México - ensaio de Jesus Carlos para Revista Sala de Fotografia

Jesus Carlos é fotógrafo e membro da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil. Neste sensível ensaio, ele mostra e conta sua experiência ao morar no país da América do Norte na década de 1980.

Camponeses, general zapatista, durante a manifestação da UGOCEM Vermalha, protesto no aniversário da morte de Zapata. Do Monumento da Revolução ao Zócalo da cidade do México-DF. México. 1986.

Vivia em São Paulo no início dos anos 80 ainda quando resolvi fotografar e conhecer o México. Naquele momento cheguei a pensar em viver no Panamá ou Nicarágua porque também queria viajar e fotografar a vida e a realidade de Centro América.

Só que decidi conversar com uns amigos jornalista que acabavam de chegar do México. Todos foram unânimes em dizer que o melhor seria ir para lá, por ser um país com muitos jornalistas estrangeiros e todos tinham como base para seu trabalho jornalístico na América Central. Comentaram também das facilidades de locomoção, tanto dentro do país como para viajar para os países vizinhos, porque o México tinha boas relações com os países de Centro América.

Com essas informações, resolvi viver no México. Inclusive, essa decisão facilitava em muito minha vida pessoal e profissional porque conhecia um pouco da história do país, a revolução mexicana, a arte mural de Rivera, Orozco e Siqueiros, já tinha tido contato com a fotografia moderna mexicana por meio do Conselho Mexicano de Fotografia e das imagens sobre a revolução dos irmãos Casasola. Consegui um visto como correspondente estrangeiro para entrar no país e ter o direito de residência fixa que facilitou muito minha vida profissional e no meu dia a dia. Da conversa com os amigos jornalistas até chegar numa madrugada na cidade do México passou-se apenas um mês e meio.


Tive a sorte de chegar no México uns dois meses antes da eleições de 1982. Naquela época, fotografava para o semanário Em Tempo, em São Paulo, e o pessoal do jornal tinha contatos com a direção do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, PRT. Foi por meio desses contatos que consegui minha primeira residência na cidade, em Coyoácan. Tive a oportunidade de acompanhar e fotografar o final da campanha eleitoral da Rosário Ibarra de Piedra, candidata a presidente da república pelo PRT no estado do México. Chegar num país e na semana seguinte fotografar os povoados, o dia a dia no campo, os indígenas e as pessoas nas suas comunidades, as manifestações, etc., foi como ganhar na loteria.

Jovens, banda punk em uma tocada na Colonia Providencia, na rua Progresso, cidade do México-DF, México. 1986.

Ao mesmo tempo que fotografava as eleições, procurei fazer contatos e saber quem era quem na fotografia mexicana. Como já tinha algumas informações sobre o Conselho Mexicano de Fotografia, foi aí o primeiro lugar que procurei conhecer e assim tive a oportunidade de ter os primeiros contatos e fazer amizade com o fotógrafo Pedro Valtierra. No dia da posse do presidente Miguel De La Madrid, no Zócalo da cidade do México-DF, conheci os fotógrafos Marco A. Cruz e Luiz Huberto González. A partir desses contatos e amizades comecei a conhecer de perto o fotojornalismo mexicano.


Como correspondente estrangeiro fiz minha credencial junto à Comunicação Social do governo para facilitar minha vida profissional e poder transitar tranquilamente no país. No ano seguinte da minha chegada, em contato com o editor da revista Claudia, vendi minhas primeiras fotos sobre o carnaval no Brasil e assim consegui abrir as porta na imprensa mexicana. Com o tempo, fui tendo a oportunidade de conhecer outros profissionais da fotografia, porém, foi fotografando a realidade no dia a dia que senti a importância tanto como pessoa como profissional de haver escolhido o México como meu país naqueles momentos. Haver conhecido a fotografia mexicana e ter tido também a amizade de grandes mestres como Nacho López, Héctor García, Pedro Meyer e muitos outros, foi para mim um grande aprendizado.


IMAGENLATINA / HISTÓRIA 2

Em São Paulo já existia algumas experiências de pequenas agências de fotografia como a SIGLA e a F4. A Agência F4 era a mais conceituada e bem sucedida das propostas de agências criada por fotógrafos independentes. Eram quatro profissionais da fotografia e um grupo de amigos que trabalhavam como freelancer na fotografia de imprensa e editorial. Tendo essas informações comigo e já vivendo no México por uns dois anos, conhecendo um pouco da fotografia de imprensa, os fotógrafos e o mercado editorial mexicano, comecei a pensar: por que não criar uma agência de fotografia independente? Com fotógrafos dispostos a trabalhar em um mercado que estava em expansão, onde como autores das imagens pudessem montar seus arquivos, editar suas fotos, propor suas pautas temáticas, fazer respeitar os direitos morais e patrimoniais dos fotógrafos. Foi a partir dessa pergunta que comecei a conversar e discutir com Pedro Valtierra, Marco A. Cruz, Fabrizio León e Luiz Humberto González a ideia de uma agência. Portanto, foi nesse contexto e depois de muitas discussões, que em 1984 surge a agência Imagenlatina fazendo uma fotografia crítica e diferenciada no México.

Transporte de porcos para o mercados e açougues nas ruas da cidade de Méxcio-DF, México. 1983.

LA JORNADA / HISTÓRIA 3

Sai da Imagenlatina e comecei a trabalhar como correspondente do semanário The Guardian e da Agência Stock Peter Arnold de Nova York. Ao mesmo tempo fotografava para as revistas Encuentro de la Juventud do CREA e para El Cotidiano da Universidade Autônoma Metropolitana. Em finais de 1985 junto com os fotógrafos Francisco Mata Rosas e Carlos Amérigo, proprietário do laboratório fotográfico MasterColor tentamos criar a agência de fotografia Câmera 2. Uma proposta com as mesmas preocupações em relação a fotografia, ao mercado editorial e aos fotógrafos. Só que dessa vez com melhores condições materiais porque o laboratório MasterColor ficou a disposição da agência Câmera 2.

Numa certa manhã, meses antes do Mundial de Futebol de 1986, chego na agência e toca o telefone, era a Carmem Lira subeditora do diário La Jornada. Queria saber se gostaria de trabalhar no jornal. Pensei que era uma brincadeira, só que de imediato dei-me conta que era um grande convite. Perguntei quanto tempo teria para dar uma resposta. Comentou que no máximo três dias porque tinha que fazer o credenciamento para a cobertura do Mundial de Futebol para o diário. Falei que entraria em contato de imediato. Esperei por Francisco Mata e o Carlos Amérigo para uma conversa. Foi aí que fiquei sabendo que o Francisco Mata também tinha sido convidado para trabalhar na equipe de fotógrafos do jornal. Conversamos e chegamos a conclusão que deveríamos aceitar o convite e o Carlos Amérigo ficaria responsável em levar adiante o projeto Câmera 2.

Camponeses durante a tomada de terras na região do Rio Lerma pela UGOCP, Toluca. México, México. 1987.

Nunca gostei de trabalhar no fotojornalismo diário. Sempre achei muito esgotante e pouco criativo. Tens que fazer quatro, cinco, seis pautas diárias e terminas não pensando no que estás fotografando. Porém, mesmo já tendo colaborado com o jornal, trabalhar no jornal La Jornada, pertencer ao seu quadro de profissionais da fotografia era um grande sonho que sempre passou em minha cabeça. Um diário com conteúdo, com muita credibilidade jornalística, um projeto gráfico ousado e a fotografia tinha um espaço garantido com informação autônoma. Uma fotografia independente das pautas diárias.

Portanto, trabalhar com um grupo de fotógrafos como Fabrizio León, Frida Hartz, Elsa Medina, Luiz Humberto González, Francisco Mata Rosas, Arturo Guerra e Rogelio Cuéllar era de grande importância como profissional e a oportunidade de fotografar situações que jamais teria conseguido se não estivesse entre seus fotógrafos. Independente das contradições, era também minha oportunidade de ampliar minha visão sobre a fotografia de imprensa. Aceitei e no dia seguinte estava trabalhando no jornal. Fotografar as pautas diárias, conhecer as comunidades indígenas e fotografar a vida no campo, os movimentos sociais, o lado oficial da política mexicana, a periferia das cidades, a vida cultural e cotidiana. Fotografar o povo mexicano e fazer uma fotografia de imprensa pela ótica de um jornal como La Jornada foi muito importante para minha formação profissional. Trabalhei um ano e nove meses no diário e terminei saindo por questões pessoais. Havia resolvido depois de cinco anos voltar para o Brasil.

Nos bastidores do Teatro Blanquita. Show de travestis no Teatro Blanquita, cidade do México-DF. México. 1976.

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