Sala de Fotografia analisa: FestFoto POA 2019

Discutir algo muito além da fotografia, trazendo a arte de captura das imagens para o seu posicionamento político na sociedade em que vivemos. Assim foi o FestFoto 2019, a 12ª edição do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre. E nada mais contemporâneo do que o tema trazido pelo evento: “Da Diáspora: Identidade, Hibridismo, Diferença”. Na verdade, a imigração e o movimento dos povos sempre são atuais, já que o ser humano, desde que saiu da África e colonizou todo o planeta, nunca deixou de se movimentar. O que é novo é a forma que tentamos lidar com isso – proibindo ou permitindo, criando novas leis mais flexíveis ou erguendo novos muros.


Confira abaixo o que mais a Sala de Fotografia acompanhou no evento, de 27 de abril a 1º de maio. Neste ano, o FestFoto mudou de casa, e ocorreu na Fundação Iberê Camargo – uma edificação criada especialmente para a arte. Lá, estavam diversas exposições, que contaram com 42 artistas de 13 países.



Residência Artística

O FestFoto 2019 trouxe um elemento de inclusão e de incentivo a fotógrafos muito importante: as residências artísticas. Ao longo do semestre, os selecionados puderam construir um projeto com supervisão e auxílio da organização do Festival. O resultado dos trabalhos estavam em exposição no evento, e também foram tema de diversas mesas de discussão.


Uma delas foi a palestra “Um conto haitiano”, com o fotógrafo Mateus Bruxel e Maxony Vertu, com mediação de Maria Helena Bernardes. Mateus contou como começou seu envolvimento com Maxony: o haitiano estava chegando ao Brasil, quando Mateus o encontrou no Acre durante uma pauta para o Jornal Zero Hora em 2015 sobre o fluxo imigratório. Mateus fez uma viagem de três dias com esses imigrantes. Mais tarde, soube que Maxony veio morar em Porto Alegre, mas perdeu o seu contato. O fotógrafo contou que este trabalho lhe gerou uma inquietação, pois ele tinha vontade de reencontrar estes imigrantes e saber como estava a vida deles agora.


Com o auxílio de um centro que dá apoio a imigrantes em Porto Alegre, Mateus conseguiu reencontrar Maxony. E descobriu uma pessoa muito alegre e sorridente – que quando chegou ao Brasil estava muito sério, fruto da dura jornada para chegar ao país, que só alcançou depois de 22 dias. E Maxony sugeriu a Mateus que agora que ele já falava português, queria fazer um filme, contar a sua história. O projeto, então, é assinado por ambos, o que cabia na ideia do fotógrafo, pois esta era a oportunidade de Maxony ter voz ativa, estar falando e atuando na sua história, e não apenas estar nas paredes do museu na exposição.


“É uma questão da empatia de olhar pro outro como alguém importante. Antes de ser jornalista fotógrafo, sou um ser humano, e a empatia vem antes de tudo.” Mateus Bruxel

Maxony e um primo já tinham filmagens feitas com celular prontas, que Mateus utilizou neste projeto. Assim, eles contam sobre a terrível travessia até aqui, via República Dominicana, Colômbia, Equador, Peru e por fim, Brasil. O filme é um testemunho sobre a vida de imigrante, um relato sobre o que viveu. Mescla, assim, Maxony contando algumas coisas pelas quais passou com filmagens feitas por eles em sua casa em Porto Alegre, em uma espécie de ficção documental.


“No jornalismo, estamos acostumados a contar verdades, mas Maxony me ensina a potência da ficção de contar uma história. Não é mais a verdade, mas uma das verdades - contam histórias por elementos que são manipulados, e assim mais que trazer uma mensagem, também carregam uma voz.” Mateus Bruxel

Diáspora cristã

Outro trabalho selecionado para a residência artística foi o de Ursula Jahn, que compartilhou a mesa com Rochele Zandavalli. Ursula também se apropriou do vídeo para mostrar o seu projeto: na obra, intitulada “GÊNESIS 3:5-6” ela separa os ingredientes, faz a massa e todo o processo de trabalho de uma torta de maçã, e então come a torta, pedaço por pedaço, até o fim. Sua ideia é demonstrar que a mulher geralmente cozinha para servir a alguém, mas na sua obra, ela cozinha para servir a si mesma. Sua inspiração vem do Gênesis, livro da Bíblia, e do fardo que as mulheres ainda carregam da diáspora humana da expulsão do paraíso. Assista ao vídeo no site.

“Ainda há culpa na mulher na nossa sociedade por ter comido a maçã. No vídeo, devoro completamente a torta de maçã pra nos livrar da culpa que nós mulheres carregamos nessa sociedade, como se violência sexual e doméstica fosse nossa culpa. Ou seja: ser Eva quando nos queriam Maria.” Ursula Jahn

Foi muito interessante ver este projeto no FestFoto já que, quando pensamos em diáspora, tendemos a relacionar com as imigrações atuais. Ursula traz um outro tipo de diáspora, ou seja, a diáspora fundamental de todo ser humano, de acordo com cristianismo, que é a expulsão do paraíso, e a culpa que a mulher carrega nessa sociedade.

Já a artista Rochele Zandavalli participou da mesa ao lado de Ursula devido a ligação dos temas de seus trabalhos. Em um de seus projetos mais recentes, Rochelle se apropriou de imagens que mostrassem mamilos nas redes sociais – imagens estas que estavam sendo censuradas, e que gerou protestos mundiais por meio da hashtag #freetheniple. Isto porque o algoritmo bloqueava as fotos mais pelo mamilo em si, e não pelo contexto de sexualização. O mamilo nem sempre é representativo de pornografia, mas sim da própria natureza feminina. Depois, ela fez um vídeo com todas essas fotos que copiou da internet, que também foi censurado, apesar de ela ter tido o cuidado de não mostrar nenhum mamilo no projeto. Assista ao vídeo no site.


Descendência

“Pequena Alemanha” foi mais uma palestra com convidadas da seleção de residências artísticas do Fest Foto POA 2019 que a Sala de Fotografia acompanhou, composta por Bruna Engel e Larissa Hansen.

O projeto de Bruna remonta às suas raízes: ela retratou e pesquisou comunidades formadas por descendentes de alemães nas cidades de Montenegro, Pareci Novo, Maratá e Nova Petrópolis, região onde sua família reside. O projeto nasceu de sua estranheza quanto ao nacionalismo alemão ainda muito forte nestas localidades, que carrega um orgulho de sua descendência germânica, apesar de às vezes já ser a sétima geração a nascer em território brasileiro.


Bruna explicou que, no início do novo século, tivemos uma nova onda imigrante com ideias germanistas, querendo fundar uma nação alemã para além mar. E é uma ideia que vem pela cultura, por meio da dança, da música, da gastronomia. É por isso que as tradições são tão fortes até hoje: filhos e netos viveram isso e ainda preservam os costumes. De 1820 a 1930, mais de 200 mil imigrantes vieram ao Brasil, e o Rio Grande do Sul alocou mais de 50% dessa população.

O trabalho de Bruna foi muito interessante de se acompanhar. Foi um ótimo trabalho de pesquisa, pois partiu de uma inquietação sua: para além de só fotografar, aproveitou uma realidade que ela via e foi pesquisar porque era assim para construir seu ensaio. Essa é uma fotografia que tem diferencial, e que pode chamar a atenção do espectador para muitas coisas que permeiam nossa realidade ainda hoje. Também chama a atenção que ela fez algo rompendo com suas tradições, ao invés de só exaltar suas origens, em uma verdadeira revisão das coisas que lhe incomodavam. Bruna deixou claro que não queria criticar nada desta cultura, apenas gostaria de entender porque esse sentimento nacionalista ainda era tão forte ali.

“Não criminalizo essa prática cultural da qual eu também faço parte. Minha crítica é a aura de superioridade. Quero ajudar a quebrar o estereótipo romântico que existe nessa descendência. E só se quebra ao se mostrar.” Bruna Engel

Já Larissa Hansen fez um projeto de exaltação de suas origens. Ela contou que é de Tupandi, e que sentiu preconceito ao chegar na universidade, como se por ser do interior, seu lugar não fosse ali. Assim, começou a fotografar seu entorno, seu pais agricultores. Seu objetivo era mostrar outros saberes, quebrando a ideia de que pessoas do interior não podem ocupar espaços intelectuais ou que sabem menos do que pessoas que vivem em metrópoles. No fim, produziu um vídeo que mostra o cotidiano no interior, falado em dialeto alemão com legendas em português, nos quais os personagens são seus pais, Pedro e Lúcia, no seu trabalho cotidiano.

“A realidade é muito subjetiva, mas por eu crescer naquele lugar me pareceu sempre que aquilo era real. Sempre me perguntei porque eu fotografo o que fotografo. Por ter crescido naquele ambiente, não precisei me livrar de estereótipos pra fotografar. E geralmente o fotógrafo registra o outro, mas eu não fotografei o outro, fotografei a mim mesma.” Larissa Hansen

Em um momento marcante do festival, a professora de fotografia Marina Chiapinotto, que estava na plateia, deu voz aos personagens do vídeo, exaltando que a fotografia e arte cumprem seu papel nesses deslocamentos, já que Pedro e Lúcia vieram do interior para ingressar pela primeira vez no cubo branco (como são chamadas as galerias de arte). Talvez a frase mais marcante do vídeo tenha sido dita pela mãe de Larissa, Lúcia: “eu sempre digo que ninguém volta para casa mais bobo do que saiu”. Frase de sabedoria simples, mas que não poderia traduzir melhor o que sentimos nestes dias de FestFoto 2019.


Larissa exalta suas origens, querendo mostrar a todos que de onde vem é bom, de uma forma bucólica, nostálgica. O que não a desqualifica, porque, tal como Bruna, ajuda a quebrar um estereótipo, neste caso, de achar que quem está no interior é ingênuo. Na obra dela, notamos uma espécie de retrato em vídeo como vimos no evento Jornadas 11, no Uruguai, na apresentação de Marcelo Barbalho na sua tese de doutorado. Nos retratos filmados, a câmera fica parada, e os personagens se colocam como se estivessem sendo fotografados. Eles são uma volta a longa exposição na fotografia, como era no seu início. Mas agora, ao invés de achar ruim, está aberto ao inesperado, está à espera da ação.


O trabalho de Larissa e Bruna se junta ao de Mateus e Maxony e também de Ursula na residência artística e usa o vídeo como plataforma. Fica claro a influência da residência, então, de servir como instrumento pra tirar fotógrafos da sua zona de conforto e construir diferentes narrativas. Além de dar oportunidade a novos talentos da região e aproximá-los da comunidade.

Imigração no Século XX

Uma das primeiras palestras do Fest Foto POA 2019 foi determinante para o público entrar no tema do evento deste ano. Enrico Stefanelli, diretor do festival de fotografia Photolux, de Luca, na Itália, falou como o tema da imigração foi tratado por lá, que adotou este assunto em 2017. Ele também fez uma brilhante retrospectiva de fotos do século XX sobre o tema.

“Desde que existe homem, existe imigração: ponto que queríamos deixar claro pra quem é não é a favor e pra quem usa do medo contra esse fenômeno.” Enrico Stefanelli

O diretor explicou que no festival, procuraram chamar a atenção do público para o fato de que os italianos também são um povo de imigrantes. Por meio das fotos, mostraram dificuldades que italianos sofreram quando eram eles os imigrantes, sobretudo nos Estados Unidos, onde sofriam preconceitos.


Durante sua fala, Enrico exibiu muitas fotos históricas para a plateia. Depois de mostrar muitas imagens do início do século, da época das imigrações italianas para o resto do mundo, ele passou para o fluxo contrário: a partir dos anos 1970, a Itália passou a receber imigrantes. Por fim, ele chegou nas imigrações modernas, como em 2015, quando o país recebeu 800 mil imigrantes, com grande afluxo de pessoas que fugiam da guerra na Síria. Um dos vídeos exibidos da guarda fronteira italiana trazia imagens muito fortes sobre o resgate no mar aos imigrantes. Outro vídeo, este do fotógrafo Francesco Zizola, trouxe todo o sofrimento das migrações modernas para o público. Assista no link.


Mais um tema que o festival da Itália procurou retratar foi a integração: os imigrantes convivendo na sociedade italiana, inclusive com trabalhos qualificados, com ocupações conceituais como pinturas e esculturas.


A palestra de Enrico Stefanelli foi excelente, capaz mesmo de alterar percepções sobre o tema por meio de imagens fortes e argumentos contundentes, baseados em fatos históricos. Ele fez muito mais que só mostrar como é seu festival e fazer divulgação, ele realmente mostrou e contextualizou a crise, mostrou fotos e vídeos e soube responder as questões do público sobre a imigração na Itália e a realidade de seu país. Palestras como esta enriquecem muito a percepção do público sobre o poder da fotografia, mas não só: enriquecem sua visão de mundo.


Cidades

“Se foto serve pra olhar o mundo, que essas exposições sirvam pra gente discutir o mundo. E não fique só fotógrafos falando de fotografia em uma retro alimentação de portfólio.” Marco Antonio Filho

Foi com esta frase marcante que o mediador da palestra “Urbe global, cidades randômicas” iniciou os diálogos com Letícia Lampert e Lívia Pasqual. De fato, a fala das duas artistas serviu para que o público pudesse repensar o espaço ocupado pelas cidades nesta sociedade contemporânea.


Letícia contou sobre um projeto no qual fotografa as cidades a partir das janelas de onde não é possível ver o céu, apenas outros prédios. Assim, ela procura instigar o olhar para aquilo que falta, que não está ali.

“No momento que não vejo mais a cidade, só vejo a vida do outro, e não a paisagem, e consequentemente eu também estou na vitrine. Comecei a visitar prédios em Porto Alegre, observando, por um lado, a paisagem que não vejo e, por outro, a vida que brota pelas janelas. Visitei ambientes de vida privada, e só fotografei lugares que não aparecia céu de jeito nenhum. Quando você apaga a referência geográfica da cidade, apaga a sua identificação, assim ficam todas iguais. Pra mim, minhas fotos não são coleção de prédios, mas uma coleção de paisagens barradas. As pessoas, ao verem meu trabalho, acham que foi fotografado na sua cidade, por mais que não seja, e pra mim isso é muito emblemático.” Letícia Lampert