Sala de Fotografia analisa: Paraty em Foco 2018


A fotografia está ocupando um papel tão fundamental na sociedade contemporânea que agora ela se reveste não mais apenas do conceito de “isso foi”, registrando sempre um instante do passado, como sugeriu o teórico Roland Barthes. Atualmente, o mundo das imagens, quando olha para questões prementes do nosso presente, adquire um contorno de “o que será”, projetando o futuro. Este foi o conceito mais importante que apreendemos do festival Paraty em Foco 2018, que tinha como tema “Fotografia: Utopia / Distopia”. Érico Elias explicou muito bem no blog do evento a ideia do conceito:

“Quando as fotografias adentram criticamente no debate público, elas permitem mobilizar em torno de projetos de emancipação, sua função Utópica. Quando elas se limitam a reproduzir protocolos ou quando exibem o desenho de um futuro cruel, assumem uma função Distópica.” Érico Elias, fonte aqui)

A 14ª edição do festival ocorreu entre os dias 19 e 23 de setembro, na turística cidade de Paraty, no Rio de Janeiro. Trazendo diversos fotógrafos, provenientes de diversas áreas, o evento apresentou uma multiplicidade de olhares e de projetos, sempre na linha da utopia e/ou da distopia, de uma forma muito bem costurada. O projeto curatorial do Paraty em Foco, não é de hoje, é um dos melhores que já vimos nos festivais de fotografia do país. Estivemos por lá em 2015 e também em 2017. Neste ano, a Sala de Fotografia não pode estar presente, mas acompanhamos pelo Facebook as transmissões ao vivo de diversas mesas. Confira abaixo um pouco do que assistimos.

Primeiras mesas

A abertura do Paraty em Foco na quarta à noite trouxe Flor Garduño, uma das maiores referências da fotografia mexicana atual. Flor apresentou suas fotos ligadas ao mito, ao universo animal, aos índios. Contou histórias a respeito de cada foto que exibiu, coleção esta que desenvolveu nas últimas três décadas. No seu projeto Trilogia, são três séries: Bestiarium, Mulheres Fantásticas e Natureza Silenciosa. Confira algumas fotos suas aqui.

Ao ser questionada sobre as suas referências por Rosely Nakagawa, que comandou a mesa intitulada “Antropologia Onírica”, Flor citou os artistas Rembrant e Caravaggio como inspirações que apuraram seu olhar. Ou seja: como sempre afirmamos, tudo conta e inspira na hora da fotografia, e o estudo de luz que os grandes mestres pintores desenvolveram até hoje podem servir de aprendizado para fotógrafos.

Já a primeira mesa da quinta-feira trouxe ao festival dois fotojornalistas, na mesa “Brasil: ontem, hoje e amanhã”, com Luiz Morier e Marcos Santilli - por Monica Zarattini.

Marcos Santilli contou sobre o seu projeto das transformações agrícolas e de ocupação do espaço em Rondônia, que iniciou na década de 1970 e prossegue até hoje. O fotógrafo relatou que trabalhava na editora Abril, e foi designado para uma reportagem na Amazônia. Lá, ele testemunhou a chegada dos migrantes do Sul do país em terras do governo. Ele percebeu, assim, que era a sociedade industrial se colocando sobre as sociedades tradicionais dessa região, como índios, seringueiros, garimpeiros, ribeirinhos, populações tradicionais da Amazônia. Ao entender que ia ocorrer uma transformação muito grande naquele território, resolveu começar a fotografar para um projeto pessoal. De acordo com Marcos, esta área de terra foi transformada com a maior rapidez na história da humanidade: em toda a sua história, nunca uma região se transformou uma tão rápido quanto aconteceu em Rondônia. Confira fotos de Marcos no site do festival.

“O meu trabalho foi se desenvolvendo em vários subtemas. Um subtema são os índios, outro foi a ferrovia Madeira-Mamoré, que foi a primeira chegada do que chamamos civilização nessa região, e que impactou profundamente esses povos que lá viviam. E aí começaram a chegar caminhões e caminhões com famílias, um dia contei mais de 40 caminhões cheios de gente, imigrantes. Meu trabalho é sobre isso. Trabalho que conta como uma área virgem, primitiva, da Idade da Pedra Lascada, de repente se torna uma região industrial, transformando seus hábitos, sua economia, sua cultura profundamente. Fui buscar essa história das sociedades primitivas se transformando, a chegada dos primeiros colonos…” Marcos Santilli

O convidado seguinte da mesa, Luiz Morier, sempre atuou como fotojornalista, inclusive é o único repórter fotográfico do Brasil a ganhar por duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. O fotógrafo contou que sempre quis denunciar o que ocorria de errado na sociedade, e escolheu fazer isso através da imagem. Luiz foi exibindo diversas fotos suas, e o que ficou claro é que ele tem um senso de oportunidade único. Um exemplo disto é quando fotografou uma mulher que caiu em um enorme buraco na rua - mesmo quando sua pauta era sobre o som – e que foi primeira página do jornal no dia seguinte.

“A gente sai do jornal com a pauta, pra fazer uma matéria. E no meio é que você vê a coisa acontecer. Porque quando você vai fazer aquela pauta que todo mundo já sabe o que está acontecendo, chega lá e já vai ter acontecido, pode até ter uma cena, mas já aconteceu. Mas quando você está no meio do caminho, algo ainda pode acontecer. Fotojornalismo é isso: é você ver o acontecimento na sua frente. E não pode perder, tem que registrar.” Luiz Morier

O fotógrafo contou muitas outras histórias de pautas marcantes para ele, como a de uma família de moradores de rua que comiam ratos em Recife: o prefeito tinha prometido um quilo de carne pra quem levasse um quilo de ratos mortos, para acabar com a infestação nas ruas da cidade. Mas estas pessoas assavam e comiam os ratos. Ou ainda a história da foto que lhe rendeu seu segundo Prêmio Esso: a pauta era passeio com turistas, pois estava na moda andar de jipe sem capota no Rio de Janeiro. Nisso entraram dois assaltantes, e Luiz fez a sequência de fotos do assalto. Levaram a sua câmera, mas ele conseguiu tirar e esconder o filme. O guia reagiu, mas ele se colocou na frente para os bandidos poupá-lo. Veja diversas fotos de Luiz neste link.

“Quem está atrás da câmera está sentindo a emoção toda daquilo que está acontecendo. Adrenalina, às vezes felicidade: você fica feliz com aquilo que está acontecendo, porque também tem isso. E a gente quando consegue passar uma emoção pela imagem que faz, é legal. A fotografia pra mim é isso: você passar a sua emoção, a sua visão pra quem vai ver.” Luiz Morier

Para a Sala de Fotografia, ficou claro que tanto as fotos de Marcos quanto de Luiz exibem um caráter da distopia que fazia parte do tema do festival deste ano. Ao retratar um presente de denúncias e de mudanças de um estilo de vida, suas fotos caracterizam um futuro passível de estar repleto de problemas. Mas o trabalho que eles prestam, apesar de apontar para esta direção de desesperança, trazem em seu cerne a ideologia de acreditar que, ao documentar, registrar, mostrar e apontar, pode-se mudar algo e ter um impacto para melhorar esse futuro.

“O objetivo é a gente denunciar. E é muito arriscada essa denúncia. Tive momentos de até a polícia apontar a arma pra mim e dizer: se fotografar, te mato. Em 77, quando fazia faculdade de jornalismo, quando comecei a trabalhar no Última Hora, eu podia escrever, mas optei por fotografar. Meu objetivo era mostrar o que estava errado a partir da imagem.” Luiz Morier

E, sim, pode sim haver resultados práticos destas denúncias. Luiz auxiliou na queda do governo do Estado ao fazer a foto que lhe rendeu o primeiro Prêmio Esso, na qual um policial segurava a corda onde estavam presos vários homens negros. A foto, com o título “Todos Negros”, de 1983, mostrava presos que pareciam escravos – sua acusação era a de vadiagem, pois estavam apenas jogando futebol, e mesmo tentando provar que eram trabalhadores, foram presos.

Já Marcos foi um dos primeiros a levantar a bandeira da defesa do meio ambiente em reportagens, ajudando a deixar este um assunto corriqueiro.

“Nessa época não se falava na devastação ambiental. Fui um dos primeiros a fazer essa pauta. Essa reportagem da Veja foi a primeira que juntava colonização, garimpos, construção das estradas… minha intenção era mostrar o que não era mostrado, e um pouco de paixão pela questão ambiental. E era muito difícil, a segunda vez que voltei a Rondônia, depois da matéria, as pessoas queriam me bater. Tive que sair disfarçado. Você mostrava, mas o risco era seu, sobrava para você. Era um risco grande, mas era uma coisa gostosa também, porque você acreditava no que estava fazendo, e sabia que estava do lado bom da história. Eu acho que participei pra deixar isso um assunto comum.” Marcos Santilli

História

A mesa “Missões Fotográficas”, da quinta-feira do Paraty em Foco, trouxe Marcelo Greco e Monica Zarattini, por Keyna Eleison. Quem começou a fala foi Marcelo, e sua palestra foi uma verdadeira aula de história sobre um capítulo importante para a linha do tempo da fotografia: as missões fotográficas. Marcelo começou explicando o conceito.

“Missão fotográfica é um projeto criado por uma instituição pública ou privada, que agrega um conjunto de artistas - normalmente é um coletivo, no qual se estabelece uma proposta de exploração de um território e de todas as transformações sócio-culturais que esse território sofre ou sofreu. Nele, os fotógrafos têm total liberdade, sempre dentro de direção do projeto, e artistas são proprietários das obras, mas tem que ter clareza e consciência da sua responsabilidade política e social. Não existe um compromisso de ser um território que já conheça, muito pelo contrário.” Marcelo Greco

O fotógrafo explicou ainda que a primeira missão fotográfica que se tem notícia ocorreu em 1851 – pouco depois da invenção da fotografia, que data de 1839. Nesta época, a foto tinha um caráter científico, e foi por meio de uma sociedade com interesse em fotografia e ciência que nasceu o projeto de convidar cinco artistas – que depois vieram a ser fotógrafos, para traçar cinco rotas distintas cruzando a França com o objetivo de registrar monumentos históricos em ruínas. O resultado disso foram 250 ampliações e negativos, o que é um volume absurdo para a época. O material ficou guardado, e somente em 2002 se fez um livro deste projeto. Este grupo que promoveu a missão fotográfica conseguiu criar, então, uma conexão entre artistas e cientistas, fazendo com que a fotografia, naquele momento, fosse considerada como uma ferramenta de manifestação artística, e não apenas de documentação.

Para Marcelo, o interessante desta sociedade é que seus integrantes foram os primeiros a criar um periódico sobre fotografia, chamado La Lumiere. Foi no âmbito dessa sociedade que o fotógrafo Blanquart Evrard desenvolveu o conceito de livro fotográfico e desenvolveu as técnicas e as formas de produção para a viabilização de livros fotográficos. Aqui no Brasil, ainda de acordo com o palestrante, tem-se pouquíssimo conhecimento sobre ele, que é extremamente importante para a história do livro de fotografia.

Depois desta missão, há um grande intervalo de tempo até a próxima, a Missão Datar, que só viria a ocorrer na década de 1980. Durante cinco anos, 36 fotógrafos de diversos lugares do mundo – com o interesse de buscar o olhar estrangeiro sobre o território francês – registraram as transformações deste espaço como um todo, pois ali se vivia um período de grandes mudanças sócio-culturais devido a proximidade da formação da comunidade europeia. Um exemplo disso foi a desativação de muitas indústrias pesadas na França, já que esse tipo de atividade passaria para países europeus periféricos. Muitas questões estavam no ar, e que surgiram como alicerces da missão para cada fotógrafo realizar o seu trabalho, como: com o que essas pessoas das indústrias vão trabalhar? Que movimentos culturais e de migração vão ser gerados? Ao fim, foram geradas duas mil ampliações como resultado deste projeto. Nomes como do italiano Robert Doisneau, Gabriele Basilico, participaram do projeto.

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