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Sala de Fotografia analisa: Valongo 2017


Partir do real para criar histórias próprias, na fronteira entre a ficção e o documental, onde tudo se mistura. Essa foi uma das essências dos trabalhos mostrados pelos convidados das mesas do Valongo Festival Internacional da Imagem, fossem eles profissionais do vídeo ou da fotografia. É propício jogar luz sobre esse tema, já que denota toda a força que as imagens têm de contar histórias, de criar narrativas visuais. Isso demonstra a importância que ganha essa discussão agora, que também foi o tema do festival Paraty em Foco deste ano. A Sala de Fotografia esteve em Santos com uma expedição fotográfica de sete pessoas para acompanhar de perto a segunda edição do Valongo, que ocorreu de 4 a 8 de outubro de 2017.

Vamos então, às discussões nas mesas e palestras que a Sala de Fotografia acompanhou em Santos.

Real e Imaginário

Um dos exemplos mais emblemáticos das falas no festival dessa mistura de ficção e documento foi do artista Jonathas de Andrade, na mesa “Terra Território”, conduzida por Ana Maria Maia na noite da quinta-feira. Em um trabalho apresentado em 2016 na 32ª Bienal de São Paulo, Jonathas filma pescadores tradicionais, mas ficciona a interação deles com o peixe: eles o abraçam e o acalmam até a morte, em um ritual inventado pelo artista. Assista aqui um trecho do filme, em entrevista a Revista Bravo. Ele explica que é um abraço que é afago e também dominação.

“Procuro ter sempre essa ambiguidade da imagem, para o público poder ter espaço de interação nos meus trabalhos. Tem gente que acha lindo, tem gente que se revolta”. Jonathas de Andrade

Outro trabalho que mescla realidade e ficção de Jonathas é um filme sobre revolta de carroceiros. Mas, na verdade, ele partiu de uma lei que iria proibir os carroceiros na ruas de Recife, com a alegação dos maus tratos aos animais. Assim, ele teve a ideia de organizar uma corrida de carroças no centro da cidade, divulgando por meio de cartazes e conseguindo assim o comparecimento dos carroceiros.

O Valongo trouxe ainda uma mesa para falar desse assunto entre a verdade e a imaginação, no sábado à noite: “Registro do real, narrativa ficcional”, com António Júlio Duarte e Patrícia Almeida, com mediação de Horacio Fernández. O português António explicou quando foi a Macau como fotojornalista, e esse período coincidiu com a eleição para governador da região administrativa. Era uma campanha com candidato único, sem oposição, em um exercício inútil de democracia, pois não era eleição direta, segundo o fotógrafo. Ele fazia rapidamente as fotos para o jornal, e depois usava o resto do tempo para fazer fotos mais interessantes. E assim ele cria com suas fotos uma suposta tensão, cria uma certa ficção, quem vê essas fotos poderia achar que se trata de uma eleição normal, em qualquer parte do mundo, ao ver de uma forma muito rápida - como geralmente consumimos a mídia. Ainda, António inseriu personagens nessa sua narrativa.

Patrícia Almeida, também portuguesa, contou sobre seu livro “Minha vida vai mudar”, que também deu origem a um clipe depois. É um exercício de colagem, onde reúne muitos recortes de jornais. E cria a sua narrativa a partir dessas imagens do mundo real. Essas montagens vieram das sensações, da crise da Europa que se ouve o tempo todo por lá, um discurso do medo. A inspiração dela era que estava doente na época, e quis fazer para seu filho uma espécie de cápsula do tempo pra ver como era o mundo nessa época. São imagens de muitas naturezas diferentes, há recortes, colagens, desenhos, há até imagens do processo de fazer o livro dentro do livro - e assim cria uma espécie de álbum. E nessa relação que as imagens tem umas com as outras cria um filme do livro. Nele, as imagens vão passando e dá uma sensação de tempo. A música do filme também remete ao mundo: é seu filho tentando cantar uma música em inglês. Ele inventa palavras como alguém que inventa uma língua. E no meio disso há sons, ruídos de notícias - esses sons deixaram o vídeo com um caráter ainda mais sério, como quando se vê momentos históricos preservados em museu.

Nós da Sala de Fotografia vimos o filme de Patrícia antes de ver a sua explicação na mesa, pois ele estava em exibição no Valongo. E, depois de ver a sua explicação, ficamos refletindo sobre a interação do espectador com a obra. Pois, ao assistir o vídeo, acreditamos que havia um sentido mais profundo e atrelado à crise na Europa, sobre esse processo de crise e mudança no continente. Até que por ser uma criança cantando “Get Lucky”, de Daft Punk (lucky é ‘sorte’ em inglês) imaginamos que talvez tinha algo a ver com precisar de sorte pra atravessar esses tempos difíceis na Europa com a crise econômica. Mas a explicação dela foi diferente, eram colagens como uma cápsula do tempo para seu filho, sobre esses tempos, e não necessariamente uma crítica à crise. É ai que entra o espaço de interpretação do espectador, da sua imaginação e seus backgrounds que fazem tentar achar significado naquilo. É como disse o artista Jonathas de Andrade, que sempre deixa espaço pra interpretação do seu trabalho. Visitamos também a instalação com o vídeo do peixe no Sesc em Santos, uma das meninas achou um horror ao pensar no momento da morte, já outra achou muito lindo aquele momento de carinho para com a morte. A interpretação de cada espectador conta muito.

RGB

Uma das ideias lançadas no festival deste ano – que inclusive ilustrava o palco das discussões principais em um banner – era o projeto RGB: Registro Geral Brasileiro. O site do festival, em um texto assinado por Iatã Cannabrava e Thamyres Matarozzi, explica assim:

“Nossa intenção é incentivar a sociedade brasileira a desenvolver uma cultura sólida e sistemática de documentação, bem como promover o resgate e acervo dos materiais já produzidos. Sendo assim, utilizamos o festival como plataforma para lançarmos um movimento que busca ampliar as bases de construção dessa memória, chamado RGB – Registro Geral Brasileiro. Precisamos imediatamente registrar o presente para reinventar o amanhã.”

Durante reunião da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil, que ocorreu no sábado à tarde do festival, Iatã, que é um dos coordenadores e idealizadores do Valongo (e durante uma década idealizou o festival Paraty em Foco), explicou mais sobre o projeto.

“O RGB é para convocar cada cidadão com uma câmera, para que registre o que acontece no Brasil agora, para que daqui a 10 ou 20 ou 30 anos se entenda o que acontecia, pra ser óbvio daqui a anos o que acontece agora. É essa função dos fotógrafos, registrar o que acontece. Olhe, escute, registre, registrar histórias pra ter como parâmetro. Criar nossa potência de imagem. Convocamos fotógrafos pra ter documentos que no futuro ajudem a elucidar o que está acontecendo no Brasil agora.”

Iatã Cannabrava

Reconhecemos que o RGB assume lugar de destaque como um projeto importante. É fundamental multiplicar a nossa visão do Brasil, pois muitos trabalhos estão atrelados a periferia. É verdade que aquele é um outro universo, e pode-se dar e potencializar a sua voz, já que ela não é ouvida, nem seu estilo de vida é mostrado. Mas é importante mostrar um outro país, outras realidades, que também convivem nesse mesmo território, como o próprio dia a dia da classe média. É fundamental documentar todos os contextos, não só para gerar identificação, mas para a construção de uma identidade brasileira mais sólida.

A Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil reúne profissionais que atuam na cadeia produtiva da cultura na área da fotografia no país. Ela pretende estabelecer um canal de comunicação entre os diversos setores da fotografia brasileira, colocando-se como representante das iniciativas culturais no âmbito fotográfico. Ainda durante a reunião da Rede, seu presidente, João Kulcsár, destacou que essa união dos produtores culturais em fotografia está sendo retomada. Uma das principais discussões foi a proposição de ideias para o site, que deve ser lançado em breve. Carmen Negrão, diretora adm-financeiro, ressaltou que a Rede já possui representantes em todas as regiões do Brasil.

Curadoria

Nesses tempos difíceis para a cultura, o papel do curador, que aponta caminhos e que se reinventa a cada projeto é cada vez mais importante. A mesa da quinta à noite no Valongo trouxe justamente essa discussão. “Caminhos Curatoriais” contou com as presenças de Diane Lima, Denise Gadelha, Galciani Neves, e, como mediador, Ronaldo Entler.

“O curador tem uma responsabilidade muito grande, tem o poder de dar visibilidade à produção artística, e de transformar a sensibilidade.” Ronaldo Entler

Diane Lima defendeu que é preciso refletir sobre o lugar da curadoria, pois ela lança vozes diferentes para montar um discurso, e que propõe novas lentes.

“O curador é aquela pessoa que pode ressignificar estereótipos raciais. É curando que eu me curo. Curadoria pode vir de resistência, ser instrumento de projeto político que é iminente à discussão.”

Diane Lima

O mediador Ronaldo inseriu na discussão de que curar não significa conforto pleno. “Se conserta, também se desconcerta um pouco”, disse, referindo a que a arte não serve apenas para ser bonita e agradar.

Denise Gadelha acredita que há certas melhoras na censura, apesar de tudo, com o passar dos séculos.

“Há melhoras. Ainda vemos absurdos como ainda estarmos lidando com escravidão nesse século, mas temos avanços. Uma vez não podia falar do rei sem perder a cabeça. Como artista eu não escolho o que eu faço, eu só tenho que fazer, eu não consigo não fazer. Não estamos indo num caminho pela liberdade, e arte deve fundamentalmente se basear pela liberdade.” Denise Gadelha

Já para Galciani Neves, há que se ter um meio termo.

“Há que se escolher um lado, não sei que lado é esse ainda. Não vejo como nem tanto céu ou inferno. Não vejo como não me colocar. Na crise da palavra, há coisas ditas e não tem volta. Tem que ser algo de diálogo, como afirmação, arte tem essa tarefa, não é de sanar a dor, mas piorar a dor pra algo voltar a se dito ou falado. Há sempre um perigo sobre refletir arte e sempre perigo ser artista curadora.”

Galciani Neves

Diane ainda destacou a importância de uma mesa com três mulheres curadoras discutindo sobre o assunto da curadoria, o que reforçou este momento de micro revoluções que vivemos, em um caminho de expansão de consciência.

Denise ainda falou sobre a pressão que o curador sofre, por estar no meio da discussão entre o artista e a instituição.

“Vejo o curador como interlocutor. Orquestrador. O processo de cura é inerente. Qualquer ação artística envolve isso. Curador atesta, atribui valor, dá aval, assina embaixo. O curador é placa tectônica sendo esmagado. Ele dá a cara a tapa, pois se culpa a ele por ter permitido algo, e ainda sofre a pressão do outro lado, a do artista. Dizem que curador é poderoso, mas poderoso é o circuito das artes, é a instituição. Curador está no meio sofrendo pressão na frente e atrás.” Denise Gadelha

Para Galciani, é importante humanizar o curador.

“Destituir ideia de curador iluminado, mas ver que rala, que estuda. Na verdade curador não está sozinho. Trabalha na pesquisa, se deixando atravessar. Não acredito que exista essa independência. Sempre precisa de rede, de força tarefa pra exposição se erguer.” Galciani Neves

O porto e a cidade

O Festival Valongo deu mais uma prova da sua iniciativa de se aproximar e deixar um legado para a cidade de Santos na mesa “Porto-praia-cidade: novas fronteiras”, que ocorreu no Museu do Pelé na sexta-feira pela manhã. Nesta discussão, participaram representantes do porto, da prefeitura, do governo do Estado, de instituição privada, bem como do próprio festival.

O primeiro a falar foi Alex Oliva, representante da CODESP - Companhia Docas do Estado de São Paulo, representando o porto de Santos. Ele destacou que existe um mito na cidade, onde se julga que tudo que acontece de ruim é por culpa do porto. Ele destacou que precisa haver diálogo e entendimento, buscando soluções conjuntas, onde cada parte fique responsável pelo que lhe compete. Afinal, o porto é muito importante para Santos, já que corresponde a 72% da receita da cidade.

O representante da prefeitura de Santos, José Antônio Rezende, concordou que o porto é uma grande vantagem para Santos, e destacou dados que indicam que a cidade está entre as 10 melhores para se investir no Brasil. Segundo ele, é possível conciliar os fatores ambiental, social e cultural.

Iatã Cannabrava, como representante do Festival, explicou que logo de cara a prefeitura comprou a ideia de promover esse encontro da fotografia na cidade, mas queria que ele fosse realizado no Centro Histórico, e não no Porto, por temer a insegurança da região. Mas os organizadores mantiveram sua proposta, com a ideia de revitalizar esse espaço, utilizando a imagem como instrumento social. A ideia não é só fazer o festival, e sim deixar um legado, a partir do centro de narrativas visuais – que neste ano ganhou o nome de espaço coletivo de publicações, já que está mais viável fazer pequenos livros do que filmes neste momento no país. Nestes dois anos, com mais de 4 mil pessoas circulando com câmeras fotográficas de madrugada na zona do Porto, nenhum problema de violência aconteceu.

O secretário estadual da cultura de São Paulo, José Luiz Penna, destacou que um evento como o Festival Valongo pode produzir uma contra onda civilizadora, valorizando a inteligência, pois vive a contramão de um movimento fascista que assola o Brasil, ramificando uma intolerância que o país desconhecia até então. Para ele, a cultura é o bunker mais importante para a travessia do Brasil agora, e não importa dizer que para a cultura não há dinheiro, já que a elite não tem consciência da economia da cultura. O importante é agir mesmo assim, ter ações, pois desta forma se pode ter uma restituição da democracia descompromissada da sociedade como um todo.

Eduardo Saron representante do Itaú Cultural, que é um dos patrocinadores do Valongo – ao lado da Lei Rouanet, ressaltou que a arte é integradora e que faz com que as pessoas retomem espaços públicos.

A cultura se dá pela capacidade das cidades de se mobilizarem. A médio prazo, a cultura faz com que se precise de menos recursos pra presídio, pra segurança, pra própria educação, pois a arte é mesmo transformadora e nos faz nos reencontrarmos com espaços públicos. É minha identidade que está sendo construída no dia a dia e só vou compreender o outro nessa convivência e empatia, onde a arte tem poder fundamental. É mais simples do que a gente imagina a solução. É preciso compressão do conjunto de gestores, os que estão à frente da saúde, do transporte público. Quando a cultura é vista como matricial, ela pode transformar as pessoas.” Eduardo Saron

Ao longo da discussão, Iatã ressaltou que quase se cometeu um erro de se pensar que havia um problema entre cada representante, mas não há problemas, e sim soluções, soluções pequenas como o Festival Valongo. Ele ainda defendeu a necessidade de romper com o que aparece na mídia, com o que achamos que é real – assim surge a idea da hashtag “porto de vista valongo” – para que se postem coisas interessantes sobre o Porto, e não apenas a sua degradação, mudando o que é visto quando alguém faz uma pesquisa na internet sobre o local. Pois é assim que se transforma as impressões de quem pesquisa. Iatã citou um exemplo de que, quando se pesquisa “corte de cana no Brasil” no Google, as imagens que aparecem são do corte com facão, apenas, mas isso é irreal: menos de 3% do corte é feito dessa forma no país. A ideia da hashtag se une com o projeto RGB, Registro Geral Brasileiro: registrar a realidade que cada um vê, aumentando a nossa dimensão do que conhecemos e do que aparece, ampliando a diversidade.

Iatã ainda destacou a vinheta oficial do Festival Valongo deste ano, que também explora a diversidade, mas que foi criticado nas redes sociais pelo estranhamento que provoca. Na verdade, nós da Sala de Fotografia consideramos o vídeo genial, bem produzido, com uma mensagem muito pertinente de resistência nos dias difíceis para a cultura que vivemos. Assista neste link.

Eduardo aproveitou a fala de Iatã para reforçar que precisamos sim apostar na diversidade. Ele explicou que os algoritmos dos aplicativos que usamos, como Facebook, Netflix, Google, selecionam o que acreditam que gostaríamos de ver. Mas assim deixamos de ver a diversidade, pois o que aparece é só o que já gostamos, pessoas que estão alinhadas com nossos pensamentos, que compartilham de nossas opiniões. Desta forma, acabamos acreditando que todo mundo pensa da mesma maneira, dando uma falsa sensação de que estamos corretos o tempo todo, uma sensação de verdade absoluta. Ele defendeu que exista uma ferramenta com a qual possamos desativar esses algoritmos para que contemplemos a diversidade.

Cinema

Nem só de fotografia vive o festival Valongo, o evento trouxe artistas que trabalham com imagem de diversas formas, renovando ideias e inspirando a plateia a pensar para além de suas bases. Um exemplo disso foi a mesa “Ficcionando mundos: arquivo e imagem em um Brasil sem memória”, composta por Marcelo Gomes e Jaime Lauriano, com Diane Lima, que ocorreu na sexta. A mesa, mais uma vez, retomou o tema do ficcional, partindo do real, que foi costurando os temas das discussões entre si.

Marcelo Gomes contou sobre a sua trajetória no cinema. Ele falou sobre dois filmes que dirigiu. O primeiro foi “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que se passa no Nordeste, onde um personagem é alemão e romântico, e o outro é um nordestino amargo, numa inversão do estereótipo. O segundo filme citado foi “Joaquim”, que procura mostrar a história do cotidiano do herói Tiradentes, ficcionando a história real – assim, ele humaniza o personagem, para passar a mensagem de que não só um herói pode ter ato político. Marcelo falou também sobre a importância do cinema: para ele, o cinema tem que estar presente em todos as escolas, pois é assim que se constrói a subjetividade.

“País sem cinema é como uma casa sem espelho, não tem lugar pra você refletir e descobrir a sua identidade. Tem que ser cinema plural, feito por pessoas diferentes. O presente não surgiu do nada, vem do nosso passado. Acho que estamos nessa situação porque não temos percepção das rupturas do passado. É fundamental entender a história de onde veio. Não existe revolução sem novas formas, sem novos corpos, a revolução é negra e transgênero, esses corpos que desde 1500 estão quebrados.” Marcelo Gomes

Jaime Lauriano também falou um pouco de seu trabalho, que traz uma forte carga de crítica a história, buscando em arquivos traumas históricos e trazendo para a sua produção artística, baseada em audiovisual, textos e objetos. Ele conta que escolheu as artes visuais para tentar entender o Brasil.

“Não existe diálogo se não tem memória, e não tem memória se não tem diálogo. Eu assumi que meu trabalho não é melhor que de ninguém, não é diferente, só estou fazendo reflexão sobre assuntos e jogando para pessoas e vendo como isso reflete sobre elas.” Jaime Lauriano

Em um discurso contundente, Jaime questionou todos os padrões de nossa sociedade, inclusive o próprio festival, questionando o seu modelo de ser feito dentro de um teatro, e não na rua, ou numa parada de ônibus.

“A democracia nunca existiu no país. Democracia é uma invenção. A meritocracia é a maior falácia que se acredita dentro da democracia. Tudo é limite, família, democracia. Tem que explodir tudo, não quero esse limite pra mim.” Jaime Lauriano

Outra mesa que falou sobre cinema foi “Difícil é o ser humano, máquina não dá defeito”, também na sexta à noite no Festival. O título da mesa vem do filme “O Homem das Multidões”, de Cao Guimarães. Ele falou sobre o filme, que é sobre a solidão na metrópole, inspirado em um conto de Edgar Alan Poe.

Integraram a mesa ainda João Carlos Guedes da Fonseca, com mediação de Livia Aquino. João fez uma análise do filme de Cao, correlacionando diversas obras e saberes.

“O filme traz um imperativo que faz com que o espectador encontre tempo e ritmo pra ver um longa que pouco tem a ver com o que está acostumado. Mais de dois terços do filme se passam em silêncio, e em determinado momento isso para de nos incomodar e a gente entra nessa cadência.”

João Carlos Guedes da Fonseca

Última mesa

A mesa de encerramento do Valongo pretendia trazer o artista português Fernando Lemos, agora com 91 anos, para contar sobre a sua carreira. Contudo, quem conduziu “Fernando Lemos, um surrealista no Brasil” no sábado à noite foi Rubens Fernandes Junior, devido a um problema de saúde de Fernando. Rubens contou a vida e obra do artista, mostrando suas incríveis fotos surrealistas, que na década de 40 serviam para confrontar a ditadura portuguesa. Rubens citou frases do próprio artista:

“A fotografia é o resultado visual de tudo que se adquiriu ao longo da vida. Uso todas as cenas de cinema, de teatro, um tapete...não é um capricho ou ocasião, mas do desejo de desocultar as coisas...a fotografia é parte da ânsia de desocultar.” Fernando Lemos

Somente em 1954 ele se mudou para o Brasil, onde continuou produzindo, seguindo para além da fotografia e experimentando outros campos.

“A fotografia contemporânea diante de tanta mesmice é um cemitério,

não é memória é um esquecimento.” Fernando Lemos

Exposições fotográficas

Ao longo do dia, nos intervalos entre as atividades do festival, os participantes do evento eram encontrados circulando pelas exposições que ocupavam diversas ruínas do bairro. A interação das instalações com as casas em ruínas promovia um espetáculo à parte, revalorizando totalmente um espaço que, a primeira vista, poderia parecer degradado. Exposições como “Excessocenus”, de Cristina de Middel e Bruno Morais, e “Mercúrio” e “White Noise”, de António Júlio Duarte, traziam, além de belas imagens, pertinentes reflexões sobre nosso mundo e o papel da imagem nele. “Visões de um poema sujo”, de Márcio Vasconcelos, baseado no “Poema Sujo”, de Ferreira Gular, fazia uma ponte entre fotografia e literatura, transcrevendo as palavras em cliques. Diógenes Moura, curador da mostra, escreveu um texto genial para introduzir o espectador nas fotografias de Márcio, ele mesmo se transfigurando num poeta, num texto de fluxo de consciência. Diz um trecho do texto:

“você me disse que assim, como aqui está, seria essa a sua visão do Poema Sujo original: existência absorta, homens aos nacos, cornucópia, o sexo desnudo, a garganta das coisas, cicatrizes”.

Diógenes Moura

Conclusões

O Valongo é um festival inclusivo: além de aumentar a ocupação de um espaço abandonado no entorno do Porto de Santos, dando a ele um novo uso e significado, conseguiu integrar a comunidade santista para participar das exposições fotográficas e das festas. Para participar da maioria das atividades, não era necessário nem fazer inscrição – no ano passado a inscrição gratuita no site dava direito a uma pulseirinha para ingressar nos eventos, o que de fato podia dificultar a inclusão. Outro ponto facilitado para os participantes foi que não era mais necessário retirar previamente os ingressos para as mesas no Teatro Guarany, a entrada era garantida por ordem de chegada, o que ajudou muito para quem participou de todas as atividades.

Ainda em comparação com o ano passado, sentimos falta dos trailers antes de cada mesa no Teatro Guarany. Vimos ótimos projetos em 2016 neste formato com apenas sete minutos para apresentação. Estes trailers foram uma forma genial de exibição, interessando tanto ao público quanto quem mostrava, garantindo visibilidade de forma muito rápida.

Quanto ao público, notamos que diminuiu nas palestras do Teatro Guarany, em relação a 2016. Contudo, na Feira Plana – que dá espaço para expositores mostrarem sobretudo fotolivros e outros projetos gráficos – o movimento estava consideravelmente maior. Outra atividade que reuniu muita gente foi o encontro de Nair Benedicto – uma fotógrafa com muitos anos de atividade, com a Mídia Ninja, um canal de mídia alternativa. O evento, que ocorreu em frente ao Museu Pelé na noite da sexta-feira, e seguiu madrugada a dentro, trouxe uma boa interação entre o público, que questionava o tempo todo, com os convidados do debate.

O mais interessante de tudo no Valongo é que é um festival que traz articulação entre cultura, arte, política e público. Que consiste em fazer com que aja uma relação entre diversas instâncias dentro de um evento de fotografia, discutindo não só a imagem, mas sim como a imagem pode ajudar a solucionar problemas da cidade. Ainda, consegue transitar por diversos meios, aproximando o público da periferia da comunidade acadêmica, e reocupa espaços abandonados, trazendo de volta para a comunidade. Valongo é mais do que um simples festival de fotografia, é um evento projetado para ter uma importância maior neste cenário, transformando quem dele participa.

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano

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