Parte II - Sala de Fotografia analisa: Valongo Festival Internacional da Imagem 2017


Ter uma mesa só formada por mulheres, e discutindo o feminismo e as regras de seu próprio corpo, é outro ponto que merece destaque no Valongo. A mediadora da mesa de Cris e Laia foi Bia Abramo, que destacou o caráter feminista do trabalho das artistas. Mas elas não concordaram: fizeram os seus trabalhos com outros focos e por outros motivos, mas sem pensar no feminismo. “É um trabalho necessário, e para que se conheça, para que se entenda, mas não vem por causa de uma luta feminista”, afirma Laia.

Assim, se percebe que o trabalho das duas fotógrafas atinge o feminismo. Contudo, ao propor o trabalho, elas não entraram nessas questões, pois construíram seus projetos por outros caminhos. Mesmo assim, acabam por suscitar reflexões sobre esse tema no seu público. Por mais que não tenha background feminista, é preciso trabalhar essas nuances no conceito do projeto, já que as pessoas vão associar e questionar, e as artistas precisarão responder.

Porém, para discutir e querer trabalhar com os projetos que Laia e Cris propõem não é necessário ser feminista, basta ser mulher, pois essas questões atingem a todas nós. No Valongo, uma surpresa foi o significativo número de mulheres, já que elas não são maioria no universo fotográfico. E, ao adentrar nesse universo, percebe-se que, assim como Laia e Cris, as mulheres apenas relatam seus projetos, sem tentá-los transformar em algo maior por meio de um discurso programado. O que elas fazem é um relato do que foi feito. O que se nota é que as mulheres costumam ser mais modestas na fotografia, pois a profissão era essencialmente masculina. Então, a postura feminina se restringe muito mais ao resultado do trabalho do que ao glamour ou ao ego. Acaba assim adquirindo uma postura mais maleável e permeável nesse espaço, buscando adquirir o respeito pelo conhecimento demonstrado.

Conselhos

Araquém Alcântara é um dos mais respeitados fotógrafos de natureza do Brasil. Tem uma trajetória de muitos anos na fotografia. E na sua palestra, ele desmistifica a pressa que os jovens que ingressam agora na carreira têm em lançar seus projetos.

“Tem quem queira fazer um livro em seis meses. Eu fiquei 15 anos rodando o Brasil para percorrer todos os parques (unidades de conservação) do país. Assim consegui lançar o livro Terra Brasil.” (Araquém Alcântara)

E para desenvolver um trabalho próprio, com assinatura que diga coisas de modo particular na sua fotografia, é preciso praticar, e muito – e essa prática também não acontece do dia para a noite.

“Tem que ter predileção. Se meu negócio é fotografar varal, então, porra, vai fotografar varal até a exaustão. De tanto fotografar algo, você começa a hospedar aquilo, começa a entrar em simbiose. Tenha um tema e desenvolva isso até a exaustão. Leia muito, veja outras obras, até que chega a hora que seu trabalho está tão prenhe que não aguenta mais e tem que sair. Exponha seu trabalho à execração pública”.

(Araquém Alcântara)

Araquém acredita no uso da fotografia analógica para adquirir paciência. E explica que não existe glamour na foto de natureza, que é muito suor, ficar na mata por muitos dias, sem banho a fim de camuflar o cheiro, sem comunicação. E assim repensa-se o velho estereótipo de que tem que dar sorte para se conseguir uma boa foto. Mesmo Araquém, que tem um inegável talento, precisa praticar muito, e se sujeitar a difíceis condições, para conseguir trazer o que vê na mata até nós. Precisa dar chance a sua sorte.

“Se você não der chance a sorte, como vai fotografar onça? Quando pensa em descansar, e ainda tem mais uma curva do rio, você tem que driblar a mente e ir ver o que tem lá naquela curva.” (Araquém Alcântara)

Dica para nossos alunos: estudar fotografia nunca será demais. E vale demais o conselho de Araquém – não basta apenas estudar o próprio tema.

“Fotógrafo tem que ter repertório cultural extremamente diversificado. Precisa exercitar muito, lendo e, sobretudo, vendo. Vendo muitos filmes, muito cinema. Fotógrafo precisa ter muita cultura.” (Araquém Alcântara)

Para terminar, o fotógrafo falou ainda da importância da curadoria nos projetos fotográficos. Afinal, o curador é alguém que escolhe sem ter envolvimento sentimental, já que a emoção pode fazer com que o fotógrafo tenha escolhas erradas.