Sala de Fotografia analisa: III Colóquio de Fotografia da Bahia

O Colóquio de Fotografia da Bahia se propõe a promover o diálogo entre autores de pesquisa acadêmica, geralmente vinculados a programas de pós-graduação, e os criadores artísticos, que experimentam a fotografia no plano poético. A III edição do evento ocorreu na Escola de Belas Artes da UFBA, entre os dias 24 e 25 de outubro de 2019, em Salvador. O tema desta vez foi sobre a Fotografia Latino-americana - percursos e protagonistas.



Primeiras apresentações

A primeira palestra, que ocorreu na quinta-feira, dia 24 de outubro de 2019, foi a "Fotografia latino-americana, tendências e perspectivas" com o professor da Universidade Regional do Cariri (CE), Titus Riedl. Ele apresentou o percurso da fotografia latino-americana a partir de suas investigações e participações em diversas exposições, encontros acadêmicos, galerias, festivais e pesquisas em redes sociais.

Buscou instigar, assim, uma reflexão sobre visões estereotipadas e também inovadoras da fotografia e apontar para possíveis novos rumos. E fez uma breve análise das antologias e dos foto-livros publicados no país e também na Europa e nos Estados Unidos.

Titus iniciou falando sobre as viagens pitorescas pela América Latina, fazendo um percurso histórico da pouco contada fotografia latino-americana popular, que está na memória da população, mas é uma fotografia artisticamente não elaborada e não reconhecida. Os fotolivros sobre a América Latina conhecidos não são de fotógrafos latinos – são obras que inspiram pela riqueza cultural, mas que contém uma narrativa diferente, de um olhar estrangeiro. Como exemplo, temos Marcel Dupont e Pierre Verger – este último um francês radicado na Bahia que fez um trabalho rico de documentação, o que compõe a presença da Bahia nesta narrativa da América Latina.

Já nomes de fotógrafos que são referências importantes na divulgação da América Latina são exemplos Pedro Meyer, o peruano Martín Chambi - que é considerado o primeiro fotógrafo indígena latino-americano a retratar seu povo para construir o patrimônio imemorial - o mexicano Manuel Alvarez Bravo – que realizou seus primeiros daguerreótipos em 1915 e foi um do que mais influenciou a tendência da fotografia latina, com um olhar poético e humanista, que muito corresponde a este realismo mágico que ganha o mundo.

O professor também mencionou o brasileiro Sebastião Salgado, que, de acordo com ele, talvez seja o que mais conseguiu projetar sua marca, apesar de não contemplar em seu trabalho tanto o registro da América Latina. Para um olhar mais romantizado e encantador dos indígenas, Titus relembrou Claudia Andujar, uma das pioneiras do século XX – que ressaltou o papel de resistência dos indígenas. Já a fotografia afrodescendente não está muito representada na história: temos Pierre Verger com o trabalho sobre os Orixás. E hoje temos Walter Firmo, Eustáquio Neves, André Cipriano, Heráclito, Marta Azevedo, Rosana Paulina, que tem uma repercussão boa.

Estes estudos, ainda segundo o palestrante, tentam mostrar uma narrativa que foge um pouco do olhar eurocêntrico. Afinal, é uma fotografia que busca uma nova perspectiva. Luís Gonçalves Palma - que vive na Argentina, está em grande parte das publicações, mas tem outros tantos que não constam nas referências. Miguel Rio Branco e Mario Cravo Neto mantém são uma constância nestas obras.

Tito ainda destacou o olhar feminino que também está presente, como Frida Kahlo, que não é fotografa, mas que as suas imagens estão relacionadas a fotografia, (o pai era fotógrafo, e ela por sua vez era uma grande colecionadora). E também foi modelo para muitos fotógrafos, dentre eles Lola Alvarez Bravo, esposa de Manoel e uma excelente profissional, que traz o espirito de libertação do México. Outra figura é a italiana Tina Modotti, que associou a sua presença no México, e tem muitas participações até mesmo no cinema.

Continuando na temática feminina, o professor ressaltou que a mulher tem um lugar de destaque na atualidade. Mulheres que fizeram vanguarda, trouxeram um olhar do abstrato ao concreto, sem um limite. Uma das pioneiras foi Graciela Iturbide, que trouxe este olhar mais concreto e conviveu com diversos dos grandes destaques da cultura latina, como o escritor Gabriel Garcia Marquez. Mariana Yampolsky nasceu nos EUA, mas desenvolveu todo seu trabalho no México. Gertrude Duby Blom, que nasceu na Suíça - o que se repete: muitas nasceram em outros países, mas se apaixonaram pelos povos indígenas - e hoje tem uma casa em Oxaca com suas referências aos índios. Kati Horna era húngara, mas também associada no México. A alemã Grete Stern foi uma das pioneiras da fotografia na Argentina. Ane Mary foi uma das pioneiras da fotografia de celebridades, também na Argentina.

A nova geração foi incentivada a partir dos trabalhos na Funarte com Ângela Magalhães e Nádia Pelegrino, que iniciam um movimento nos anos 80 e 90 dos encontros, festivais.

A partir dos anos 90, acontece um movimento que não tem interesse em agradar muito pela poética, e entra em outro aspecto do documental. No Brasil, Cassio Vasconcelos e Claudia Jaguaribe retratam esta selva de pedra, com um olhar mais arquitetônico.

Um nome contínuo dos colóquios, o Marcelo Brodsky, que trabalha entre Buenos Aires e São Paulo, perdeu um irmão que desapareceu e fez disso um dos seus assuntos relacionado aos direitos humanos.