Sala de Fotografia analisa: 5º Fórum de Economia Criativa 2019

Juntos. Este é o novo futuro: ele é coletivo. A nova organização sugere que a sociedade não espere mais apenas pelo poder público para criar soluções. Grupos voluntários começam a se formar para promover o que queremos. E foi assim que surgiu o Fórum de Economia Criativa, que tanto ensinamento entregou à comunidade de Caxias do Sul: de forma voluntária. Ele é fruto do Grupo Setorial de Economia Criativa da Microempa (Associação da Empresas de Pequeno Porte do RS), e é formado por representantes de 20 empresas do ramo criativo da cidade. Em 2019, o evento chegou na sua 5ª edição, crescendo muito em tamanho. Os dias 4 e 5 de outubro foram de muito conteúdo no Campus 8 da UCS, e contaram com mais de 1500 participantes, 35 palestras, 18 workshops, diversas atrações culturais no festival e uma feira repleta de expositores com soluções inovadoras.


A Sala de Fotografia faz parte do Grupo Setorial de Economia Criativa da Microempa. Estivemos por lá nos dois dias de evento, e contamos abaixo o que vimos nas palestras. Vem com a gente!




A sexta-feira no Palco Aconteça

Era impossível acompanhar todas as palestras do 5º Fórum de Economia Criativa. Com dois palcos simultâneos com palestras, e duas salas com workshops, era necessário que o participante escolhesse o que mais lhe interessava e procurasse pelos corredores do histórico prédio do Campus 8 da UCS o seu próprio caminho. Mas a ideia era essa mesmo: que as pessoas pudessem criar o que fazia mais sentido a elas, já que um Fórum não entrega soluções prontas, e nenhuma ideia exposta é para ser copiada, mas adaptada a cada realidade.


Aliás, o local de realização do Fórum, o Campus 8, o Centro das Artes e da Arquitetura - tinha tudo a ver com economia criativa. O prédio, que é tombado, foi inaugurado em 1961 para ser um colégio interno. Até hoje, muito da arquitetura original se mantém. Dava mesmo pra sentir uma aura boa, uma energia criativa e educacional. Os cursos da UCS que tem a sua casa no Campus 8 são, justamente, os criativos: Música, Moda, Arquitetura, Artes.


Além das palestras, o espaço ainda ganhou quatro exposições fotográficas: “Achei que era uma obra de arte”, de Sara Verza; “Singular”, de Rubia Villa; “Cidadãos do Mundo”, de Liliane Giordano; “Crua e Nua”, de Júlia Pellizari.


O tema do Fórum em 2019 era “Crie. Emocione. Aconteça”. Dois palcos levaram o nome de Crie e Aconteça, e a área do Festival, que contava com apresentações culturais, era denominada de Emocione.


Uma das primeiras palestras que a Sala de Fotografia acompanhou na sexta-feira no Fórum foi a de Danillo Xavier Saes, professor da Unicesumar. Ele falou sobre a mudança da postura do professor frente ao novo cenário da educação baseado na tecnologia.


Seu tema foi inspirado nos filmes Star Wars: “Padawans ensinam. Jedis aprendem”. Os Padawans eram as crianças aprendizes, e os Jedis eram os mestres nos longas. Ou seja: para Danillo, todos nós em algum momento somos professores de alguém. Somos também padawans eternos, que são os aprendizes. Os jedis são os mestres, mas precisam ter a humildade de reconhecer que não são donos da verdade - assim como o professor não é. Afinal, essa é uma ideia ultrapassada. O palestrante explicou que a primeira formação para professores ocorreu na França em 1774. No Brasil, só chegou em 1835. Era um curso de 2 anos, pra curso primário, e ali sim os professores eram os donos do conhecimento.

“Hoje, temos que nos colocar como aprendizes o tempo todo como professor, e aprender com aluno que talvez já leu o assunto no Google e você ainda não teve tempo. Mas as premissas ainda precisam se manter: pensamento crítico, levar o aluno a agir, didática adequada à formação e que leve o aluno a refletir.” Danillo Xavier Saes


Outra palestra do Fórum conectada com a educação foi a de Rodrigo Quintão - CEO do MundoemCores.com, uma escola de pais on-line. O tema de sua palestra era “Vencendo o conflito de gerações”. O palestrante destacou que estamos na era da adaptabilidade - antes era da estabilidade. E antes o desafio era buscar a informação, agora é de filtrar a imensa quantidade de informação que recebemos todos os dias.


Ainda sobre educação, Cris Vieira, pedagoga e doutora em Educação pela PUCRS, falou sobre “O futuro da aprendizagem”. A palestrante afirmou que outras formas de produção de conhecimento são o futuro da aprendizagem e da educação. Ela partiu do questionamento: que tipo de conteúdo não pode faltar na educação? Para ela, visão global, é um destes itens. Deve-se aprender o que acontece no mundo pra entender o que acontece na sua empresa. Além disso, é preciso entender que o mundo funciona em rede, ele é coletivo. Também precisamos de organizações colaborativas, esse é o presente e o futuro do mundo.


Cris destacou a fluência digital como algo que não deve faltar na educação, já que tem que entender do universo digital e saber como coisas funcionam. Ainda, ela comentou sobre a redescoberta da criatividade.

“Por que falamos tanto de criatividade? Porque os processos de aprendizagem são uma das competências mais bacanas de se desenvolver. O universo escolar nunca possibilitou muito a criatividade, e as pessoas acham que não são criativas. Mas todo aquele monte de meme na internet, o nome disso é criatividade. É uma habilidade inata humana.” Cris Vieira

Memorização também faz parte da educação, de acordo com Cris, mas não é só dessa forma. Deve-se ainda aprender sobre seres plurais e diversidade e, é claro, sobre responsabilidade socioambiental.

“Quando se fala de sustentabilidade, é um equívoco não pensar em três pilares: social, ecológica e econômica. Responsabilidade socioambiental implica tudo e todos e vamos ser responsáveis por isso. E por fim deve ensinar as relações humanas. Quanto mais surge a tecnologia, mais temos que falar das relações humanas, e como isso impacta na gente, como fica essa nova configuração. Precisamos pensar naquilo que produz sentido, e não só emprego e trabalho. O ser humano deve estar no centro do processo, é o foco da aprendizagem.” Cris Vieira

Seguindo no Palco Aconteça do Fórum, Laís Barboza trouxe o case da loja de presentes Imaginarium, com o tema: “As histórias que os produtos contam”. Laís é gerente de produtos da Imaginarium há 12 anos, e contou que a loja não vende só produtos, mas também ideias. O objetivo é oferecer e compartilhar ideias que surpreendam, emocionem e levem bom humor ao dia a dia das pessoas. Para a palestrante, o negócio Imaginarium é puramente emocional: visceral (o cliente diz: que lindo quero aquilo), comportamental (ajudar algo no dia a dia do cliente) e reflexivo (conta algo sobre o cliente pra com quem ele se relaciona).

“Para Imaginarium, histórias são matéria-prima de conexão. Histórias são elos que permitem relações mais verdadeiras. Queremos criar um produto com verdade que nos permita contar histórias e se conectar com a vida dos clientes”. Laís Barboza

A sexta-feira no Palco Crie

Bruno Honda Leite é designer chefe do Núcleo de animação e desenvolvimento audiovisual da Maurício de Souza Produções – os responsáveis pela famosa Turma da Mônica. Ele falou na manhã de sexta no Palco Crie no Fórum de Economia Criativa.


O palestrante apresentou dados sobre a Economia Criativa: ela movimenta 2,7% do PIB brasileiro. E isso aumenta para 18% quando se pensa em toda cadeia, com fornecedores e outros envolvidos. Na cadeia criativa, fazem parte as artes cênicas, artes, músicas, filme e vídeo rádio e tv, mercado editorial. Ou seja: é um mercado enorme que gera infinitas possibilidades.

“Parece um mercado fechado e difícil de entrar, como no cinema, por exemplo. Mas o que é legal na Economia Criativa é que ela é muito democrática. Você tem saberes que são necessários em qualquer ponta da cadeia. E quanto mais estuda, mais abre janelas de oportunidades. Independência gera independência, para trabalhar com projetos pessoais, por exemplo.” Bruno Honda Leite

Bruno também falou sobre a responsabilidade de quem cria conteúdo, já que nada melhor do que uma boa história pra passar informação. Para ele, quando conta histórias é improvável e impossível não passar um pouco do que você é, mesmo que esteja escrevendo sobre outro ponto de vista que não é o seu.

“O papel do entretenimento extrapola e muito o entreter só pra combater o tédio. É um impacto enorme, nunca se sabe onde uma história vai parar. 100% do que falamos ou ajuda a aumentar um preconceito ou a quebrar. Nada fica neutro. Cada palavra que sai da boca de seus personagens ajuda a desconstruir ou ajuda a consolidar. A gente é multiplicador. Você pode impactar pessoas que nunca foram representadas no entretenimento. E por que não fazer um mundo mais equilibrado?” Bruno Honda Leite

Por fim, Bruno ainda falou do planejamento estratégico da Mônica Toy, uma série com os personagens da Turma da Mônica em outro formato. Ela está disponível no YouTube, e tem 320 milhões de visualizações por mês, e já atingiu 4.1 bilhões de visualizações.


Outra palestra que ocorreu no Palco Crie foi “Cidades criativas: o que são, cases de sucesso no mundo e no Brasil e como implementar um programa de desenvolvimento territorial baseado na economia criativa e diversidade cultural local”, protagonizada por Marcos André Carvalho, em uma parceria com o Canal Futura. Marcos é mestre em Economia Criativa pela ESPM, e atua há 25 anos com fomento ao empreendedorismo. Também é Ex-Secretário Nacional de Economia Criativa do Ministério da Cultura (2013-2015).


Para o palestrante, nós, que somos a sociedade da era do conhecimento, no olho do furacão, não percebemos o tamanho da transformação da humanidade que é virar o milênio. Para além disso, há a revolução tecnológica. As invenções disruptivas – que em outros séculos ocorriam uma vez a cada década, como o trem, a lâmpada – agora ocorrem a cada mês. Consequentemente, isso tem mudado a nossa forma de consumir cultura, e isso gera a economia criativa.

Marcos afirmou que a economia criativa é a que mais gera trabalho e emprego no mundo. Ela é a nova economia depois da desindustrialização, pois nunca se produziu e consumiu tanta cultura: somos a sociedade que mais produz e consome na história da civilização.

“Quando compramos um produto, compramos a alma, a inspiração, a maneira de ser que aquele produto incorpora na nossa natureza. E essa maneira de ser passa pela beleza que aquele produto transmite. Quem agrega valor, quem dá beleza a esse produto? São os criativos, os inovadores.” Marcos André Carvalho

O palestrante explicou que a economia criativa se divide em três fatores: arte, plataformas e serviços. Na arte, são a música, as artes cênicas, etc. As plataformas são rádio, tv, games, entre outros. E nos serviços são moda, publicidade, eventos, etc. Esses setores representam 10% do PIB mundial.

“O artista deixa então de ser acessório, o que não deu certo, e passa a ser o fermento do bolo da nova economia cultural.” Marcos André Carvalho

A palestra ainda teve muitos dados sobre este tipo de economia. Na China, há um plano de economia criativa pra 50 anos, enquanto que o Brasil ainda vive os anos 1980 nesse assunto. No Reino Unido, é a pauta principal do país. Além disso, os games faturam dez vezes mais que a indústria centenária da música, e mais que a de música e de filme juntos.


Depois, Marcos falou sobre o impacto do turismo. De acordo com ele, o turista vai para uma determinada cidade pra consumir identidade cultural, já que toma decisões de pra onde ir por causa da vocação cultural. Ou seja: o que só aquele lugar tem, que vai fazer a diferenciação nessa indústria cultural. O Brasil está só no 44º lugar na lista de destinos turísticos, atrás até do Vietnam, da Bulgária. Com essa diversidade cultural imbatível, e com belezas naturais, precisamos então entender porque nosso projeto de turismo cultural é tão fracassado, segundo o palestrante.

“Uma cidade criativa é a que tem valor e identidade, impacto econômico e ambiente estimulante. Como podemos transformar identidade em ativo econômico? Precisamos atrair e reter talentos. Quem é talento daqui, tem que ficar aqui. E mais que isso, atrair talentos de outras cidades pra gerar ativos econômicos aqui. Precisa ter ambiente estimulante para a classe criativa. Como? Criando incubadoras, teatros, museus, oficinas de fazeres. Onde o criativo possa transitar, espaços públicos onde possam se encontrar com público. Que estimule a criação e a inovação. Uma cidade verde, com mobilidade. Afinal, como criar se fica duas horas num ônibus espremido? É uma cidade onde tem cultura da paz. Que cria um circuito com outras cidades próximas. Uma cidade alimenta a outra, turista tem interesse de ir lá e cá também. Qual a marca, a narrativa que a cidade conta sobre si mesma? Cada cidade tem que olhar a sua vocação. Não tem uma receita de bolo.” Marcos André Carvalho


Um exemplo, de acordo com Marcos, é Abu Dhabi, que mudou sua identidade, porque sabia que a indústria do petróleo ia acabar. Descobriram que economia criativa era a inovação. Então fizeram investimento em museus: agora já tem a primeira filial do Museu do Louvre no mundo. Eles pegaram o dinheiro do petróleo e se reposicionaram como o país da criatividade e do entretenimento. Outro bom exemplo é de Medelin, na Colômbia, famosa pelos cartéis de drogas na década de 1980. Mas a cidade se reergueu por meio da literatura, com biblioteca parque, na qual há milhões de livros disponíveis para a população. Marcos citou ainda o Instituto Inhotim, gerando renda e emprego pra população de Brumadinho, em Minas Gerais. E no Rio de Janeiro a revitalização do porto onde a cidade nasceu, com a implosão de um viaduto, e da Cracolândia, dando espaço assim para o Museu do Amanhã.


Mas esses exemplos não significam que apenas o poder público deve ser o responsável por investir em Economia Criativa. De acordo com Marcos, quem vai fazer o dever é a população local, a cidade civil nas cidades. Cada cidade precisa de uma agência para pensar sua indústria criativa, em uma união de universidade, sociedade civil e poder público. É preciso formação artística. Afinal, um grande artista precisa de muitos anos de ensaio e estudo, já que o talento é só o começo. Toda a cadeia da indústria criativa precisa de capacitação e crescimento, os programadores dos gamers, os cinegrafistas. E também os empresários, buscando recursos, independente de fundos. E aí sim se tem um crescimento de uma classe que vai muito além dos artistas em uma cidade.

“Precisamos de marcos legais para a cultura. Mas tem que criar instrumentos flexíveis que entendam a sensibilidade do setor, não pode ser o mesmo pra comprar um pandeiro e construir viadutos. Nem tudo é edital: vamos pensar em como se sustentar sem o governo. O governo também tem que fazer, mas o que podemos fazer pra sustentar por si só?” Marcos André Carvalho

O palestrante ainda relembrou a importância dos Pontos de Cultura, criados durante o governo do ministro da cultura Gilberto Gil. Para Marcos, este foi um dos programas mais revolucionários do planeta em termos da democratização da cultura. Neste projeto, se entendeu que não se deveria levar a cultura para uma determinada comunidade, pois ela mesma já a produz, com manifestações ancestrais e novas manifestações, até mesmo as imateriais. Temos que ir lá e mapear e fomentar o que elas já fazem. Ou seja: não tem que evangelizar, não precisa levar cultura externa para a comunidade.

“A primeira coisa é ver o que as pessoas fazem naquele território. É muito agressivo pra quem faz cultura há décadas e nunca recebeu nada, e de repente vem cultura de fora se apresentar pra essas pessoas desse território.” Marcos André Carvalho

Para ele, a solução é dar recursos, e ouvir o que eles têm a expressar. Além disso, o projeto dos pontos de cultura previa a descentralização, criando cotas por regiões, inclusive para fora das capitais. Isto porque corre-se o risco de nos grandes centros, os artistas terem mais acessos de como fazer um projeto melhor, e assim são sempre eles que ganham. Mas aquele que faz 100 anos possui uma certa dança tradicional, por exemplo, não sabe como fazer projeto e não vai receber o fomento nunca.


Ana Fagundes, Diretora de Artes e Economia Criativa na Secretaria da Cultura do RS, estava na plateia durante a palestra de Marcos, e aproveitou para afirmar que os pontos de cultura estão sendo reativados, e hoje tem mais de 90 recebendo verbas do governo do Estado.


Consumo Consciente

Também na parceria com o Canal Futura, e ainda na sexta do Fórum de Economia Criativa, Greice Gomes, Consultora em Negócios de Moda, que atuou por 15 anos nas Lojas Renner, falou em seu workshop sobre “Moda x Consumo Consciente - Um caminho sem volta”.


Ela definiu sustentabilidade como algo que permita a sua permanência. Precisa ser, então: ecologicamente correto, socialmente justo, economicamente viável e culturalmente diverso.

“Valores humanos conectam a marca e seu público. A moda deve olhar para as pessoas e entender o objetivo delas. Sem padrões, pois todo mundo é plural, de um dia é de um jeito, depois é de outro. Esse é o fim da massificação, todo mundo misturado, se aceitando. As novas gerações já vêm com essas ideias”. Greice Gomes

Em sua fala, Greice ainda trouxe excelentes exemplos de como a moda precisa se reinventar, como a Thirdlove, marca de lingerie americana, que busca a aceitação do corpo da mulher. Em contrário da famosa marca Victoria's Secret, que vem perdendo mercado, entre outros motivos, por continuar seguindo o padrão estético.


O sábado no Palco Aconteça

A manhã do sábado iniciou com a palestra de Mauro Chies, médico oftalmologista e montanhista. O tema de sua palestra era “Gestão de fracassos: como fui parar no Everest e sai de lá vivo.” Mauro contou como começou a praticar esportes radicais para superar um divórcio. Mesmo depois de ter sofrido um acidente de asa-delta, ele continuou firme na sua preparação para alcançar o pico mais alto do mundo. Contudo, no Everest, ele acabou caindo em uma fenda no gelo, e por pouco não perdeu a vida. Foi o fim do sonho de alcançar o cume, mas o início de uma ressignificação da experiência.

“Precisamos pegar o que acontece com a gente e transformar em uma coisa boa”. Mauro Chies

A palestra de Mauro traz muitos episódios que rendem boas histórias. O seu tema, de falar sobre fracassos, é algo muito atual. Precisamos mesmo desmistificar o mito do vencedor, e começar a falar que todos nós enfrentamos grandes barreiras pelo nosso caminho. Nem sempre não concluir um objetivo deve ser visto como uma perda. Mauro acerta no assunto. E com certeza pode detalhar ainda mais sobre essa impressionante experiência.


Nesse processo de assistir tantas palestras e relatos de experiências pessoais, percebemos a importância do storytelling, do método de contar uma história, com muitos detalhes e viradas de roteiro. Isso ajuda em qualquer palestra, para manter o espectador atento.


Logo após, Marina Rambo - administradora, diretora da startup Uhuu - subiu ao palco, falando sobre “Como construir uma experiência de marca inovadora para empresas de serviço digital voltadas para o entretenimento?” A palestrante contou a jornada da empresa, que faz a intermediação entre os eventos e a venda de ingressos ao público por meio do site. Para se diferenciar, a Uhuu procura ser mais que apenas uma tiqueteira, transformando eventos em dados que permitam uma assertividade maior no futuro quanto ao público-alvo.

“No negócio a gente sabe o que quer, mas esquece de se fazer perguntas. Qual o seu legado?” Marina Rambo


Para fechar o Fórum no Palco Aconteça, ocorreu a palestra de Cesar Paz – sócio e mentor de mais de seis empresas, e um dos fundadores do movimento coletivo “Porto Alegre Inquieta”. Ele trouxe em seu discurso toda a força da coletividade de se engajar para criar cidades melhores e construir a sociedade que queremos.

“O POA Inquieta é um pensamento criativo, uma produção de sentido para a solução de cidades. São pessoas que se alinham, com inquietude para com sistemas que não funcionam: educação, saúde, mobilidade. Não queremos atribuir culpa ao prefeito, ao poder público. Estamos discutindo que não funciona. E revigorando uma cultura cidadã que tinha de sobra nos anos 70 e 80 em Porto Alegre, mas que por algum motivo se perdeu. Qual será o ponto de equilíbrio entre o local e o global? Aquecimento global ou um buraco da rua? No nosso coletivo, pensamos na transformação local. E queremos articular e fomentar todas as expressões de economia criativa que já existem na cidade.” Cesar Paz

Tal como Marcos André Carvalho, Cesar citou Medellin, a cidade colombiana, como exemplo. Ela saiu de um status de a mais perigosa do mundo para a mais criativa em 20 anos. O POA Inquieta promoveu duas viagens para conhecer e se inspirar nos projetos que deram certo por lá, e que podem servir por aqui também.

“Queremos trazer a cidade invisível para dentro do coletivo. Temos projetos maiores e também “não projetos” - estes chamamos de nanoacabativas e não demandam recursos específicos. São pequenas conquistas e vitórias. Como por exemplo a construção de uma horta numa escola pública. Ou uma pequena reforma. São iniciativas das pessoas a favor da melhoria da qualidade de vida de uma pequena comunidade, e que também precisam ser celebradas.” Cesar Paz

O palestrante ainda reforçou que inovar é muito necessário, mas que não adianta ser apenas uma ação: precisa continuar como um processo. Nisto, citou como exemplos o Fórum Social Mundial e o Orçamento Participativo, que foram importantes para a cidade, mas não continuaram inovando. Por fim, Cesar mostrou um projeto de um grande festival de economia criativa que o grupo pretende promover em Porto Alegre no próximo ano.


O POA Inquieta é um grande exemplo do que citamos no início do texto: o nosso futuro é coletivo. Cada vez mais as soluções precisam partir de cada um de nós, no nosso próprio local de atuação, por menores que sejam. Mais do que apenas fazer por si mesmas, estas uniões de cidadãos acabam por ter poder de visibilidade frente ao poder público. Não podemos mais esperar que cada prefeito decida o que fazer, a cada quatro anos, anulando obras do seu antecessor. Os cidadãos, que mais do que ninguém sentem os efeitos de cada pequena mudança na cidade no seu dia a dia, precisam se mobilizar para fazer acontecer.


O sábado no Palco Crie

Enor Tonolli - Coordenador Executivo do Parque de Ciência, Tecnologia e Inovação – TecnoUCS, coordenador do programa de geração de startups – StartUCS e professor nas áreas de engenharia e empreendedorismo – conduziu no sábado do Fórum de Economia Criativa a palestra “Dead Vortex”.

“Dead vortex são os preconceitos e julgamentos que nos deixam presos em um redemoinho que nos leva sempre para o mesmo lugar, que é confortável. Têm empresas que mantém seus problemas porque sabem lidar com eles. Dead Vortex, então, é este redemoinho que nos leva para baixo e nos mantém sempre no mesmo lugar.” Enor Tonolli

Para o palestrante, a tecnologia vem mudando, mas nosso comportamento não chegou até aqui do nada. Não existe nada novo, o que existe são reapresentações de coisas que a humanidade já viu na sua história. Só em um ponto mudamos: a velocidade é que tem sido o grande fator de mudança no nosso tempo. E Enor deu um exemplo do que falava: criticamos pessoas que não socializam porque ficam grudadas em seus celulares, mas então ele exibiu uma foto antiga na qual se veem muitas pessoas grudadas às páginas dos jornais, em uma cena muito similar ao que vemos nos dias de hoje com a tecnologia.

“Ninguém se adapta ao que não tem propósito. Temos que ser ambidestros, empresas e pessoas. Inovação é o vírus que é combatido dentro das empresas. O sistema imunológico tenta nos desviar pra situações de conforto e pseudo-segurança quando elas não existem.” Enor Tonolli


A palestra seguinte no Fórum trouxe Felipe Guelfi – que recebeu o título de Jovem Talento Empreendedor em 2018 em Caxias do Sul – para falar sobre “Negócio da China: da falsificação à inovação”. Ele já conduziu diversas missões empresariais ao gigante asiático, por isso fala com propriedade sobre o país.


O palestrante explicou que a China passou da cópia descarada ao propósito, passando por três fases de desenvolvimento. A instalação de fábricas por lá iniciou por mão de obra barata. Mas o crescimento foi muito rápido. De 1980 a 2011, uma vila de pescadores se tornou o maior pólo tecnológico do mundo.


Na China, há busca de novos recursos a novos conhecimentos. A internet 5G – que vai chegar por primeiro por lá - não significa apenas internet mais rápida nos celulares, explicou Felipe. Ela vai mudar nosso jeito de viver, pois vai possibilitar novos aplicativos. Os médicos vão poder operar à distância com precisão, por exemplo.

No ramo da medicina, centros médicos chineses já contam com o “We doctor group” – um computador que traz medicina remota. Ele faz exames com assertividade de 99% no diagnóstico. Os dados que isso gera para o governo chinês são muito importantes, pois assim é possível saber as doenças mais comuns por área, evitando epidemias.


Felipe trouxe ainda muitos outros exemplos de como funciona a vida na China. Falou do We Chat, que seria como nosso WhatsApp, mas mil vezes melhor. Nele você pode fazer pagamentos, comprar ingressos de cinema, investir na bolsa, chamar táxi, comprar créditos pra celular, se relacionar como se fosse Tinder, acessar serviços públicos, renovar carteira de motorista, marcar consulta médica. É muito útil, mas também é a porta para o controle social do governo sobre o cidadão chinês. O WhatsApp por lá é proibido, bem como o Facebook. Se alguma pessoa posta algo sobre protestos contra o governo no We Chat, ela é bloqueada. Como é uma plataforma na qual é possível fazer tantas coisas, ser forçado a sair dificulta muito a vida diária.


Mas pode ficar ainda mais complicado. Felipe explicou sobre uma outra ferramenta que o governo chinês vem utilizando, que lembra muito os episódios do seriado distópico Black Mirror. Desde 2014, há premiação ou punição de acordo com a pontuação de cada cidadão. Quando o ranking cai, há punição. Assim, ele não pode reservar viagens, ou hotéis com quatro ou cinco estrelas. Seus filhos não podem ir para melhores escolas. Mas se é um bom cidadão, as taxas de juros são melhores, pode ser funcionário público. O que contam pontos são atitudes como não passar sinal vermelho, não dirigir bebendo, entre muitas outras. Assim, o ranking social controla as pessoas. Felipe questionou, sim, a extrema invasão de privacidade do governo sobre a vida do cidadão. Mas também teve o cuidado de reforçar o outro lado: é um país que tem níveis baixíssimos de violência. E questionou: Será que não é uma ferramenta válida em um país de 1.5 bilhão de pessoas?


O palestrante ainda falou sobre qual a previsão de futuro para o país asiático.

“Agora, pouca gente está deixando os campos na China, e assim não tem gente pra produzir nas fábricas, então vai desacelerar o crescimento. Por isso estão querendo inovar, e parar de imitar." Felipe Guelfi

Por fim, ele explicou que o Partido comunista exige que toda empresa com mais de 50 empregados precisa ter um membro do partido, e isso inibe a criação. Além disso, os olhos das empresas por lá ainda são muito voltados para o doméstico: 80% do PIB da China depende deles mesmos. Ou seja, eles precisam olhar para o mundo, para a exportação. E também, nas empresas da China, há muitos chineses. Na Áustria, apenas 40% dos funcionários são austríacos, por exemplo, o resto é de pessoas do mundo todo contribuindo com ideias e novas visões. A diversidade é um dos fatores que contribui para o crescimento e desenvolvimento.


A palestra de Felipe, de fato, contribuiu muito não apenas para o conhecimento de mundo da plateia, mas também para a criatividade. A visão geopolítica é muito importante: olhar para o que está sendo criado no mundo para entender onde estamos e para onde vamos. Todas essas visões de uma vida diferente da nossa, com inovação e tecnologia, e também dos problemas que eles enfrentam, servem de exemplo para nos posicionarmos frente ao mundo. E para quebrar nossos próprios paradigmas. Não basta dizer se é bom ou ruim por lá, para ser criativo é preciso rejeitar respostas fáceis e prontas, é preciso identificar as nuances, e ver que para toda questão há muitos lados.


Logo após o intervalo do almoço, Gustavo Zolet, diretor da empresa Neomot, falou sobre “Edifícios Inteligentes: da Ficção Científica para a Realidade”. O palestrante trouxe muitos exemplos do que está mudando na área: as máquinas agora se adaptam à realidade das pessoas. O portão do condomínio entende quando precisa ser consertado, e já aciona a assistência técnica sozinho. O elevador sabe a que horas você sai de casa todos os dias e te espera no seu andar. Acender as luzes da casa com o celular já é coisa do passado. Agora, a casa já reconhece que sou eu e faz isso automaticamente.


A palestra seguinte no Fórum, na verdade, foi uma verdadeira aula. Tito Gusmão – que foi sócio da XP Investimentos, e fundou em 2015 a plataforma Warren para ajudar as pessoas a investirem bem - ensinou a plateia sobre educação financeira, em um discurso descontraído, envolvente e muito elucidativo. Para o palestrante, a escola deveria trazer o assunto das finanças pessoais para seus alunos. Afinal, o dinheiro circula no dia a dia, e precisamos saber lidar. Mas no Brasil, parece que o assunto é tabu.


Tito ainda fez uma provocação muito interessante à plateia: pensar quantos minutos você trabalha para comprar algo. Falou ainda de juros compostos, e de melhores formas de investimento.

“A economia se movimenta em ciclos como uma montanha-russa: lá em cima e lá embaixo. Mas a longo prazo a economia sempre cresce. Eu não perderia tempo pensando se vamos mesmo ter recessão.” Tito Gusmão

Para quem quer aprender mais, Tito tem um livro, chamado Papo de Grana, bem como um site de mesmo nome, disponível neste link.




A tarde do Fórum ainda trouxe a palestra de Cassio Tramontini, com o tema “Empreender e gerar impacto social”. Cassio é co-fundador e CEO da Return, que nasceu há 4 anos com o propósito de inspirar as pessoas a gerarem um retorno por onde passam. A empresa cria e implementa projetos que conectam marcas e pessoas com soluções de desafios sociais.


O palestrante contou que a empresa nasceu de uma incomodação perante os problemas sociais com os quais se deparava, o que estimulou a criatividade para tentar fazer algo em prol daquilo. Um exemplo de projeto que ele mostrou foi testes de visão para um escola pública de Porto Alegre, na qual os alunos que foram detectados com problemas ganharam os óculos ao final do projeto.

“Precisamos dar um retorno a todos os envolvidos nos projetos. Quem investe são investidores sociais e temos que dar retorno muito claro a eles. Queremos gerar valor para além da causa.” Cassio Tramontini

Cassio também falou sobre sustentabilidade, que não deve ser pensada apenas no seu aspecto ambiental, mas que precisa estar embasada em três pilares: econômica, social e ambiental. Em seus projetos, eles tentam fazer o mais sustentável possível, baseando-se nestes pilares.


Além disso, explicou que precisamos falar sobre soluções, e não só sobre o problema. Um exemplo seria da mídia negativa: se de cada dez pessoas, quatro ainda não reciclam seu lixo. Por que a manchete não poderia ser ao contrário? Seis em cada dez já reciclam. Se falarmos no positivo, isso gera mais engajamento, e é mais fácil de convencer mais pessoas a aderirem à causa.


Para o futuro da Return, Cassio explicou que o objetivo é simplificar.

“O excesso de criatividade pode gerar desvio de foco. Criatividade x simplicidade. Estamos em um processo de simplificação. Criatividade para simplificar as coisas, e não para criar mais coisas ainda.” Cassio Tramontini

E sustentabilidade também esteve entre os tópicos da palestra de Rafaela Cappai – empreendedora e fundadora da Espaçonave, uma escola de empreendedorismo e criatividade. Ela falou sobre “Transformação Criativa – como a criatividade pode transformar pessoas, negócios e o mundo”.


Rafa trouxe muitos dados sobre criatividade e como ter um negócio sustentável, e ainda estudos de caso, nos quais visão e ação criativas podem transformar as pessoas, os negócios e o mundo. Ela citou oito pilares de um negócio criativo:


1 - liderança e gestão criativas

2 - inovação e DNA criativo

3 - propósito e valor distribuído

4 - humanidade, vulnerabilidade e autenticidade

5 - conexão emocional

6 - pertencimento e comunidade

7 - comunicação criativa, empática e autêntica

8 – sustentabilidade


E também listou como ter um negócio criativo na prática:


1 – diferenciação estratégica por essência

2 – cocriação com sua galera

3 – storytelling sem forçação de barra

4 – linguagem criativa e/ou bem humorada

5 – desing e estilo próprios

6 – foco em experiência

7 – ação prática de valor distribuído

8 – modelo de negócio de base inovadora

9 – Inovação social e metodologias criativas

10 – tecnologia para alavancar o humano


Conclusões

Orgulho. Esta foi uma palavra que nos definiu durante o Fórum de Economia Criativa da Microempa. Por fazer parte do grupo que promoveu o evento, ficamos orgulhosas de perceber o quanto um grupo voluntário, com pessoas engajadas e querendo fazer acontecer pôde realizar. Foi um evento com bom conteúdo, com bons palestrantes, que entregou mais de 16 horas de programação para Caxias do Sul. Alguns dizem que nossa cidade é fabril, mas ver tanta gente reunida em prol da criatividade nos enche de ânimo. A criatividade é um ato intrinsecamente humano, e que nos diferencia das máquinas. Todos nós nascemos com ela, mas, a bem da verdade, o ato de criar às vezes fica ligado apenas à infância. Que a cada edição do Fórum, então, que o Grupo Setorial de Economia Criativa da Microempa consiga tornar a cidade uma referência na criatividade, e não só para as áreas que já são consagradas como criativas. Vamos expandir as boas ideias para todos os campos, já que criatividade não se perde, ela só precisa ser incentivada. E esse é o principal ingrediente do evento: entregar criatividade à sociedade, compartilhar histórias, ideias e negócios. Já ficou para trás a ideia de concorrência. Se o futuro a gente constrói juntos, é porque percebemos que, quanto mais trocamos, melhores somos.


Texto: Sabrina Didoné (jornalista - 0018277/RS) e Liliane Giordano (mestre em Educação: arte, linguagem e tecnologia)

Fotos: Liliane Giordano


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