Sala de Fotografia analisa: 5º Fórum de Economia Criativa 2019

Juntos. Este é o novo futuro: ele é coletivo. A nova organização sugere que a sociedade não espere mais apenas pelo poder público para criar soluções. Grupos voluntários começam a se formar para promover o que queremos. E foi assim que surgiu o Fórum de Economia Criativa, que tanto ensinamento entregou à comunidade de Caxias do Sul: de forma voluntária. Ele é fruto do Grupo Setorial de Economia Criativa da Microempa (Associação da Empresas de Pequeno Porte do RS), e é formado por representantes de 20 empresas do ramo criativo da cidade. Em 2019, o evento chegou na sua 5ª edição, crescendo muito em tamanho. Os dias 4 e 5 de outubro foram de muito conteúdo no Campus 8 da UCS, e contaram com mais de 1500 participantes, 35 palestras, 18 workshops, diversas atrações culturais no festival e uma feira repleta de expositores com soluções inovadoras.


A Sala de Fotografia faz parte do Grupo Setorial de Economia Criativa da Microempa. Estivemos por lá nos dois dias de evento, e contamos abaixo o que vimos nas palestras. Vem com a gente!




A sexta-feira no Palco Aconteça

Era impossível acompanhar todas as palestras do 5º Fórum de Economia Criativa. Com dois palcos simultâneos com palestras, e duas salas com workshops, era necessário que o participante escolhesse o que mais lhe interessava e procurasse pelos corredores do histórico prédio do Campus 8 da UCS o seu próprio caminho. Mas a ideia era essa mesmo: que as pessoas pudessem criar o que fazia mais sentido a elas, já que um Fórum não entrega soluções prontas, e nenhuma ideia exposta é para ser copiada, mas adaptada a cada realidade.


Aliás, o local de realização do Fórum, o Campus 8, o Centro das Artes e da Arquitetura - tinha tudo a ver com economia criativa. O prédio, que é tombado, foi inaugurado em 1961 para ser um colégio interno. Até hoje, muito da arquitetura original se mantém. Dava mesmo pra sentir uma aura boa, uma energia criativa e educacional. Os cursos da UCS que tem a sua casa no Campus 8 são, justamente, os criativos: Música, Moda, Arquitetura, Artes.


Além das palestras, o espaço ainda ganhou quatro exposições fotográficas: “Achei que era uma obra de arte”, de Sara Verza; “Singular”, de Rubia Villa; “Cidadãos do Mundo”, de Liliane Giordano; “Crua e Nua”, de Júlia Pellizari.


O tema do Fórum em 2019 era “Crie. Emocione. Aconteça”. Dois palcos levaram o nome de Crie e Aconteça, e a área do Festival, que contava com apresentações culturais, era denominada de Emocione.


Uma das primeiras palestras que a Sala de Fotografia acompanhou na sexta-feira no Fórum foi a de Danillo Xavier Saes, professor da Unicesumar. Ele falou sobre a mudança da postura do professor frente ao novo cenário da educação baseado na tecnologia.


Seu tema foi inspirado nos filmes Star Wars: “Padawans ensinam. Jedis aprendem”. Os Padawans eram as crianças aprendizes, e os Jedis eram os mestres nos longas. Ou seja: para Danillo, todos nós em algum momento somos professores de alguém. Somos também padawans eternos, que são os aprendizes. Os jedis são os mestres, mas precisam ter a humildade de reconhecer que não são donos da verdade - assim como o professor não é. Afinal, essa é uma ideia ultrapassada. O palestrante explicou que a primeira formação para professores ocorreu na França em 1774. No Brasil, só chegou em 1835. Era um curso de 2 anos, pra curso primário, e ali sim os professores eram os donos do conhecimento.

“Hoje, temos que nos colocar como aprendizes o tempo todo como professor, e aprender com aluno que talvez já leu o assunto no Google e você ainda não teve tempo. Mas as premissas ainda precisam se manter: pensamento crítico, levar o aluno a agir, didática adequada à formação e que leve o aluno a refletir.” Danillo Xavier Saes


Outra palestra do Fórum conectada com a educação foi a de Rodrigo Quintão - CEO do MundoemCores.com, uma escola de pais on-line. O tema de sua palestra era “Vencendo o conflito de gerações”. O palestrante destacou que estamos na era da adaptabilidade - antes era da estabilidade. E antes o desafio era buscar a informação, agora é de filtrar a imensa quantidade de informação que recebemos todos os dias.


Ainda sobre educação, Cris Vieira, pedagoga e doutora em Educação pela PUCRS, falou sobre “O futuro da aprendizagem”. A palestrante afirmou que outras formas de produção de conhecimento são o futuro da aprendizagem e da educação. Ela partiu do questionamento: que tipo de conteúdo não pode faltar na educação? Para ela, visão global, é um destes itens. Deve-se aprender o que acontece no mundo pra entender o que acontece na sua empresa. Além disso, é preciso entender que o mundo funciona em rede, ele é coletivo. Também precisamos de organizações colaborativas, esse é o presente e o futuro do mundo.


Cris destacou a fluência digital como algo que não deve faltar na educação, já que tem que entender do universo digital e saber como coisas funcionam. Ainda, ela comentou sobre a redescoberta da criatividade.

“Por que falamos tanto de criatividade? Porque os processos de aprendizagem são uma das competências mais bacanas de se desenvolver. O universo escolar nunca possibilitou muito a criatividade, e as pessoas acham que não são criativas. Mas todo aquele monte de meme na internet, o nome disso é criatividade. É uma habilidade inata humana.” Cris Vieira

Memorização também faz parte da educação, de acordo com Cris, mas não é só dessa forma. Deve-se ainda aprender sobre seres plurais e diversidade e, é claro, sobre responsabilidade socioambiental.

“Quando se fala de sustentabilidade, é um equívoco não pensar em três pilares: social, ecológica e econômica. Responsabilidade socioambiental implica tudo e todos e vamos ser responsáveis por isso. E por fim deve ensinar as relações humanas. Quanto mais surge a tecnologia, mais temos que falar das relações humanas, e como isso impacta na gente, como fica essa nova configuração. Precisamos pensar naquilo que produz sentido, e não só emprego e trabalho. O ser humano deve estar no centro do processo, é o foco da aprendizagem.” Cris Vieira

Seguindo no Palco Aconteça do Fórum, Laís Barboza trouxe o case da loja de presentes Imaginarium, com o tema: “As histórias que os produtos contam”. Laís é gerente de produtos da Imaginarium há 12 anos, e contou que a loja não vende só produtos, mas também ideias. O objetivo é oferecer e compartilhar ideias que surpreendam, emocionem e levem bom humor ao dia a dia das pessoas. Para a palestrante, o negócio Imaginarium é puramente emocional: visceral (o cliente diz: que lindo quero aquilo), comportamental (ajudar algo no dia a dia do cliente) e reflexivo (conta algo sobre o cliente pra com quem ele se relaciona).

“Para Imaginarium, histórias são matéria-prima de conexão. Histórias são elos que permitem relações mais verdadeiras. Queremos criar um produto com verdade que nos permita contar histórias e se conectar com a vida dos clientes”. Laís Barboza

A sexta-feira no Palco Crie

Bruno Honda Leite é designer chefe do Núcleo de animação e desenvolvimento audiovisual da Maurício de Souza Produções – os responsáveis pela famosa Turma da Mônica. Ele falou na manhã de sexta no Palco Crie no Fórum de Economia Criativa.


O palestrante apresentou dados sobre a Economia Criativa: ela movimenta 2,7% do PIB brasileiro. E isso aumenta para 18% quando se pensa em toda cadeia, com fornecedores e outros envolvidos. Na cadeia criativa, fazem parte as artes cênicas, artes, músicas, filme e vídeo rádio e tv, mercado editorial. Ou seja: é um mercado enorme que gera infinitas possibilidades.

“Parece um mercado fechado e difícil de entrar, como no cinema, por exemplo. Mas o que é legal na Economia Criativa é que ela é muito democrática. Você tem saberes que são necessários em qualquer ponta da cadeia. E quanto mais estuda, mais abre janelas de oportunidades. Independência gera independência, para trabalhar com projetos pessoais, por exemplo.” Bruno Honda Leite

Bruno também falou sobre a responsabilidade de quem cria conteúdo, já que nada melhor do que uma boa história pra passar informação. Para ele, quando conta histórias é improvável e impossível não passar um pouco do que você é, mesmo que esteja escrevendo sobre outro ponto de vista que não é o seu.

“O papel do entretenimento extrapola e muito o entreter só pra combater o tédio. É um impacto enorme, nunca se sabe onde uma história vai parar. 100% do que falamos ou ajuda a aumentar um preconceito ou a quebrar. Nada fica neutro. Cada palavra que sai da boca de seus personagens ajuda a desconstruir ou ajuda a consolidar. A gente é multiplicador. Você pode impactar pessoas que nunca foram representadas no entretenimento. E por que não fazer um mundo mais equilibrado?” Bruno Honda Leite

Por fim, Bruno ainda falou do planejamento estratégico da Mônica Toy, uma série com os personagens da Turma da Mônica em outro formato. Ela está disponível no YouTube, e tem 320 milhões de visualizações por mês, e já atingiu 4.1 bilhões de visualizações.


Outra palestra que ocorreu no Palco Crie foi “Cidades criativas: o que são, cases de sucesso no mundo e no Brasil e como implementar um programa de desenvolvimento territorial baseado na economia criativa e diversidade cultural local”, protagonizada por Marcos André Carvalho, em uma parceria com o Canal Futura. Marcos é mestre em Economia Criativa pela ESPM, e atua há 25 anos com fomento ao empreendedorismo. Também é Ex-Secretário Nacional de Economia Criativa do Ministério da Cultura (2013-2015).


Para o palestrante, nós, que somos a sociedade da era do conhecimento, no olho do furacão, não percebemos o tamanho da transformação da humanidade que é virar o milênio. Para além disso, há a revolução tecnológica. As invenções disruptivas – que em outros séculos ocorriam uma vez a cada década, como o trem, a lâmpada – agora ocorrem a cada mês. Consequentemente, isso tem mudado a nossa forma de consumir cultura, e isso gera a economia criativa.

Marcos afirmou que a economia criativa é a que mais gera trabalho e emprego no mundo. Ela é a nova economia depois da desindustrialização, pois nunca se produziu e consumiu tanta cultura: somos a sociedade que mais produz e consome na história da civilização.

“Quando compramos um produto, compramos a alma, a inspiração, a maneira de ser que aquele produto incorpora na nossa natureza. E essa maneira de ser passa pela beleza que aquele produto transmite. Quem agrega valor, quem dá beleza a esse produto? São os criativos, os inovadores.” Marcos André Carvalho

O palestrante explicou que a economia criativa se divide em três fatores: arte, plataformas e serviços. Na arte, são a música, as artes cênicas, etc. As plataformas são rádio, tv, games, entre outros. E nos serviços são moda, publicidade, eventos, etc. Esses setores representam 10% do PIB mundial.

“O artista deixa então de ser acessório, o que não deu certo, e passa a ser o fermento do bolo da nova economia cultural.” Marcos André Carvalho

A palestra ainda teve muitos dados sobre este tipo de economia. Na China, há um plano de economia criativa pra 50 anos, enquanto que o Brasil ainda vive os anos 1980 nesse assunto. No Reino Unido, é a pauta principal do país. Além disso, os games faturam dez vezes mais que a indústria centenária da música, e mais que a de música e de filme juntos.


Depois, Marcos falou sobre o impacto do turismo. De acordo com ele, o turista vai para uma determinada cidade pra consumir identidade cultural, já que toma decisões de pra onde ir por causa da vocação cultural. Ou seja: o que só aquele lugar tem, que vai fazer a diferenciação nessa indústria cultural. O Brasil está só no 44º lugar na lista de destinos turísticos, atrás até do Vietnam, da Bulgária. Com essa diversidade cultural imbatível, e com belezas naturais, precisamos então entender porque nosso projeto de turismo cultural é tão fracassado, segundo o palestrante.

“Uma cidade criativa é a que tem valor e identidade, impacto econômico e ambiente estimulante. Como podemos transformar identidade em ativo econômico? Precisamos atrair e reter talentos. Quem é talento daqui, tem que ficar aqui. E mais que isso, atrair talentos de outras cidades pra gerar ativos econômicos aqui. Precisa ter ambiente estimulante para a classe criativa. Como? Criando incubadoras, teatros, museus, oficinas de fazeres. Onde o criativo possa transitar, espaços públicos onde possam se encontrar com público. Que estimule a criação e a inovação. Uma cidade verde, com mobilidade. Afinal, como criar se fica duas horas num ônibus espremido? É uma cidade onde tem cultura da paz. Que cria um circuito com outras cidades próximas. Uma cidade alimenta a outra, turista tem interesse de ir lá e cá também. Qual a marca, a narrativa que a cidade conta sobre si mesma? Cada cidade tem que olhar a sua vocação. Não tem uma receita de bolo.” Marcos André Carvalho