Sala de Fotografia analisa: Fotografar 2018


Inspiração! Essa foi a palavra que ficou na nossa cabeça após participar da Feira e Congresso Fotografar 2018. Mergulhar no processo da fotografia, experienciar as possibilidades, questionar as motivações, buscar e estudar novas referências, aguçar a criatividade e cada vez mais instigar a curiosidade. Só assim o fotógrafo poderá expressar sua sensibilidade em verdadeiras memórias fotográficas, capazes de nos impregnar de sentidos imagéticos neste universo contemporâneo.

Aprendemos isso e muito mais na Feira e Congresso Fotografar 2018, o maior evento de imagem da América Latina, promovido pelo Grupo Fhox entre os dias 3 e 5 de abril no Shopping Frei Caneca, em São Paulo.

Confira abaixo os pontos mais importantes das palestras que assistimos nestes três dias de imersão fotográfica.

A Fotografia de família no divã

Um dos pontos altos do Congresso Fotografar deste ano, sem dúvida, foi a palestra de Carol Pires e Simonetta Persichetti. Elas falaram na quarta, que tinha como tema geral a fotografia de família. Simonetta é professora e pesquisadora da fotografia, uma autoridade muito respeitada nacionalmente sobre o pensar da imagem na contemporaneidade. Carol Pires é jornalista e fotógrafa, desenvolvendo uma fotografia de família muito espontânea, baseada no cotidiano dos seus retratados. Juntas, elas fizeram do palco da Fotografar um verdadeiro Divã – título de sua palestra.

Carol iniciou sua fala exibindo um vídeo emocionante, no qual sintetiza muito bem o que foi falado ao longo dessa palestra. No vídeo, ela narra que a foto é uma obra aberta, ela é só o ponto de partida. Afinal, a fotografia é uma máquina do tempo, e quanto mais o tempo passa, mais vemos outros detalhes, e nossas percepções e lembranças vão mudando. Ela diz ainda que “fotografar nossas famílias é deixar pistas para serem descobertas lá na frente. Descobertas por nossos filhos e por nós, pais. Esse tesouro nos lembra como eles eram, e como nós éramos com eles. Tesouro em forma de luz e cores.” Assista o vídeo na íntegra neste link.

Simonetta explicou que a foto de família deve deixar um legado, que faça sentir por meio das imagens o cheiro, a vida, a infância, para que quem olhar essas fotos no futuro, entenda um pouco do que somos. Afinal, nessa enxurrada de fotografias, estamos criando muitos personagens, mas deixando de ser persona. A foto de família, então, traz segurança, pois não se pode fingir o tempo todo algo que não se é. Nessas raízes encontradas nessas fotos aparentemente espontâneas, se busca um pouco mais dessa essência.

“No futuro, vamos ser reconhecidos não só como sociedade do selfie, mas também como sociedade que procurou se reconstruir num mundo onde não tinha mais onde se apegar. Foto de família é essa forma de segurança e é por isso que, apesar de todas iguais, são tão diferentes.” (Simonetta Persichetti)

Para a professora, a fotografia é uma forma de iniciar uma narrativa para outras histórias. Citando o autor Alberto Manguel, ela lembrou que nossa vida é construída como ecos de outras histórias.

“O interessante é que você enxergue na sua foto, sobretudo na sua foto, coisas que o fotógrafo nem sabe que ele fotografou. Ao ver a foto de sua vó vai te lembrar de outra coisa, e sua mãe vai ver outra coisa...as vezes essa memória é até inventada, mas se tem importância pra pessoa, é o que importa. Fotografia nunca é fim, sempre é um gatilho de outras histórias. Isso que é importante com foto de família, é uma construção afetiva, toda foto faz isso, mas também a de família, se aquilo te comove, é o que está valendo ali.”

(Simonetta Persichetti)

E os fotógrafos são os profissionais que podem criar estas narrativas por meio de sua fotografia e de álbuns de família, ao mesmo tempo que criam esse conteúdo e significado a essas fotos de grupos domésticos. Para isso, de acordo com Simonetta, é preciso retratar esses instantes com sentimento, tentando ser genuíno.

“Se diz atualmente que nunca se fotografou tanto. Eu acho isso uma mentira, sempre se fotografou muito, guardadas as devidas proporções. Não me importa quem está fotografando, mas me importa que a gente não está enxergando. Esse é o problema, cada vez mais há uma superficialidade da análise da imagem. Quando a gente vê fotos de família tratadas com esse sentimento, a inspiração está na vida, e essa é a única forma da gente sair disso, é parar de ver o que os outros estão fazendo e copiar. Vamos tentar ser nós mesmos?” (Simonetta Persichetti)

Mas como ser você mesmo e ainda ser comercial, se mantendo no mercado de trabalho da fotografia? Frente às perguntas da plateia, Simonetta e Carol explicaram que tem que ser genuíno no olhar, e deixar o cliente entender o seu trabalho.