Sala de Fotografia analisa: Paraty em Foco 2017


Respeitar o tempo, ir fundo para produzir imagens com sabedoria, sensibilidade e sentimento. Viver e desfrutar do processo, estabelecer relações e transformar emoções. Isso foi um pouco do que a Sala de Fotografia aprendeu nos cinco dias de imersão no 13º Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco, que ocorreu entre os dias 13 a 17 de setembro de 2017, na fotogênica cidade do Rio de Janeiro que dá nome ao evento.

Pela primeira vez em festivais de fotografia no Brasil, a maioria dos participantes era de mulheres, representando 77% do total – dados da página do Facebook do grupo Fotógrafas Brasileiras. Aliás, Wania Corredo, Milla Dantas e Simone Marinho falaram sobre a ideia do grupo em uma mesa na quinta à tarde no festival. A iniciativa nasceu com uma foto coletiva com 134 fotógrafas no Rio de Janeiro, a partir da ideia da fotojornalista Wania Corredo de reencontrar colegas da profissão. Agora, elas se unem com objetivos culturais e sociais, conectando as profissionais da imagem.

Mas antes dessa mesa muito já tinha acontecido na programação do Paraty em Foco 2017. Confira como foram as mesas.

Primeiras mesas

A abertura do festival fez uma homenagem a um dos mestres da fotografia brasileira, Flavio Damm, que foi entrevistado por Pedro Karp Vasquez. Flavio completa 90 anos em dezembro deste ano, com 77 destes dedicados a fotografia, contando com mais de 65 mil negativos em seu acervo e tendo publicado mais de 24 livros. Ao longo de sua fala, o fotógrafo contou muitas passagens de sua vida e de sua profissão, fazendo uma apresentação de seu trabalho – o que foi uma constante no Paraty em Foco. Ele dedicou sua vida ao fotojornalismo, e assim presenciou grandes momentos históricos e fotografou grandes personalidades.

“É preciso estar atento e equipado para a fotografia de rua. [...]

Quero sentir o cheiro da pessoa que estou fotografando.

Por isso fotografo com lente normal, o que meu olho vê”. Flavio Damm

A tarde do segundo dia de festival trouxe a mesa “Foto-documentarismo: Razão e Sensibilidade”, com André Cypriano, entrevistado por Fernando de Tacca. André apresentou seu trabalho geminal, “O caldeirão do diabo” – que documenta onde nasceu a facção criminosa Comando Vermelho. Este trabalho fecundou outros de seus projetos. Com uma fala simples e humana, ele relatou como conseguiu registrar os grandes chefes do Comando Vermelho e até hoje mantém uma relação amistosa nas favelas do Rio de Janeiro, podendo transitar e fotografar nesses locais, que são proibidos à maioria.

“Vou em busca do desconhecido, e a câmera é

o instrumento que me possibilita isso”. André Cypriano

O mediador Fernando de Tacca destacou que a razão e a sensibilidade é o grande salto da antropologia contemporânea.

“O encontro com o outro é o que também me modifica –

um processo de negociação da imagem”. Fernando de Tacca

André destacou ainda, dentre as dificuldades de seu trabalho, o problema de território e as resistências culturais.

A mesa seguinte da quinta-feira do Paraty em Foco trouxe o tema “Mostrar, Emocionar, Envolver”, com Nana Moraes e Kitty Paranaguá, entrevistadas por Pedro Karp Vasquez. Nana contou sobre seu projeto em fotografia com presidiárias, no qual tirava fotos das detentas e levava para seus familiares, e vice-versa. Antes disso, ela tinha feito fotos de prostitutas, que costumavam alegar que pelo menos não eram bandidas, e assim surgiu a ideia para a continuação do projeto de mulheres excluídas: dar voz e um rosto a quem geralmente não tem espaço na sociedade. Ressaltou ainda, em sua fala, a difícil condição dessas presidiárias, que costuma ser mais complicada do que de homens detentos – esses, pelo menos, recebem visitas das esposas, das famílias.

“Quando se vai fotografar, é preciso entender o universo para entrar na

intimidade e subjetividade delas. [...] Mergulho no universo, depois penso como retratar.

Você não pode se satisfazer, a dúvida é saudável e te motiva a ir mais fundo”. Nana Moraes

Kitty Paranaguá falou sobre o seu projeto “Copacabana”, no qual fotografa quem mora nessa paisagem, e como é essa paisagem na casa das pessoas.

“Para se fazer um retrato, tem que se ter uma relação com esse outro”. Kitty Paranaguá

Kitty acrescentou que Copacabana é um projeto de vida, um lugar no qual ela vai para pensar e observar a vida.

Guerra Civil Espanhola

Antonio Anson, que trabalha a relação da literatura com a fotografia em alguns de seus livros, falou sobre “Guerra civil, ditadura, memória histórica, transição política” na sexta-feira do Paraty em Foco, conteúdo este que vai estar em seu novo livro. O espanhol foi entrevistado por Fernando de Tacca.

“Quando se escreve, quando se fazem fotografias, gostemos ou não,

estamos fazendo também política”. Antonio Anson

Nesta sua nova publicação, ele estuda a Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939), avaliando como ela está presente ou não na história da fotografia contemporânea, já que a guerra e suas consequências – quase meio século de ditadura militar – não tinha alusão ou explicação nas histórias da fotografia espanhola em certo período. Para ele, às vezes, o silêncio é mais eloquente até do que a palavra.

“É interessante como a história e a política condicionam as opções estéticas e decisões

que a arte toma em um sentido ou outro. Não falo de arte política, mas de como

circunstâncias históricas podem condicionar as decisões que artistas tomam na hora

de orientar seu trabalho”. Antonio Anson

O espanhol dividiu sua apresentação falando de pais, filhos e netos, para mostrar como cada geração retratou a guerra. Para os pais, a guerra era invisível, e eles retratavam cenas do cotidiano – eles nem se consideravam fotógrafos, tinham outras profissões. Já os filhos tem uma estética mais vinculada a arte do que a fotografia documental. E os netos tratam de explorar as memórias de seus avós, memórias que não são suas, mas que eles retomam a partir de arquivos. Neste sentido, ele destaca dois fotógrafos, Javier Marquerie e Ricard Martinez, com projetos individuais e diferentes, mas que em essência buscam fotos antigas de Barcelona durante a guerra e as exibem em contraste com lugares que hoje estão restaurados e de uso da população, relembrando as pessoas das cenas terríveis que ali aconteceram em outra época.

Anson também cita Joan Fontcuberta, um dos grandes intelectuais da fotografia e, segundo ele, o artista mais internacional deste momento na Espanha. Ele explicou que Fontcuberta é apocalíptico, crê que as fotografias que vemos em festivais como o Paraty já morreram, e que prega uma reciclagem da foto, ou eco fotografia, retomando o que já foi feito.

“A fotografia muda a estrutura fundamental da memória. A memória deixa

de ser um exercício intelectual, para converter-se em um

exercício visual.” Antonio Anson