Picasso e pós-impressionistas: as impressões da Sala de Fotografia em exposições de arte em SP


Cada pequena experência, cada estímulo, conta. Tudo incrementa nosso repertório intelectual. Você pode nem saber de onde vem uma inspiração, porque ela está lá, guardada em seu subsconsciente, pronta para desabrochar quando você precisar ser criativo.

Quando o estímulo é arte, então, parece que todos os sentidos desabrocham, para quem tem a paciência de análisá-la. A Sala de Fotografia aproveitou as horas antes das palestras do Fórum Latino-Americano de Fotografia para visitar duas exposições de arte: “O Triunfo da Cor: Pós-Impressionismo” e “Picasso: mão erudita, olho selvagem”.

A primeira parada foi no centro de São Paulo, ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil). O prédio, construído no início do século XX, por si só, já vale a visita. A exposição ganha o nome de “Triunfo da Cor” pois reúne importantes nomes pós-impressionistas, que assim foram chamados por utilizarem uma nova linguagem estética baseada no intenso uso das tintas coloridas. Foi um deleite passear pela galeria e se aproximar de obras assinadas por grandes nomes como Van Gogh, Gauguin, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Matisse, Monet.

Vincent Van Gogh - A Italiana (1887)

Henri-Émile-Benoît Matisse - Odalisca com calça vermelha (1924)

Henri de Toulouse-Lautrec - Ruiva, ou A Toalete (1889)

Obra de Paul Signac - Mulheres no Poço ou Jovens Provençais no poço - utilizando a incrível técnica do pontilhismo, no qual muitos pontos separados formam uma imagem. Lembrou de pixels? Pois é, em uma obra de 1892.

Já a segunda visita também vale só pela arquitetura, só que dessa vez, moderna. O Instituto Tomie Ohtake fica no Complexo Aché Cultural e exibe suas ousadas curvas em rosa e azul. A exposição “Picasso: mão erudita, olho selvagem”, trouxe mais de 150 obras do mestre espanhol, passando por todas as fases de sua vida e pelo seu vasto legado, que mistura influências e experimentações muito distintas entre si. Logo de cara, ao adentrar na exposição, uma surpresa: uma linda pintura chamada “Homem de Boné”, de 1895. Que ele pintou aos 14 – sim, QUATORZE anos, quando ainda era um aprendiz.

O prédio do Complexo Aché Cultural, lar do Instituto Tomie Ohtake

À direita, a obra de Picasso - Homem de Boné (1895)

Mais adiante, a exposição trouxe outras fases de Picasso, muito distintas: o cubismo, seus trabalhos com figurinos e cenários de balé, seu flerte com o surrealismo e a sensualidade da série das banhistas – fortemente influenciado por sua vida pessoal neste momento, na qual ele tinha encontros amorosos furtivos com uma menina de apenas 18 anos na praia, mesmo continuando casado. Ainda perpassou obras sombrias que ele criou durante as guerras que chacoalharam o mundo naquele período, momento também conturbado em sua vida pessoal, no qual o tema da morte era tão presente na sua arte. Até chegar ao surpreende Picasso escultor, que brinca com argila.

O flerte com o surrealismo e a sensualidade em Figuras à beira-mar

(Pablo Picasso, 1931)

O surpreendente Picasso escultor

(Coruja com cabeça de mulher, 1953)

O Picasso que retrata a morte durante as Guerras

(Crânio, ouriços e lâmpada sobre mesa, 1946)

Imagem e texto

Mas não basta apenas olhar. Uma imagem até vale mais que mil palavras, mas o diálogo que existe entre os dois meios merece ser explorado. Em ambas as exposições, os textos enriqueciam muito a experiência do visitante. Ao ler as explicações, ou apenas o nome da obra de arte, muito saltava aos olhos, muito se fazia entender e ficava mais claro. Como a obra “Bruxa com Gato Preto”, de Paul Ranson, 1893. Talvez você nem veja a bruxa em um primeiro momento. Mas ao olhar o nome do quadro, e voltar a analisá-lo, as imagens ficam mais claras. E depois que você enxerga, você nunca mais deixa de enxergar, o seu olhar não retorna mais ao estágio inicial.

Paul Ranson - Bruxa com Gato Preto (1893)

E ainda como este quadro de Picasso, fruto da sua fase final e mais erótica, ganha outro significado ao ser observado depois de saber o seu nome: “A mulher que faz abortos ilegais com suas três filhas. Degas com as mãos nas costas”, de 1971.

Pablo Picasso - A mulher que faz abortos ilegais com suas três filhas.

Degas com as mãos nas costas (1971)

E assim, por meio dos textos, fica ainda mais plausível fazer uma conexão entre pintura e fotografia – apesar de isso ser fácil, já que todas as formas de arte estão ligadas de alguma forma. Em uma das placas da exposição, lia-se uma ideia de Gauguin: