conferir o que rolou nas palestras, workshops, congresso e feira.

Um dos defensores da ideia de que a fotografia talvez agora ganhe mais liberdade é do artista Vik Muniz, que palestrou no domingo no Canela Foto Workshops. Para ele, a fotografia começa a se libertar das amarras de ser obrigada a retratar apenas o real, pois passa-se a ter um entendimento que ela é sempre um recorte dessa chamada realidade. E comparou com a história da pintura, pois foi decretada a sua morte devido a fotografia, mas o que ocorreu de verdade foi que os artistas então puderam pintar o que queriam, sem buscar as referências apenas no concreto da imagem.

Ainda, as palestras que deveriam ser o “velório” do fotojornalismo e da fotografia publicitária demonstraram que estes ramos estão vivos, se reinventando e quebrando as suas amarras. E a opinião não era uma qualquer: grandes mestres da fotografia nacional compuseram essas mesas. Nomes como Al Handam, Márcio Scavone, Raul Krebs e Cristiano Burmester, na fotografia publicitária; e Orlando Brito, Ricardo Kadão Chaves, Rogério Reis e Edu Simões, no fotojornalismo, devem ser ouvidos com atenção e respeitados. Suas carreiras e suas falas no festival demonstram o poder e o respeito que importantes referências como estas nos impõem.

Estes “velórios” até poderiam ser taxados de nostálgicos, e não podemos viver de saudosismo. Mas só vivemos o presente porque temos uma história bem fundamentada. Não vamos ter um futuro se não olharmos para esse presente de agora, e pra entender esse presente é preciso olhar para a nossa história. É só com a retomada da história que se compreende o que se vive. Se não tiver importância hoje, não vai haver legado nenhum.

Mas estas mesas fizeram mais do que só retomar o passado. Elas também tentaram entender para onde vamos. Confira o que foi discutido.

A suposta morte da fotografia publicitária

O Fórum de Ideias do Canela Foto Workshops foi composto por três palestras. A primeira delas ocorreu sábado à tarde (03/06) no casarão do Grande Hotel Canela e teve como tema “Jamais nos matarão, o que é bom não acaba”, discutindo a fotografia publicitária.

O primeiro a falar foi Márcio Scavone, uma das referências em fotografia de retrato no Brasil. Ele explicitou que foi atraído para a fotografia publicitária pela ideia de poder fazer um pouco de tudo. Este poder, segundo ele, agora na era digital, está com as agências. Porém, nestes ambientes, o pessoal de marketing é cada vez mais jovem, e lhe falta vivências e experiências de mercado.

"Fotografia é uma linguagem que todo mundo acha que fala." Márcio Scavone

Scavone ressaltou que fotografia de publicidade é a fotografia aplicada, e que seu interesse agora é a fotografia como um todo.

“Descobri que a fotografia é muito maior que esses grandes rótulos, como fotojornalismo, publicitária... A foto é algo maravilhoso, e que te leva para onde nenhuma outra linguagem pode te levar. Os olhos são a forma mais direta de ver o mundo.” Márcio Scavone

Para o fotógrafo, uma boa foto é uma que te dá “uma porrada na cara e mesmo assim você quer voltar para ver mais”. E assim grandes fotógrafos trabalham tanto com fotografia publicitária como seguem também outros caminhos.

“Qualquer fotógrafo que se apoie muito na linguagem formal está frito, porque é fácil de copiar. Estilo demora muito mais para aparecer na fotografia. Não entre na ideia de concorrência, você pega um trabalho que é pra você. Porque se cai nessa vala comum, nem nome tem. Legal é impor seu estilo na foto publicitária que é a mais genérica de todas. Concorrência é mentira.” Márcio Scavone

Scavone destacou ainda que ele acredita que caiu o rótulo de fotógrafo publicitário, assim como caiu o rótulo de digital para a fotografia.

Já Al Handam foi mais taxativo: para ele, a foto de propaganda não vai morrer. Na verdade, ela até começa a nascer de novo. E demonstrou como ele vem se reinventando agora, ao fotografar para anúncios na web, e mesmo criando fotos animadas – espécie de gifs.

“Estou aqui para estimular vocês, foto de publicidade é ótima, eu adoro. Nós, fotógrafos publicitários, emocionamos as pessoas. Fotógrafo se identifica em um ou outro caminho, mas somos todos um, gostamos de emocionar as pessoas, precisamos emocionar, e acabamos nos emocionando também.” Al Handam

O fotógrafo, que já trabalhou para as maiores marcas publicitárias do país por muitos anos, como a Coca Cola, explicou ainda que estudou muito para “botar a minha cara a tapa”, em suas palavras. E também seus filhos, que foram considerados gurus do Photoshop nos Estados Unidos. Seu estúdio foi um dos primeiros completamente digitais do país, e ele foi o pioneiro em falar sobre foto digital no Canela Foto Workshops.

Handam concorda com Scavone ao ressaltar a importância de um estilo fotográfico.

“Foto boa é quando cliente quer a sua linguagem, quando te contrata porque quer a sua linguagem particular. Não adianta me pedir pra copiar, eu nem sei fazer isso”. Al Handam

Na discussão da mesa, o fotógrafo e coordenador do festival Fernando Bueno – e que teve trabalho fotográfico catalogado no Musée Français de La Photographie (Paris, França) em junho de 1991 – também concordou sobre a questão de estilo.

“A visão autoral é a que vai permanecer. E temos que sair de só ser contratado pelo cliente

para fotografar produto.” Fernando Bueno

Handam também destacou a influência da crise da economia nacional para a percepção de que a fotografia publicitária vai morrer. Crise esta que atingiu principalmente os clientes de grandes anúncios publicitários. Ainda, as grandes empresas têm contratado jovens para ocupar cargos na área publicitária e de marketing, devido ao custo dos profissionais. O problema, para Handam, é que o jovem não lê, não vê, acaba por ser superficial em todos os âmbitos.

Para Cristiano Burmester, presidente da Abrafoto (Associação Brasileira de Fotógrafos Profissionais), a foto de publicidade é importante como um recorte histórico. Afinal, a linguagem publicitária vai e volta, seguindo tendências, e a sua fotografia acaba por retratar o modo como a sociedade vive em determinado período.

A associação, que iniciou em 1985 focada neste tipo de fotografia, e que agora ampliou para todos os gêneros, promoveu uma exposição fotográfica com fotos emblemáticas de cada época da publicidade brasileira em São Paulo. A mesma exposição estava no Canela Foto Workshops, com o apoio da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos). Depois do festival, a exposição segue para a universidade, sendo uma importante ferramenta para os alunos do curso de Publicidade e Propaganda e também de Fotografia dessa instituição para se aproximarem do trabalho de grandes mestres da fotografia publicitária nacional.

Cristiano ainda destacou que vê a fotografia publicitária transitando por vários âmbitos: pode ser retrato, paisagem, e até jornalismo, nos casos em que vai a campo. Ele ainda falou sobre o que vem mudando nessa área:

“A grande mudança de agora é das mídias, o nosso cliente precisa dividir por mais mídias seus valores para anúncios. E o cliente mede muito mais quem está acessando, e assim questiona o dinheiro que coloca aqui e ali. Antes agências ganhavam bv [comissão] e não precisavam cobrar pela criatividade. Agora não ganha mais e, se não cobra pela criatividade, não precisa de talentos.” Cristiano Burmester

E acabou por concordar com Scavone quando diz que todo mundo agora acha que fotografa, mas fazendo uma retrospectiva de um período semelhante já enfrentado na fotografia em sua história:

“A fotografia publicitária fica mais de nicho, e fica mais híbrida. E invade o jornalismo, não só publicidade, a questão aqui é o uso da imagem. Quando George Eastman [fundador da Kodak] criou a câmera portátil, começou a se perguntar porque chamar fotógrafo se você mesmo faz?

Tal como agora com os celulares.” Cristiano Burmester

Raul Krebs – que conquistou importantes prêmios, inclusive o NY Photo Awards 2012 - Advertising Single – concordou com Cristiano em relação ao hibridismo da fotografia publicitária, e ainda sobre agora estar rumando mais para uma ideia de fotojornalismo. Raul explicou que já fez trabalhos sem flash, apenas fotografando como é o dia a dia do cliente para campanhas.

“A mudança principal é que se fotografava verdades absolutas da propaganda. E agora são outras verdades. Migrou pra uma produção de conteúdo, que ainda é mentiroso, tranvestido de uma verdade da marca. Não sei até onde vai, mas acho que mais para o fotojornalismo.” Raul Krebs

O fotógrafo ainda destacou como a mudança dos tempos afeta as relações, já que antigamente seu cliente eram as agências de publicidade, e agora o cliente já é o dono da marca, sem ter essa intermediação. Para além disso, agora há um grande protagonismo da tecnologia. “Já tem estúdio que não tem fotógrafo, quem faz as imagens é o cara que faz o 3D.”

Para Raul, uma boa foto publicitária é aquela que entende para quem se destina.

“Boa foto é aquela que conversa com seu público. Só que agora fica muito difícil determinar, porque indivíduo agora é multivíduo. Agora tem que ser uma foto muito aberta a diversas interpretações. Está incômodo porque está difícil imprimir a nossa linguagem específica.” Raul Krebs

Por fim, o fotógrafo destacou a importância dos projetos pessoais.

“É bom ter conteúdo pessoal sempre em produção. Quem não fez nada além da publicidade, não tem uma busca pessoal. É um nicho, se eu tiver que apostar em algo, vou apostar em mim de novo, porque há certas agências que contratam fotógrafo por causa da sua vivência pessoal.” Raul Krebs

A suposta morte do fotojornalismo

O domingo amanhaceu chuvoso e frio em Canela. Na manhã do pós-festa dos 15 anos do festival, que ocorreu com estilo no Grande Hotel Canela, poucas pessoas se animaram a sair da cama para assistir a palestra “O fotojornalismo após a morte do fotojornalismo”. Na plateia, só os de fé. Esta vem sendo uma constância nos festivais de fotografia que participamos, as palestras nem sempre atingem centenas de pessoas.

E assim fica ainda mais evidente a extrema perseverança dos organizadores desse tipo de evento: além de contar com recursos escassos, às vezes até mesmo inexistentes, também lidam com uma certa apatia da comunidade fotográfica em geral. Isso porque o público nem sempre conhece a importância desses festivais de fotografia, nem a relevância dos fotógrafos de referência para entender a nossa história da fotografia. Referências estas que frequentam esses eventos como palestrantes, ou que trazem importantes nomes e trabalhos que devem ser conhecidos em suas palestras.

Neste ano, o Canela Foto Workshops cobrou uma taxa de R$ 150 para a participação, valor muito em conta, considerando que incluía o fórum de ideias, as vivências fotográficas, a festa de 15 anos, e ainda o ingresso na palestra do artista Vik Muniz. Valor simbólico, de fato.

Mas quem não participou perdeu debates muito interessantes, além de muito aprendizado, como o que ocorreu nesta excelente palestra que pretendia ser o “velório” do fotojornalismo. A palestra iniciou com o fotojornalista Orlando Brito, que enviou um vídeo para justificar a sua ausência. Nele, afirmou que o fotojornalismo não morreu, basta entender a importância do trabalho ainda realizado.

O primeiro a falar na mesa foi Edu Simões, fotojornalista desde 1976 e diversas vezes premiado, fez uma ótima retrospectiva sobre esse gênero da fotografia. Ele buscou suas raízes, explicando inclusive de onde surigiu a ideia da morte desse gênero: Fred Ritchin publicou um artigo indicando que o dia exato coincide com a data de morte de Osama Bin Laden. Ao abdicar de exibir imagens do terrorista morto, para evitar que virasse mártir, e também por crer que não faria diferença, os Estados Unidos prescindiram dessa prova que a imagem daria. Então, 2 de maio de 2011 seria a data que o fotojornalismo perdeu o que lhe restava de credibilidade. Edu alegou que não acredita nessa morte, mas que, de fato, nesse momento que a foto deixou de ser prova para um fato, é porque o contexto mudou muito.

Edu não se ateve apenas a fotografia digital para contar a história do fotojornalismo. Ele começou explicando que foi na República de Weimar – como era conhecida a Alemanha no pós Primeira Guerra Mundial, que se têm o nascimento do fotojornalismo, quando Eric Salomão registrou, contra as normas, um julgamento em Berlim em 1928. Também foi ali que surgiram as primeiras revistas ilustradas, permitindo ao público se apropriar de uma imagem de mundo por meio de suas páginas, já que ainda não existia TV nem outras formas de transmitir o que se via em lugares distantes.

O fotojornalismo como conhecemos nasceria de fato com a cobertura da Guerra Civil Espanhola por Robert Capa – este que foi um personagem inventado por um casal de fotógrafos fugidos da República de Weimar na época da ascensão de Hitler. Depois de descoberto o pseudônimo, Endre Erno Friedmann acaba por assumir para si a identidade que criou junto com Gerda Taro. Ele foi um dos mais importantes fotógrafos de guerra. Ela também foi correspondente, e a primeira mulher a exercer esse papel. Ambos acabaram suas carreiras quando foram mortos em conflitos que cobriam.

Agora, a tecnologia muda a forma como vemos e como usamos a fotografia. Edu trouxe como exemplo os soldados americanos que praticavam torturas no Afeganistão, e registravam isso em imagens: eram os próprios torturadores os fotógrafos. Ou como no caso do assassinato do ditador do Muammar al-Gaddafi, com assassinos que viraram fotógrafos da cena.

Edu se apoiou em teóricos como Bazin para tecer seus comentários. Para Bazin, na década de 1940, a fotografia era a expressão do realismo. Mas esse mundo novo da fotografia também precisa de uma nova teoria. Para o teórico Godeau, a foto é algo mais amplo, não é uma coisa em si, a veiculação vai dizer o que é a fotografia. Ela é a história dos usos fotográficos. Contrariando Bazin, para quem fotografia era objeto em si.

“Estamos falando aqui da morte do fotojornalismo, mas pra mim é o contrário, só que agora a fotografia fica mais complexa. Ela se liberta daquela visão de que é representação da realidade e se entende com uma linguagem mais complexa, que ficou engessada

por muito tempo como a representação da realidade.” Edu Simões

Na palestra, ainda houve muitos exemplos de fotógrafos que exploram essa ideia de que foto é uma visão de mundo, não o mundo. Como Benjamin Lowy, que fotografa de dentro da janela dos blindados americanos no Iraque, deixando a mostra a moldura da janela, evidenciando o forte filtro que existe por trás de qualquer foto considerada jornalística, e a camada que sempre existe entre fotógrafo e retratado. Mostra, assim, a linguagem do fotógrafo e o fazer fotográfico, e discute a foto não mais como linguagem única.

Edu ainda se apoiou no importante teórico Joan Fontcuberta, que alega que a foto não morreu, mas foi substituída – ela não é mais linguagem, e passa a ser língua. Somos consumidores e produtores ao mesmo tempo, o “Homos Photograficos”. Agora, na pós-fotografia, se quebram esses vínculos com a realidade, e há uma transmutação de valores: a carcaça da fotografia se mantém, mas a sua alma se transforma. Ainda, para Fontcuberta, não se trata de produzir obras, mas de produzir sentido: esse é o papel do artista.

"Eu acho que fotojornalismo não morreu, ele se torna linguagem mais complexa e mais interessante e finalmente vai conseguir dar conta de toda a linguagem fotográfica. Se trata realmente de complexificar a linguagem fotográfica. A gente não sabe como vai ser, os jovens vão ditar agora, mas me considero privilegiado de estar vivendo nesse momento." Edu Simões

Quem falou depois de Edu Simões na mesa foi Rogério Reis, que começou a trabalhar como fotojornalista na década de 1970 e passou por diversos dos mais importantes veículos de comunicação do país. O fotógrafo explicou como eram as redações no passado, quando diversos jornais escolhiam a mesma foto para a capa por pensar qual era a que sintetizava o evento.

“Para o futuro, eu acho que está tudo muito interligado, o curador, o editor, fotógrafo. Funcionam numa cadeia de comunicação, onde dá pra perceber que dentro desse regime de valores se procura multiculturalismo, hibridismo e alteridade - falar do outro. Cabe à função artística ser vanguarda das coisas, nesse mundo engessado. Um curador atualizado vai querer saber se a sua obra tem esses três fatores”. Rogério Reis

Já Ricardo Chaves, o Kadão, fotojornalista com carreira de mais de 40 anos, aproveitou as falas de Edu Simões para comentar com a sua opinião depois. Para ele, o que deveria estar em crise é o império, pois a fotografia está mais forte do que nunca. Ele se referia ao episódio da não divulgação da foto de Osama Bin Laden morto – talvez, a não divulgação seja um aprendizado do quanto as fotos da Guerra do Vietnã influenciaram na opinião pública contra o conflito. “Por isso que não permitiram a divulgação, por aquilo que elas representariam”, afirmou.

“A fotografia sempre foi uma janela, mas já foi maior, agora está pequena, como nas fotos de dentro do blindado. Os fotógrafos embedados [os quais só atuam junto com as tropas regulares do exército, mostrando apenas um lado da guerra] estão ali para limitar sua atuação. Assim, suas fotos não levantam questionamentos da guerra no Iraque, pois são submetidas a censura. Foto da janela do tanque não é a guerra, tem apenas o valor de questionamento.” Kadão

Ainda segundo o fotojornalista, agora as redações de jornais possuem métricas que acompanham quais notícias são tendência na internet, e por aí pautam seus assuntos. Para Kadão, o jornalismo deveria usar um pouco da sua arrogância anterior e ditar o que deve ser destaque como informação relevante.

“O procedimento da imprensa vai decretar a sua falência ao ser subordinado ao mercado. Vai sobreviver o jornalismo mais independente, que faz o que acha que tem que fazer

e não o que o público quer.” Kadão

Kadão falou ainda da produção massiva de imagens, que não levam a lugar algum. Pelo contrário: a foto foi atropelada pela tecnologia. Afinal, justamente quando se começava a entender que foto não é uma verdade - um retrato é simultaneamente o que o fotógrafo acha que é, bem como o retratado e o seu leitor - quando se começou o entendimento dessa complexidade, veio a avalanche de produção.

Contudo, Kadão é contra o que ele chamou de “DJ de imagens”, ao se referir a quem pega o que já foi produzido por outros e replica.

“Não vamos atribuir tanta importância ao que não tem. Todo mundo que posta na internet posta seus valores, replica sua identidade. Se alguém junta essas postagens e atribui nova significação, deixando de produzir por si, bem, pode ser um caminho. Detesto esse caminho. Não ao DJ de imagem! Vocês, jovens, peguem a câmera e vão para rua, a vida está na rua e não na tela de um computador, vão entrar em confronto com a realidade, a vida é mais importante que a tecnologia, e a foto é um bom caminho pra vida.” Kadão

Produção Cultural

A última mesa do Fórum de Ideias do Canela Foto Workshops teve como tema “No caminho das artes e produção cultural”, com André Severo, Léo Felipe (Fundação Ecarta), Vera Chaves Barcellos (Fundação Vera Chaves Barcellos e Fundação Bienal do Mercosul) e Clóvis Dariano.

Clóvis Dariano e Vera Chaves Barcellos falaram sobre o importante manifesto do Nervo Óptico, grupo que surgiu em 1977 e que reuniu dez artistas. Ele iniciou suas atividades com reuniões informais debatendo aspectos da arte de vanguarda no Rio Grande do Sul. Esses encontros por fim resultaram em um manifesto, que gerou contradições internas e externas. Internas, pois nem todos os integrantes assinaram, por discordar de algumas propostas. Externas, porque a comunidade entendeu que o grupo ia contra algumas conquistas na área das artes em Porto Alegre, como a criação de um sistema de arte auto-sustentável e institucionalizado. Mas a ideia do grupo era apenas desvincular a produção artística da demanda do mercado. O Grupo Nervo Óptico apresentou performances, exposições de arte, instalações, projeções audiovisuais e debates. Ainda, editaram publicações em forma de catálogos onde expunham seus trabalhos e também de artistas de fora do grupo. E o nome dessa publicação determinou o nome do grupo, que até então não possuía uma denominação formal. Editaram 13 números dessa publicação com o título de Nervo Óptico.

André Severo falou sobre o seu Projeto Areal, que começou sem pretensões. Em primeiro lugar, o grupo produziu e debateu muito, para depois pensar nas possibilidades. Dessa forma, o coletivo fortaleceu as redes de contato, as formas de financiamento, potencializando as experimentações, dando autonomia e uma gramática aos projetos. Agora, já publicou 15 livros.

Por fim, Léo Felipe explicou o trabalho de curadoria que desenvolve na galeria Ecarta em Porto Alegre. Jornalista, Léo procura criar um espaço de experimentação, ressaltando a arte como experiência não somente a partir da visualidade. Assim, aborda música, performance, quadrinhos. A galeria promove uma itinerância, tentando levar a rua para dentro dela, e procurando expandir a sua experiência para a rua.

Apesar da relevância dos assuntos apresentados na mesa, a sensação que ficou ao fim foi um tanto quanto de divagação. Como não houve um tema claro, não houve diálogo entre os participantes da mesa, pois cada qual fez uma fala muito particular do seu trabalho artístico.

E assim se nota a importância de um mediador, que conduza uma fala a outra, que contextualize quando necessário e que indique ao palestrante as pontas soltas de seu discurso. Tal como o papel representado por Eduardo Bueno, o Peninha, presidente do Canela Instituto de Fotografia e Artes Visuais, tanto na palestra sobre o fotojornalismo quanto na de Vik Muniz. Com bom humor, ele representou muito bem seu papel, fazendo ainda a plateia rir e alfinetando quando necessário, ajudando a discussão a progredir.

Experiências artísticas

Vik Muniz, um dos grandes artistas brasileiros, cuja arte é respeitada mundialmente, palestrou no domingo no Canela Foto Workshops. Ele começou sua fala – de mais de duas horas – comentando justamente sobre a suposta morte da fotografia, e concluindo que, na verdade, agora ela se liberta das amarras do real. Vik também destacou a importância da representação para o ser humano – talvez esta seja a segunda descoberta mais importante depois do fogo. As pinturas de animais e figuras humanas nas cavernas por meio da arte rupestre comunicou para além do gesto, criou uma convenção visual e permitiu passar conhecimento pra além da nossa vida.

“A foto não morreu, como a pintura não morreu. Uma nova tecnologia não destrói, mas redefine o que é a fotografia. A fotografia nos últimos vinte anos começa a perder a relação factual com a coisas e começa a se olhar pra dentro, uma meta fotografia, tentando se redefinir.” Vik Muniz

Vik também falou sobre como agora, com a edição das imagens, vão se apagando nos retratos rugas e outras marcas de expressão. Daqui a 30 anos, ainda vai ser outro retrato com o rosto igual em todas as fotos.

“O que será da nossa memória? Memória que sobreviva à relação do documento visual. Não há mais receptáculo pra colocar nossa memória, é como se tivesse fita cassete e não tivesse mais onde tocar. Para o artista isso é muito interessante. Estamos continuamente desenvolvendo ferramentas para as pessoas lidarem com a realidade ao redor delas: é isso o que o artista faz.” Vik Muniz

Depois dessa introdução, Vik começou a contar a sua trajetória de vida e a sua carreira. E não é qualquer carreira, e nem um discurso apenas de ego. Vik tem muito o que contar, a sua produção é vasta, bem como são muito diferentes entre si o que ele produziu. Cada série é interessante a seu modo. E a forma como ele fala de si mesmo, de um jeito irônico, ressaltando suas ideias e seus fracassos, deixa claro que ele não procura exaltar seu ego com a sua fala.

Sua história começa quando criança quando, por ser disléxico, tinha sérias dificuldades para aprender a escrever. Quando havia ditados na escola, se não sabia escrever, desenhava. E assim seus desenhos foram ficando cada vez mais complexos. Na faculdade, escolheu fazer publicidade e propaganda. Em uma premiação da área, acabou levando um tiro ao tentar separar uma briga. Com o dinheiro da indenização, conseguiu ir para Nova York, onde começou a trabalhar meio que por acaso com arte. Por lá, começou pintando quadros com pseudônimos nos quais o dono da loja de molduras inventava histórias interessantes para o artista falso da obra.

“Meu trabalho tem muito a ver com ilusão. Simulacro perfeito, não posso recriar como Spielberg em seus filmes, então trabalho do outro lado, na pior recriação possível, que é pra ter a noção do quanto você precisa pra ser enganado. Os próprios sons que saem da minha boca são significados na sua cabeça. Quanto mais se entende de ilusão, mais se entende da realidade. Tudo que é vivo sabe de alguma coisa. O que distingue a nossa espécie é o acreditar, que só é possível através de modelos, que nós artistas ajudamos a desenvolver.” Vik Muniz

Um dos primeiros trabalhos a ter grande notabilidade de Vik foi a sua série “Crianças de Açúcar”, de 1996. Para esse trabalho, ele parte de fotografias que ele tirou de crianças na ilha de St. Kitts, e reconstrói esses retratos em açúcar. Sua inspiração veio ao perceber que as crianças eram tão felizes, mas seus pais eram sérios. Assim, se questionou o que fazia com que as crianças doces se transformassem em adultos amargos, lembrando-se de um poema de Ferreira Goulart, que afirma que se adoça o café em Ipanema com amargura da vida das pessoas.

Mais tarde, Vik criaria outras obras com materiais inusitados, como chocolate, macarrão e até lixo – esta última virou abertura de uma novela da Rede Globo. Também tem uma coleção de mais de 200 mil fotos antigas que comprou, e com as quais ele diz que aprendeu tudo o que sabe sobre a técnica.

“Todos os álbuns de família são iguais, o que muda são os personagens.” Vik Muniz

Atualmente, o artista continua produzindo, inclusive criando obras de arte a partir de bactérias. Ao fim de sua palestra inspiradora, Vik foi aplaudido de pé pelas mais de 200 pessoas da plateia.

Vivências fotográficas

O sábado trouxe o escambo ao Canela Foto Workshops. Comandado por Hans George, a prática permite a troca de fotografias impressas entre os participantes. No varal, estavam expostas diversas fotos do acervo do FotoEscambo, incluindo grandes nomes da fotografia.

Ainda antes das mesas que compuseram o Fórum de Ideias, o Canela Foto Workshops abriu espaço para as vivências fotográficas na sexta e no sábado, onde o público podia encontrar e conversar com fotógrafos convidados, com nomes como Fernanda Chemale, Ale Ruaro, Kira Luá, Clóvis Dariano, Raul Krebs, Ricardo Kadão Chaves, Leopoldo Plentz.

Apesar de a programação assim ficar mais solta, menos formal e aparentar um esvaziamento, é nas vivências que o público tem a oportunidade de falar, de ter contato com grandes fotógrafos que de outra forma não teria chance. De ouvir histórias e fazer questionamentos sobre as experiências desses fotógrafos de uma forma mais intimista. Como nós, que conversamos assim com Clóvis Dariano e Ale Ruaro.

Dariano nos mostrou um fotolivro que fez com o seu trabalho desde a década de 1970. Suas séries como “Paisagem sobre Paisagem”, “Objetos Inexplicáveis” e "Do Profano ao Sagrado" provam a sua grande capacidade de abstração. Assim, o artista demonstra como vem intervindo em imagens, seja com qual técnica for, de laboratório ou de Photoshop, conferindo não só estética às suas obras, mas suscitando questionamentos no espectador. Este fotolivro foi dedicado a uma russa que descobriu o trabalho de Dariano a partir de uma leitura de protfólio no FestFoto POA, e o convidou a mostrar o seu trabalho naquele país.

Já o fotógrafo caxiense Ale Ruaro nos mostrou um vídeo que fez sobre o masoquismo, inserindo um olhar de fora a esse universo. Em sua carreira, Ale se dedica a fotografar mulheres nuas de uma forma não sensualizada, como no fotolivro “+18” e “Naked Friends”. Para ele, toda a sua foto se destina a quebrar tabus. Afinal, se tem que saber porque se fotografa, se é por prazer, se é pra comunicar algo, se é pra clicar um botão. Pra ele, é pra quebrar tabus. Ale também contou que fez amizades com masoquistas que fotografou, porque não queria só sugar a “alma fotográfica” deles, mas procurou entender essas pessoas, e assim acabou por perceber como eles são normais no convívio social.

O Canela Foto Workshops também trouxe diversas exposições fotográficas. O "Arte na Cerca" abriu um espaço livre onde os fotógrafos podiam colocar seus trabalhos na cerca em frente ao Grande Hotel Canela e na estrada que conduz ao Hotel Laje de Pedra. Neste ano, trouxe uma retrospectiva dos 15 anos do festival. Também na cerca estava a exposição Matrimonium, de Liliane Giordano e Thaynne Andrade. O Casarão do Grande Hotel sediou duas excelentes exposições: uma da mestre Nair Benedicto, chamada "Antologia", e outra com fotos históricas de casamentos do acervo do Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul, intitulada "Ao pé do altar". Ainda, ao lado da Igreja Matriz de Canela, as fotografias da convocatória do festival - cujo tema neste ano era casamento - invadiram as janelas do antigo Colégio Auxiliadora, com curadoria do artista André Severo. A Coleção de fotografias do Museu do Trabalho/RS estreou a galeria da Casa Francesa, espaço expositivo que fica aberto o ano inteiro. As obras de Tadeu Vilani, com o título "Olhos do Pampa", estavam na Caixa Federal. No Teatro Municipal de Canela, ficou em exposição a "Morandi", com fotos de Fabio Del Re. A exposição coletiva "Expo Brasilien o Rio Grande do Sul na Alemanha", com curadoria de Paula Ramos, Eduardo Veras e Manuel da Costa, ocupou um corredor do Grande Hotel Canela. Carlos e Eliane Heuser expuseram "Confinadas", trabalho selecionado pela convocatória do festival em 2016, na Fundação Cultural de Canela. A Casa de Pedra de Canela sediou a exposição de Kadão, "Força do Tempo". Por fim, Carlos Eduardo Vaz trouxe "Em Cantos de Porto Alegre" ao Espaço 273.

Alasul

Logo após o fim do festival de fotografia Canela Foto Workshops, iniciou a feira e congresso de fotografia Alasul, no Hotel Laje de Pedra. A feira, que é parceira do Grupo Fhox, é tradicional na capital gaúcha, e este ano mudou de casa e subiu a serra, entrando em parceria com o festival.

Assim como a Feira Fotografar da Fhox tentou unir as tribos da fotografia, a aproximação do festival Canela Foto Workshops com a feira e congresso Alasul dá um passo importante nesse sentido. Desta forma, procura congregar os fotógrafos de diversos âmbitos de atuação, como a publicidade e o fotojornalismo, com os fotógrafos sociais. Contudo, talvez esse seja uma integração a ser construída no porvir, já que pouquíssimas pessoas do festival ficaram para a feira e o congresso. Os públicos ainda não se misturam. Nós sentimos muito as diferenças dos públicos e dos eventos. Na feira e nos congressos, o público costuma ser jovem, bem como os palestrantes, alguns inclusive com menos de 25 anos. Enquanto que, no festival, era difícil encontrar alguém com menos de 35.

Nessa parceria, a Fhox acabou trazendo o Fhox Talks para a Alasul, formato de palestras inspiradas no Ted Talks, no qual os palestrantes têm 30 minutos para falar. Nomes como Fernando Bueno, Tati Itat, Michele Sautner, Iago Lanzetta e Lucas Siewert, entre outros, falaram sobre seus trabalhos. A diretora da Sala de Fotografia, Liliane Giordano, foi a apresentadora das palestras, e ela também falou na quarta-feira sobre projetos fotográficos e a narrativa na fotografia.

O Fhox Talks é uma ótima oportunidade para fotógrafos exibirem seus trabalhos e praticarem a fala em público. Também é excelente para o público, que pode assistir temas muito interessantes, de graça e num formato mais rápido. Contudo, se a Feira Fotografar em São Paulo atrapalhava com seu barulho o Fhox Talks, o mesmo ocorreu na Alasul. Ao inserir as palestras literalmente dentro da feira, a organização aproxima assim o público de passagem, mas o movimento do corredor acaba por atrapalhar quem está sentado para ver as palestras.

A Alasul trouxe ainda importantes workshops, como o “Wedding Challenge – Desafio da Igreja”, que simulou um casamento na Catedral de Pedra de Canela com os fotógrafos Eduardo Vanassi, Lucas Lermen e Lauro Maeda. Os participantes, assim, puderam vivenciar na prática como esses profissionais atuam numa cerimônia, e receberam muitas informações. Este tipo de workshop é excelente para quem está iniciando na área e ainda está aprendendo a técnica, pois ali os ministrantes falam sobre lentes, qual ISO usar, o que fazer e o que evitar.

O Congresso Alasul também ocupou integralmente os dois dias da feira. Nomes como Renato D’Paula, Lauro Maeda, Karim Scharf, Marcio Prestes, Leandro Zandoná, entre outros, palestraram no palco principal, com temas relevantes. O público foi significativo, apesar de entre maio e julho ocorrerem quatro eventos similares na Serra Gaúcha e em Porto Alegre, o que talvez possa prejudicar a assiduidade do público em um e outro. O que ouvimos de algumas pessoas da plateia é uma desmobilização para participar por temer que as palestras sejam as mesmas, o que, às vezes, acaba ocorrendo. Afinal, muitas palestras versam sobre a experência profissional do palestrante, o que acaba restringindo o leque de assuntos.

Por ser o primeiro ano em uma nova casa, é normal que a Alasul estivesse um pouco diferente do que era em Porto Alegre. O público foi expressivo, mas poderia ser maior, o que é compreensível até devido ao mau tempo – foram dias de muita chuva, neblina e frio, mesmo assim o publico aproveitou o charme da Cidade de Canela.

Conclusão

Não basta apenas olhar para o contemporâneo para entender sobre fotografia. É importante entender o contexto da história. A fotografia social parece ser a grande vertente da fotografia atual, mas os grandes mestres na história da fotografia ainda são lembrados no documental, no fotojornalismo, na publicidade. Afinal, ao retratar o social, como as imagens estão em um contexto particular, o alcance do trabalho acaba sendo também particular, de relevância para um certo grupo. A fotografia social, ao trazer o contexto de outras áreas como referência na fotografia documental, fotojornalismo ou mesmo na publicidade, amplia o seu leque para o coletivo, e assim a história passa a ser outra.

Estamos olhando para a história da fotografia para determinar os novos caminhos, e para perceber que a profissão fotógrafo não morre aqui porque todo mundo fotografa. Ela revive, ela liberta o fotógrafo de ser obrigado a retratar o real e de seguir uma narrativa linear, podendo agora usar todo o seu potencial criativo e de promover mais reflexões sobre a sociedade, contando histórias a partir de imagens. Esta é a importância de festivais como o Canela Foto Workshops: mais do que discutir a técnica fotográfica, promove uma reflexão filosófica da profissão fotógrafo e do universo da fotografia, elevando a arte e os rumos em questão.

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano

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