(3) Dica pra ficar em casa: filme Medianeras

A dica de cultura latina de hoje nos leva a Buenos Aires, capital da Argentina. Prepare os lencinhos: o sensível filme Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, pode comover até aos mais fortes, ainda mais nesses dias que estamos vivendo tanto em nossas casas, trancafiados no imóvel que escolhemos (ou o melhor que podemos pagar).


O enredo ressalta sobretudo os males urbanos, a arquitetura das cidades que nos prende, fazendo um paralelo lindo com a solidão que habita cada ser humano nesta era de relacionamentos líquidos. O casal de protagonistas são, afinal, dois solitários, tentando viver as suas vidas em uma cidade cheia, mas ao mesmo tempo tão vazia - e em apartamentos cada vez menores.

As cenas do filme são lindas, e não há como não refletir sobre como a arquitetura, mais do que trazer beleza aos nossos dias, influencia nossa qualidade de vida. As "medianeiras" são as paredes lisas dos edifícios, nas quais no país vizinho não é permitido a construção de janelas. Mas os moradores, desesperados por um pouco de ar puro e luz, fazem as suas próprias soluções de arquitetura. Imperdível!


Assista o filme (completo e dublado) neste link do YouTube.

Diz um trecho do filme:

"Todos os edifícios, absolutamente todos, tem uma parede inútil, sem valor. Que não dá pra frente, nem pros fundos. São as medianeiras. Superfícies enormes que nos dividem e lembram da passagem do tempo, da poluição e da transformação da cidade. As medianeiras revelam o nosso lado mais miserável. Elas refletem a inconstância, os jeitinhos, as soluções provisórias. É a sujeira que escondemos debaixo do tapete. Só lembramos delas excepcionalmente quando as mudanças no tempo fazem seus encantos aflorarem. As medianeiras são convertidas em um veículo de publicidade, que em raras exceções conseguiu deixá-las mais bonitas. Geralmente, são informações importantes, como os minutos que nos separam dos grandes supermercados ou restaurantes rápidos. Anúncios de loteria que nos prometem muito em troca de quase nada. Ultimamente, elas têm nos lembrado da última crise econômica, que nos deixou assim, desocupados. Contra toda opressão que significa viver em uma caixa de sapatos, existe uma saída, uma via de escape, ilegal, como todas as vias de escape. Em clara contravenção às normas do código de planejamento urbano, se abrem umas minúsculas, irregulares, irresponsáveis janelas que permitem que alguns milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos." (filme Medianeras)

É possível fazer um paralelo entre o filme Medianeras e um projeto de uma fotógrafa brasileira que conhecemos no último Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, o FestFoto POA 2019. A fala de Letícia Lampert sobre seus projetos serve para repensarmos o espaço ocupado pelas cidades nesta sociedade contemporânea.

Letícia contou sobre um projeto no qual fotografa as cidades a partir das janelas de onde não é possível ver o céu, apenas outros prédios. Assim, ela procura instigar o olhar para aquilo que falta, que não está ali.

“No momento que não vejo mais a cidade, só vejo a vida do outro, e não a paisagem, e consequentemente eu também estou na vitrine. Comecei a visitar prédios em Porto Alegre, observando, por um lado, a paisagem que não vejo e, por outro, a vida que brota pelas janelas. Visitei ambientes de vida privada, e só fotografei lugares que não aparecia céu de jeito nenhum. Quando você apaga a referência geográfica da cidade, apaga a sua identificação, assim ficam todas iguais. Pra mim, minhas fotos não são coleção de prédios, mas uma coleção de paisagens barradas. As pessoas, ao verem meu trabalho, acham que foi fotografado na sua cidade, por mais que não seja, e pra mim isso é muito emblemático.” Letícia Lampert

Em outra série de seu projeto, Letícia passou a recortar e editar pedaços do céu que sobravam em suas fotos, apenas nesgas. Depois, passou a fazer o mesmo com o verde que sobrava na cidade, chamando a atenção para o quão pouco era. Ainda, faz colagens, encaixando prédios de diferentes cidades. Veja suas obras no site.

“Causar um estranhamento na imagem é um jeito de fazer a pessoa parar nela, sem só passar por alguns segundos. Tenho vontade de fazer o olho parar, que é uma resistência a essa rapidez. Gosto quando alguém diz que, depois de ver meu trabalho, fica só reparando no espaço entre prédios. Ou seja: a imagem modificou seu olhar.” Letícia Lampert

Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano



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