Sala de Fotografia analisa: Valongo 2018


“Durante anos, a humanidade padeceu da cegueira seletiva. Era possível ver, mas não enxergar. A cura da cegueira seletiva não ocorria nos olhos, e sim nos nervos dos pensamentos. Mudaram-se as referências, os ângulos dos campos de visão. A cura da cegueira seletiva vem se espalhando para todos que querem ver.”

(filme institucional do Valongo 2018)

Diversidade e resistência: estas foram palavras-chave do Valongo 2018 para a Sala de Fotografia, no festival internacional da imagem sediado em Santos / SP. Diversidade porque por lá havia diferentes tribos, todas coabitando no espaço em um clima de harmonia. Era uma mistura de pessoas e também de intelectos, sociais e de biotipos, mas era muito mais do que se podia apreender na primeira impressão: havia coerência e entendimento intelectual dentro dessa diversidade, potencializada pela questão do conhecimento. E resistência porque costumamos pensar que ela é algo de quem está à margem, ao redor. Mas no Valongo era um processo de resistência provado pelo formato de competência e compreensão que é possível a partir da arte e da cultura. O conhecimento traz em si, naturalmente, o questionamento – um depende do outro, pois só se questiona quando se tem informação a respeito. Desta forma, nos pareceu que o Valongo abre uma porta para sair deste estar à margem, não importando em qual estereótipo se encaixe, esquecendo-se de cor de pele ou de sexualidade ou até padrão social. E a resposta para isso seria o sucesso pela educação, sobretudo, pois ela proporciona uma espécie de imposição, ainda mais nessa área da arte e da cultura.

Como bem afirma o texto da curadora do festival deste ano, Diane Lima no catálogo impresso do Valongo: “O que nos cabe é revelar as obscenidades, os simulacros engessados e os processos de extrema violação dos estereótipos”. Podemos dizer que o evento teve sucesso nesta sua proposição.

Imperava, assim, um sistema de relações que por meio do conhecimento instaurava autonomia e poder. As manifestações artísticas produzem significado e ressignificado em um mundo que nem sempre tem caminhos claros, entre contradições, gerando reflexão e aproximação entre os que ali estavam no Valongo.

Ainda de acordo com o texto de Diane, as ideias que embasaram o festival são fruto de muita reflexão.

“O que nos guiou ao longo de todo o processo foi o questionamento sobre o que podem as imagens numa política dos encontros, entre o que somos e nos tornamos quando nos permitimos ser afetados pela intrínseca capacidade estésica das experiências estéticas. Questões que se referem as funções políticas das imagens em transformar discursos em verdades e principalmente, ser presença sensível como condição capaz de contagiar, comover e nos fazer sentir o sentir do outro.” Diane Lima

Segundo Diane, o Valongo queria trazer a ideia de que uma vez que vemos, é impossível voltar atrás. Assim, pretende trazer a possibilidade de tornar comum a aptidão em ver.

“No Valongo 2018 não há temas, categorias ou subdivisões. Como um organismo vivo, pulsa como uma grande manifestação que reúne efeitos, diagnósticos, observações, perguntas e referências.” Diane Lima

O tema do Valongo, “Não me aguarde na retina”, também trazia em si uma explicação elaborada, conforme explicou a curadora Diane:

“Tela responsável pela formação das imagens e pelo sentido da vida, é na Retina onde projetamos o que vemos e através da percepção visual e de outros sentidos, temos a habilidade de processar, entender e interpretar o nosso entorno por meio dos estímulos cognitivos que recebemos. Assim, é como um impulso elétrico, uma declaração e um posicionamento, que não me aguarde na retina nos convida a ampliar o nosso campo de visão, captar pressões e vibrações, frequentar frequências, sentir essências e nos destituir daquilo que conhecemos como bom e mau gosto” Diane Lima

Em 2018, o Festival Internacional Valongo celebrou a sua terceira edição entre os dias 12 e 14 de outubro. A Sala de Fotografia esteve presente em todas as edições do evento. Neste ano, além das palestras, vimos ainda as seis exposições com mais de 50 artistas que se espalhavam pela zona portuária de Santos. Também acompanhamos os lançamento dos livros “Quando o coração é 1 caçador solitário”, de Carine Wallauer; “Diante das sombras”, de Ronaldo Entler; “Antes de tudo está o futuro”, de Lara Perl; e “Copo de Luz”, de Márcio Scavone.

Confira um pouco mais do que vimos por lá nestes dias de imersão fotográfica.

Conversas

Um dos primeiros seminários do Valongo deste ano nos surpreendeu por conter um diálogo mais acadêmico, e o domínio de uma linguagem mais intelectual. Era a mesa “Não me aguarde na retina: curadoria em perspectiva”, com Diane Lima e Thiago de Paula. Os dois curadores discutiram estratégias para alargar a capacidade de ver e de sentir. Thiago é um dos curadores da Bienal de Berlim, e junto com Diane, falou sobre como tornar comum a aptidão em ver. Notamos que o público estava atento às falas, respeitando o nível de conhecimento dos palestrantes, conforme foi ocorrendo ao longo de todo o festival.

Também acompanhamos a palestra “Conversas sobre o futuro (da publicação)”, com mediação de Lara Del Rey, e com as presenças de Mariana Lima, Andressa Casado e Felipe Abreu, que fazem parte da curadoria ECP. Nesta mesa, foi discutido as pesquisas de venda de livros, que demonstram o quanto está difícil este mercado, sobretudo no campo da arte, como fotografia e poesia. Assim, eles criaram esta curadoria e passaram a desenvolver uma espécie de zine, publicações independentes de projetos. Os convidados destacaram também o quanto é rico e dinâmico o seu processo de trabalho, principalmente porque são um coletivo, assim podem discutir e pensar juntos.

Seguindo nesta linha, a conversa “Direção de Arte”, com Gabriela Castro e Matheus de Souza Viana, trouxe quais pontos têm intrigado os diretores de arte. Este é um dos campos de criação primordiais para a construção de uma publicação artística. Atualmente as publicações têm sido um desafio por si só, ainda mais no processo de publicação coletiva, em que as mudanças políticas e sociais nos afetam e afetam a estética desse processo, bem como a criação consciente e ativa dentro desse espaço criativo.

Na conversa sobre Edição com Elaine Ramos (Ubu) e Roni Maltz, da editora LP Press. Em um debate como manter constante publicações em um momento tão complexo de arte no Brasil, a LP mostrou como se propôs a realizar um zine por semana, resultando em 52 novos fotolivros em um ano. Confira o resultado neste link.

Karlla Girotto apresentou seu trabalho “Eu sou muitas”, falando sobre seu trabalho com fotografias de mulheres usando máscaras. Ela discute sobre a liberdade feminina e amorosa, encontro e reconhecimento. “Costurar essas outras mulheres em mim para que nenhuma de nós desapareça, e para que outras apareçam (caminhamos para a construção dos impossíveis)”, Karlla Girotto.

Vimos ainda a conversa “Arquivo, família e reconstrução”, com os criadores Henrique Carneiro e Rafa Moo. Eles apresentaram os livros Luciara e Hariken 87, que apresentam uma relação direta com o uso da fotografia do arquivo e memória familiar, e ressignificam eventos importantes desta narrativa através das imagens.

Outra conversa que assistimos foi “Desdobramentos de pesquisa em publicações e arte”, com Letícia Lampert, que trouxe um intercâmbio importante entre o acadêmico e o artístico a partir de pesquisas e criações. Ainda, observamos uma performance de dança e ocupação, chamada “Mar”, por Marina Guzzo, que também participou da mesa “Poéticas de um espaço-específico: uma questão sobre as espacialidades do corpo, da memória e da cidade”, na qual ela discutiu, ao lado de Juliana dos Santos, Cecília Bona, e Negalê Jones, as relações das obras com contextos territoriais e o uso de múltiplas linguagens.

Na mesa “Jogos ópticos institucionais: entre a curadoria e a gestão da cultura”, Catarina Duncan, Juliana Braga, Diane Lima, Thiago de Paula discutiram os desafios e estratégias no campo da cultura para o futuro da produção cultural tendo em vista os rumos das políticas globais e as relações das práticas contemporâneas nas estruturas institucionais.

Um dos seminários que nos chamou a atenção foi a de Emmanuelle Andrianjafy. Ela contou a história de seu livro “Nada é em vão”. Emmanuelle se mudou de Madagascar, e foi morar no Senegal. Lá, ela não se adaptou na sua nova cidade, Dakar, achando tudo estranho. Começou então a fotografar as coisas que achava diferentes, pra ver se conseguia se adaptar. Três anos depois, essas imagens deram origem a um livro. A princípio, ela só fotograva a cidade. Depois, quis fotografar pessoas. Ela é tímida, então contratou um assistente para pedir permissão para fotografiar. Seu livro foi selecionado no First Book Award da MACK.

Estivemos presentes também na mesa “Ver o invisível dizer o indizível: uma questão de linguagem”, com os integrantes da primeira Residência Artística do Valongo, Castiel Vitorino, Randolpho Lamonier, Ana Almeida, Lais Machado e Davi de Jesus, com coordenação artística do pesquisador Tarcísio Almeida.

Nesta mesa, assistimos aos resultados da residência artística. Na prática, as residências são muito importantes e é tudo muito interessante, mas o artista, sem muita experiência, nem sempre consegue explicar e argumentar sobre o próprio trabalho da melhor forma possível. Assim, percebemos como é importante o trabalho da curadoria que vai fazer uma explicação mais consistente sobre o processo e seus resultados.

Um projeto importante desenvolvido pelo festival foi a criação do núcleo de pesquisa e experimentação do Valongo, que foi elaborado como uma ação permanente do festival e prioriza, por meio de processos de escuta e criação, ações de formação e pesquisa com amplo caráter performativo das práticas curatoriais desenvolvidas.

Conclusões

O Festival Internacional da Imagem Valongo não apenas nos convida a ver com outros olhos, mas também com todos os sentidos, trazendo conhecimento expandido sobre entendimento da cultura visual. É como bem descreveu a fotógrafo Sara Verza, que nos acompanhou nesta expedição fotográfica, e pode alargar seus horizontes por meio do Festival – tanto fotográficos, como de sensibilidade e de conhecimento de mundo.

“Dia cheio aqui no Valongo. Cabeça cheia (de ideias boas e inspiração). A Lili definiu o Valongo como “divisor de águas”: nem acabou o primeiro dia do festival e já estou sentindo. Sentindo as limitações que eu mesma impunha a mim e ao meu olhar. Sentindo a verdadeira força por trás do que vejo e crio. Sentindo a motivação, o poder e ímpeto que isso pode gerar a mim e aos que me rodeiam. É TANTA COISA! É como disse a cantora Xênia França, no show que assistimos no Valongo: “E aos poucos tudo foi se encaixando, tomando sua forma única de ser e hoje eu posso dizer que criei asas e voei"." Sara Verza

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano

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