Sala de Fotografia analisa: Foto em Pauta 2019

O 9º Festival de Fotografia de Tiradentes - Foto em Pauta ocorreu de 27 a 31 de março de 2019 na histórica cidade de Minas Gerais. E a Sala de Fotografia esteve lá para conferir todas as atividades!

Já na primeira noite, o evento contou com um grande público com muitas atividades e exposições espalhadas pelos mais diversos espaços, desde galerias a bares e restaurantes de Tiradentes.


O projeto Foto em Pauta na Estrada, com Bruno Magalhães, João Castilhos e Pedro David, passou por Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre para conhecer artistas e produzir uma exposição. Ela foi intitulada de “Vento Sul”, e contou com 31 autores. Nestes locais pelos quais passaram, fizeram palestras, em uma espécie de caravana do festival. Os nomes selecionados foram: André Sanches, Bruna Klim, Camila Lima, Diorgenes Pandini, Dirce Kobes, Fabiano Scholl, Fábio Del Re, Fernanda Chemale, Fernanda Motta, Francisco Santos, Iasmin Daher, Janine Bello, Larissa Guimarães, Leo Caobelli, Luciana Petrelli, Lucila Horn, Marco Favero, Marcus Dutra, Mariane Rotter, Miriam Fichtner, Priscila Forone, Rochele Zandavalli e Vilma Slomp, Ana Sabiá, Ágata Schmitt, Gabriel Carpes, Lucas Pontes, Lu Berlese, Luiz Carlos Felizardo, Orlando Azevedo e Selene Samartin.


Palestras

Na primeira tarde do festival, ouvimos a artista mineira Marilene Ribeiro sobre alguns de seus projetos. Um deles era “Água Morta”, projeto sobre atingidos por barragens hidrelétricas no Brasil, desenvolvido no seu doutorado, defendido na University for the Creative Arts, na Inglaterra, em conversa com a professora Anna Karina Bartolomeu da Universidade Federal de Minas Gerais.


O projeto mostra como os fenômenos impactam a natureza e a vida em volta do que está sendo destruído. A construção de uma nova identidade, os custos e benefícios da eletricidade. Como colocar este contexto e os personagens no desenvolvimento do projeto empoderando muitas vozes. A imagem sendo construída com o protagonismo das pessoas conforme o desejo do retrato imaginado por eles com seus objetos e elementos. Marilene relatou que, de uma forma multifacetada, está se falando de energia, vida cotidiana, natureza, paisagem, da personalidade. Assim, tentou mostrar as múltiplas vertentes da história local.


“Arte, cultura, educação e um meio ambiente equilibrado é um direito de todos os povos”. Marilene Ribeiro


Na palestra seguinte, Helena Leão conversou com Scott MacLeay. Ele contou sobre suas referências e trajetória. “Que ama o acaso, mas é obsessivo pelo controle”, como sugere Helena. Scott falou como suas experiências pessoais, pensamentos e sentimentos afetam seu processo de trabalho. O que ele dá ênfase em seus trabalhos é onde os acasos e as interferências se encontram.


“Contextualizar as experiências mínimas, acho que o momento. E como contextualizar essas experiências afetam o processo de trabalho e o que as define, para falar para as pessoas de tentar contextualizar com as demais experiências que são universais. A interferência não influencia, mas não controla o encontro com pessoas mais inteligentes, com outras experiências, com outras culturas. Devemos aprender a pensar como as outras pessoas. Com honestidade e integridade, a gente faz interferência com as pessoas e o público. E assim cria um mundo controlado e prova o descontrole. As imagens às vezes não tem sentido, ou tem importância, mas quando em série fazem todo o sentido.” Scott MacLeay


A última palestra da noite, desta quinta-feira do festival de Tiradentes, teve Diógenes Moura e Tiago Santana falando sobre a exposição “Terra em Transe” e o Solar Foto Festival, de Fortaleza. Tiago, idealizador e diretor artístico do Festival, falou da proposta do primeiro festival de fotografia de Fortaleza, de pensar a atualidade política da imagem.


"O próprio ato de fazer um festival é militante, no sentido de que fazer festivais é compartilhar conhecimento, e isso é militância." Tiago Santana


Uma das atividades mais esperadas do festival de Fortaleza foi a conferência “A Decadência da Mentira”, com o pensador e artista visual espanhol Joan Fontcuberta, referência nas modernas discussões sobre imagem. Além dele, diversos fotógrafos integraram a programação do evento, como a inglesa naturalizada brasileira Maureen Bisilliat, o mestre da fotopintura Júlio Santos e a eslovena Vanja Bucan. O encontro também contou com a exibição e debate do curta “Improvável Encontro” com o diretor Lauro Escorel.


A exposição “Terra em Transe”, vinha de encontro ao tema do festival, “Abismo” e as abordagens referenciaram também ao filme de Glauber Rocha que dá nome à mostra. O curador desta mostra, Diógenes Moura que também é escritor, roteirista e editor pernambucano, foi o responsável por reunir 52 artistas nacionais, e, um olhar plural sobre os Brasis, evocando imagens de forte cunho documental e reveladoras de aspectos caros às discussões dos tempos de agora e de outrora. A exposição ocorreu no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC).


“Um filme. Um livro. Uma exposição. A carne treme. A terra treme. Há Terra em Transe. Violência e paixão: onde está o meu rosto? Quem matou o meu filho? Amor? Amor só de mãe. A imagem alucina. A fotografia está com os dias contados. A carne treme. Há Terra em Transe. A bomba relógio vai explodir”, diz parte do texto da curadoria de Diógenes.


"Não assumo trabalhos bonitos, para agradar. Quero mostrar a realidade, e por isso recorri aos registros que estavam expostos. E tão importantes quanto as imagens são os textos que as acompanham. Espero que as pessoas entrem no museu e sintam que estamos em um momento de reflexão". Diogénes Moura





Logo em seguida no palco do Foto em Pauta, ocorreu a palestra “Fotografia e Patrimônio Cultural”, na qual André Vilaron (Iphan/Brasília) fez a mediação do fotógrafo Renato Soares, que apresentou o projeto “Ameríndios do Brasil”.


“Neste momento político onde se diz que o índio não existe, eu mostro na minha fotografia que ele existe sim, está aqui. E o índio diz: nós estamos aqui, aguentando há 500 anos, então vocês vão aguentar mais um pouco.” Renato Soares


Na palestra seguinte, “Jogo de memória” a artista Aline Motta, usando fotos, textos e documentos, pretende mergulhar no passado da família para narrar episódios entremeados por racismo, loucura e morte. Aline une criação literária e pesquisa de imagens para tratar de sua história familiar, acompanhando parentes, como a tataravó Ambrosina Cafezeiro Gomes, que viveram no Rio de Janeiro no período posterior à abolição da escravatura. Este projeto de livro foi selecionado pela Bolsa ZUM/IMS, e assim conseguiu realizar a publicação. Aline contou que, no projeto, escreveu: “este não é um projeto de um livro. Este é o projeto de uma vida.” Neste trabalho, ela articulou as palavras com a memória e a pesquisa documental em uma experiência artística. Na pesquisa, Aline acabou por descobrir histórias familiares ocultas até então.


“As vozes estão voltando e querem justiça. E o que é justiça? Que tipo de reparação histórica temos para afirmar isso?”

Aline Motta


Com sua fala bem articulada, Aline demonstrou todo o seu empoderamento por meio do conhecimento e do desenvolvimento de seus excelentes projetos. Sua palestra e seus trabalhos deixaram a plateia muito atenta às suas palavras.


Júlia Rebouças, curadora, pesquisadora e crítica de arte, conversou com a artista gaúcha Romy Pocztaruk que apresentou o filme “Aterro” e seu percurso artístico.


“O limbo afinal é um artefato tecnológico.” Romy Pocztaruk


No projeto “Aterro”, ela trabalhou com ideias, e não com mídias, e isso lhe conferiu liberdade. Este trabalho foi realizado com outros dois artistas: Daniel Galera e Marina Camargo. A ideia foi trazer uma visão sobre as cidades, provocando uma reflexão sobre como seria o fim do ambiente urbano, no qual a natureza voltaria a reinar.

Julia disse que o avesso da história ‘é a mentira, estamos na era da mentira cabal.’


A curadora relembrou uma série de Romy Pocztaruk, intitulada “A Última Aventura” - em que a artista investiga vestígios materiais e simbólicos remanescentes da construção da rodovia Transamazônica. Para ela, neste projeto, Romy faz um resgate de memória ao construir uma memória ficcional, um trabalho menos racional e que vai para o lugar da imaginação.


“O futuro está às nossas costas, o que está nos nossos olhos é o passado. Porque tem que imaginar e acompanhar a utopia e não olhar para o presente.” Júlia Rebouças


Ainda nesta mesa, se discutiu a crise de representação na arte, na qual as criações não dão conta de todos nós. A ciência pode ser como uma ficção, quebrando um paradigma e criando outros. É possível usar a criatividade para descobrir como a estrela brilha, a terra gira. Podemos pensar a falha da ciência como um pensamento que foi construído.


Viagens e experiências

Cultura, natureza, vida selvagem, histórias e relações transformadoras na vida do fotógrafo viajante Cristiano Xavier foi o tema da próxima mesa no Festival. Ele conversou sobre expedições fotográficas, suas viagens e experiências com João Marcos.

E a noite em Tiradentes ficou iluminada com a caminhada da Via Sacra! A procissão saiu da Igreja Matriz de Santo Antônio, percorrendo o Centro Histórico.

A Semana Santa, celebração da fé e da cultura, é uma tradição nas cidades históricas de Minas Gerais. Em Tiradentes, as tradicionais celebrações já ocorrem há mais de 300 anos.


No sábado, Ana Sabiá, Dirce Körbes, Luciana Petrelli e Lucila Horn apresentaram o trabalho desenvolvido em Florianópolis pelo Núcleo de Estudos em Fotografia e Arte – NEFA, dedicado a estudar, pesquisar e produzir pesquisas autorais em fotografia no campo da arte.


O Núcleo de Estuados em Fotografia e Arte, criado em 2014, e coordenado por Lucila Horn, tem como finalidade reunir pessoas interessadas em estudar e desenvolver projetos e pesquisas, arte e processos de criação. Ele se desenvolve como um coletivo que se reúne para estudar e elaborar poéticas visuais, projetos e propostas expositivas.


O grupo apresentou alguns de seus projetos e ações desenvolvidas para a plateia. O NEFA tem objetivo de formar e não formatar para aprender olhar sobre o seu trabalho. E pensar em um posicionamento crítico e político, com um grupo de pesquisa e para criar publicações.


Célia Corsino, superintendente do Iphan de Minas Gerais, apresentou a revista do Patrimônio e o patrimônio do nor