Sala de Fotografia analisa: V Fórum Latino-Americano de Fotografia

Pensar a noite como uma forma de refletir, fortalecer laços e conexões, gerar informação e definir estratégias de mudanças para a coletividade.

Assim, com uma temática forte e grandes nomes da fotografia da América Latina, iniciou mais um Fórum Latino-Americano de Fotografia. A quinta edição do evento ocorreu no Itaú Cultural, em São Paulo, entre os dias 12 e 15 de junho de 2019, com o tema “Ainda Há Noite”.


O Fórum veio para questionar a ideia de que o dia torna as coisas mais claras, enquanto a noite recobre tudo com um véu de sombra e mistério. Confira o que a Sala de Fotografia acompanhou nestes dias de evento.



Primeiras discussões

O diretor do Itáu Cultural, Eduardo Saron abriu o evento, seguido de apresentação do doutor em psicologia, Contardo Calligaris.

“Nos últimos 30 anos o que nos mobiliza no que diz respeito a desenho de política ou ação cultural é o velho modo tão repetido e usado da tal democratização do acesso”. Eduardo Saron

Eduardo iniciou sua fala com a ideia de que diante deste público que são mobilizadores da cultura e refletem sobre esta democratização, é preciso ter cuidado com a lógica de quanto mais pessoas melhor. Pequenas experiências com poucas pessoas não deixam de ser relevantes. Ainda, é preciso cuidar com a espetacularização dos eventos: a pompa não é mais importante que os artistas e/ou agentes culturais que estão por trás do evento. Ele fez uma analogia com a sigla CEP – código de localização analógico com a ideia de C de catraca – muitas pessoas, E de espetacularização dos eventos e P de prédios e espaços para a cultura, sem uma preocupação mais séria com as ações e com os prédios históricos que já existem. Isso tudo sobre a égide da democratização do acesso. Precisamos evoluir com relação a este aspecto, esta métrica.

“Quero trazer para vocês uma palavra que foi citada há 71 anos na declaração dos direitos universais, quando se permeia pela primeira vez a questão dos direitos culturais, lá no artigo 27, quando se fala de arte, cultura, acesso a ciência. A declaração utiliza uma palavra que é, ao meu ver, muito precisa e que precisamos praticar esta alavanca que está contida na democratização do acesso, mas não parar por aí. A declaração no seu artigo 27 fala em participação”. Eduardo Saron

A palavra participação, ainda de acordo com Eduardo, é a grande virada para fazer uma ação cultural, e desenhar uma política cultural para não ficar refém do CEP. Este também é um caminho para trocar o CEP por outras três palavras: Fruição, que seria uma troca entre o repertório do sujeito e o repertório do artista que está propondo. A segunda palavra seria fomento, pois não há uma política de fomento para as artes no Brasil. E a terceira seria formação, já que não há como pensar em democratização de acesso, sem pensar em formação para que haja uma democracia cultural.



O doutor em psicologia Contardo Calligaris iniciou falando sobre os paradigmas da noite. Ele falou sobre o medo do escuro, que começamos a ter entre os 2 ou 3 anos até o dia que poucos dizem – o medo do escuro tem uma relação direta com o medo da noite. Só se passaria a não ter medo da noite quando o dever de proteger de alguma forma passa por cima do medo, nos tirando desta fobia. De acordo com Contardo, o medo do escuro seria o temor da separação, da ausência de outros.

“Se alguém me perguntasse o que penso sobre fotografia, eu diria que ela me seduz, pela sua imobilidade, o seu silêncio. Eu não gosto do Instagram porque é muito barulhento.” Contardo Calligaris

Com esta perspectiva temática “Ainda há noite”, iniciou-se uma grande discussão para se pensar a noite como possibilidade de criação e reflexão.


Narrativas

Outra mesa do Fórum Latino-Americano de Fotografia foi “A realidade e suas narrativas ficcionais”, com a presença de Cristina de Middel (fotógrafa documentarista e artista espanhola), do colombiano Jaime Abello (diretor geral e co-fundador da fundação Gabriel Garcia Marques para o novo jornalismo ibero-americano) e Verônica Stigger (escritora e crítica de arte). A mediação foi do jornalista e gerente do núcleo de literatura e áudio visual do Itau Cultural, Claudiney Ferreira. A ideia da mesa era discutir o mundo a partir do cruzamento de realidades e ficções.


O mediador Claudiney iniciou explicando que o exercício da escuta é muito importante quando se trata de discutir realidade ou ficção. Sempre que grandes eventos acontecem e as imagens impactantes nos impressionam e geram discussões, são sempre mediados pelo filtro de uma notícia. Ele citou as imagens de diversas situações que geram um impacto, e uma discussão como a trazida pela escritora Susan Sontag no livro “Diante da dor dos outros”, que as pessoas que conseguiram se salvar não diziam o que seria comum, como “parecia um sonho”. Elas diziam que “parecia um filme”, ou seja, a catástrofe sendo construída pelo cinema na ficção científica. Assim nosso imaginário foi criado.

“Gabriel Garcia Marquez dizia que escrevia só a realidade, nada era mágico, que ele nem tinha imaginação, escrevia sobre a realidade, tudo era realidade”. Claudiney Ferreira

Claudiney ainda relatou que em uma entrevista que fez com Darci Ribeiro, questionou porque ele começou escrever a ficção. Sua resposta foi porque o ensaio e estudo antropológico não dão conta de explicar a realidade. Com estas provocações, Claudiney perguntou então aos convidados da mesa: “A realidade e a ficção estão cada vez mais próximas na construção dos nossos imaginários?”

“Acabamos de fechar uma época que se deu muita credibilidade ao documento e todas as ferramentas que tínhamos para gerar documentos viraram deuses. Agora estas ferramentas e as plataformas estão sendo questionadas. Mas a ficção é uma das características que diferencia os homens dos animais, que faz do homem ter a capacidade de transcender, de imaginar um futuro, de construir narrativas. Toda a história da humanidade, desde o início, está marcada pela ficção.” Cristina de Middel

Ainda de acordo com Cristina, isso faz com que se tenha temporadas de mais likes e outras que tem menos. Agora, estamos em uma época que a imaginação está tentando voltar à tona, muitas vezes fazendo uma negação da racionalidade. Assim, estamos sofrendo um excesso de não-ficção. Ou seja, parece que tudo é uma verdade absoluta nas redes sociais.


Veronica citou que o que é curioso é que estamos vivendo um momento de fakenews, e o que é mais impressionante são as imagens, o que questiona a verossimilhança.

“No nosso tempo, a crença na descrença vai se dar em um outro tempo em relação às fakenews, um grupo fechado que não se tem o controle, a crença não está no conteúdo, mas no meio de onde elas vem, ah! Se chegou pelo whatsap está correto, é verdade e nem mesmo nas redes sociais como Facebook que ainda é aberto, não se questiona isso”. Verônica Stigger

Jaime Abello, falou de um perspectiva do jornalismo, da sua preocupação com o uso da guerra da narrativa, ou seja, da ficcionalização da realidade.

“Um relatório anual sobre os meios digitais, numa mostra de 38 países no mundo, o país com o maior número de pessoas preocupadas entre distinguir verdades e mentiras é o Brasil. 85% dos brasileiros responderam à pesquisa que estavam preocupados com isso. E o segundo dado importante é que o país do mundo em que o Whatsapp se converteu na rede principal para compartilhar de maneira privada e discutir notícias é também o Brasil, com 53% de usuários. Qual o problema? Uma queda mundial de credibilidade no jornalismo, relacionada à confiança e a muitas coisas, não só o jornalismo mas nas instituições da democracia. O que pode-se colocar como objetivo é: quais são os caminhos pela perspectiva do jornalismo e as suas funções para a democracia. Como o jornalismo deve assumir e tratar as narrativas de ficção e quais são as fronteiras, as separações destes domínios, esta é uma questão a se discutir. Isso tem a ver com o jornalismo escrito, mas também com o jornalismo visual.” Jaime Abello

Ainda de acordo com Jaime, isso é um debate pela sobrevivência dos periódicos e um debate de ética, sua intencionalidade e o pacto em leitura com o público. É necessário ser transparente.


Cristina disse que não só é um problema dos periódicos e dos fotojornalistas, mas um problema filosófico. Hoje, temos que buscar os artigos de opinião para dar mais razão a ter uma opinião própria, e isso para validar uma informação. Assim, forma-se uma opinião a partir de outras opiniões. Para ela, precisamos mudar a mentalidade da audiência, para que não se busque a verdade, mas sim opiniões importantes para se equilibrar as versões e as fontes, incluindo uma interpretação e uma análise sobre os fatos. É importante formar uma sociedade mais crítica para esta nova estética e ética em um debate público para enfrentar essa era digital.

“Se só se ler os jornais não vai compreender o mundo” Cristina de Midell

A mesa ainda questionou-se como se chegou a esse momento das fakenews. Alguns fatos foram levantados, como o plebiscito da paz na Colômbia, e depois as eleições de Donald Trump, nos Estados Unidos. Mas Cristina questiona se ainda não começou no dia 16 de abril de 1969 quando foram feitas as filmagens do homem na lua. Cristina fez um projeto fotográfico ficcional de astronautas na África, intitulado “The Afronauts”, colocando as questões sobre o homem ir à lua, e a reação das pessoas ao pensarem sobre o estereótipo da África ter um programa espacial. Com este projeto produziu um livro, que ganhou repercussão internacional. Veja imagens do projeto neste link.


Os convidados da mesa concordaram que o efeito do excesso de informação é um problema de cidadania, um elemento essencial para as discussões contemporâneas.


Escutas

O Fórum Escuta foi um espaço participativo e democrático, que propôs discussões importantes sobre o futuro da fotografia, um compartilhar incrível de ideias, experiências e proposições sobre educação visual. E ainda trouxe um pensar filosófico sobre a linguagem, a estética, a criticidade e o poder da imagem fotográfica. Assim, foram compartilhadas experiências e discussões sobre questões importantes relacionadas aos festivais de fotografia e suas conexões na América Latina, reflexões sobre gênero, linguagem e cultura visual.


Esta atividade teve mediação de Andrea Josch (Chile), Daniel Sosa (Uruguai), Guadalupe Lara (México), João Kúlcsar (Brasil) e Tiago Santana (Brasil).


Muitas discussões estiveram em pauta. Uma delas é a de que temos que parar para ouvir as vozes que foram silenciadas, é o momento de gerar novas reflexões com o que está acontecendo, fazendo paralelos da latinidade, que foi o que deu origem ao fórum. É preciso ver o coletivo.


Ainda, foi discutido que é preciso aprender a desaprender – a conversa começa com a escuta – uma escuta transversal. Somos comunicadores da realidade e assim é necessário que escutemos, temos que desaprender para olhar as coisas de outra forma. Intensificamos as diferenças, mas nessa dinâmica compartilhamos um reconhecimento da América Latina, em nível fotográfico, estamos em sincronismo com o restante do mundo, mas estamos trabalhando com o tema da noite que é uma das nossas crises comuns, para encontrar novos sentidos, com um percurso estético e de contexto.


Há muitas histórias para contatar, por isso é muito importante estudar, frequentar as universidades para desenvolver um olhar crítico, e participar, conviver, para desenvolver seu processo artístico. E com isso construir uma possibilidade de ver as identidades, com isso aprender a respeitar o passado, esquecendo as crenças e estabelecendo novas possibilidades de repensar e ressignificar os encontros para tomar uma postura também política. Restaurar os laços das comunidades – coabitar e conviver. Afinal, quem tem memória tem poder.


Ainda, não devemos separar imagens de palavras, estamos na era da democratização da cultura visual, mas com as narrativas visuais em crise.


Já a mesa “Un abrazo Latinoamericano”, com Octavio Santa Cruz (Peru) e Rosana Paulino (Brasil) foi um momento de refletir sobre a diversidade de raça, gênero, música e imagem que constituem nosso continente.